Durante anos, Camila Batista acreditou que viver com a pele machucada fazia parte da sua rotina. As feridas, a coceira intensa, as noites mal dormidas e as limitações impostas pelas crises se tornaram tão frequentes que ela deixou de perceber o quanto a doença afetava sua vida.

Aos poucos, a dermatite atópica deixou de ser apenas uma condição visível na pele e passou a determinar escolhas diárias: a roupa que vestia, os lugares que frequentava, os compromissos que aceitava e até a forma como se relacionava com outras pessoas.

“Eu já tinha aceitado viver com a pele machucada, lesionada. Aquilo era o meu normal do dia a dia”, conta Camila, hoje com 35 anos, analista de legislação e criadora de conteúdo sobre a doença. “Eu não conhecia mais a cor natural da minha pele. Não dormia direito, estava acostumada a viver com a pele sempre irritada, ferida e muito seca.”

A história de Camila começou na infância. Diagnosticada com dermatite atópica nos primeiros meses de vida, ela cresceu convivendo com uma rotina intensa de cuidados. A mãe acompanhava de perto a hidratação da pele, fazia bandagens quando necessário e buscava alternativas médicas para controlar os sintomas.

“Eu lembro da minha mãe comprometida em passar creme em mim, fazer bandagem nos meus braços. Eu acordava com os braços bem machucados e achava tudo muito chato”, relembra.

Na adolescência, os sintomas praticamente desapareceram por alguns anos, mas retornaram de forma mais intensa na vida adulta. Foi então que a doença passou a ocupar cada vez mais espaço em sua rotina.

Dermatite atópica vai além das lesões na pele

A história de Camila ajuda a mostrar por que a dermatite atópica não deve ser entendida apenas a partir das marcas que deixa na pele. Para compreender a doença e seus efeitos, é preciso considerar também os mecanismos que estão por trás das crises e a forma como elas podem se manifestar ao longo do tempo.

Segundo a dermatologista Michelle dos Santos Diniz, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), regional Minas Gerais, uma das principais diferenças entre a dermatite atópica e uma irritação comum está justamente na característica crônica e inflamatória da doença: “A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica, com participação de fatores genéticos, alteração da barreira cutânea, fatores ambientais e desregulação do sistema imunológico. Não é simplesmente uma alergia na pele”, explica.

A médica destaca que a doença pode estar associada à chamada inflamação tipo 2, processo imunológico também relacionado a condições como asma, rinossinusite crônica e esofagite eosinofílica.

“A dermatite atópica envolve uma resposta imunológica complexa, mas a inflamação do tipo 2 tem papel central em grande parte dos pacientes. Essa compreensão foi fundamental para o desenvolvimento de terapias que atuam de maneira mais específica em determinadas vias inflamatórias”, afirma.

No Brasil, a dermatite atópica chega a atingir até 20% das crianças, 14% dos adolescentes e 3% dos adultos. Entre as crianças, 7,6% apresentam a forma grave da doença, segundo dados citados em protocolos de saúde pública.,

Na rede pública, entre 2024 e 2025, foram registrados mais de mil atendimentos hospitalares e mais de 500 mil atendimentos ambulatoriais relacionados à doença em todo o país, de acordo com o Ministério da Saúde.

Quando a doença começa a ocupar todos os espaços da vida

Na fase adulta, os sintomas de Camila se intensificaram. Entre os 18 e 26 anos, ela passou a conviver com crises constantes e com dificuldades para encontrar um acompanhamento que considerasse a dimensão do problema.

“Eu ia sozinha aos médicos e acontecia muito de eu sentar em um consultório e o médico não me olhar adequadamente ou dizer que era só hidratação, quando eu sabia que hidratação não era mais o suficiente”, relata.

A frustração com as consultas fez com que, em alguns momentos, ela interrompesse o acompanhamento. Sem controle adequado, a dermatite atópica passou a interferir em diferentes áreas da rotina.

O impacto aparecia também durante a noite. A coceira fazia com que o sono se tornasse fragmentado e insuficiente. “A gente não dorme quando os sintomas estão ativos. Acorda se coçando muitas e muitas vezes. Teve uma época em que eu realmente não conseguia dormir. Minha mãe colocou a minha cama no quarto dela porque uma coisa que me trazia um pouco de alívio era fazer compressa gelada”, conta.

A privação de sono afetava o humor, a concentração e as atividades acadêmicas e profissionais. No trabalho, Camila faltava com frequência e tentava esconder as lesões: “Usava maquiagem, vestido longo para esconder as lesões. Tinha muita vergonha de mostrar.”

Além do desconforto físico, havia o impacto da reação das outras pessoas. A aparência das lesões gerava comentários, julgamentos e situações constrangedoras.

“É muito difícil explicar o que é dermatite. Algumas pessoas achavam que eu tinha uma alergia, mas não entendiam como funcionava. E existem pessoas que são extremamente desagradáveis. Elas abordam, repreendem, achando que a culpa é nossa.”

______________________________

1. PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS DA DERMATITE ATÓPICA. Disponível em: Dermatite Atópica. Acesso em: 21 set. 2026.

2. Atopic dermatitis in the pediatric population - Annals of Allergy, Asthma & Immunology

O desafio de reconhecer quando não há controle

Um dos desafios de quem convive há muitos anos com a dermatite atópica pode ser justamente perceber a dimensão que os sintomas alcançaram.

Segundo Michelle, a adaptação à rotina da doença pode fazer com que sinais importantes sejam tratados como normais. “Porque a doença pode acompanhar o paciente durante anos. Algumas pessoas passam a considerar normal dormir mal, coçar a pele diariamente ou conviver com lesões e sangramentos”, afirma.

A dermatologista Michelle dos Santos Diniz, presidente da SBD – Regional Minas Gerais, explica os impactos da dermatite atópica e os desafios para o controle da doença na vida adulta

Arquivo pessoal

A médica explica que avaliar o controle da doença não significa observar apenas a aparência da pele.

“É preciso perguntar ao paciente se ele está deixando de fazer atividades, evitando situações sociais, tendo dificuldade para trabalhar ou estudar. O controle da doença deve considerar tanto a pele quanto a vida do paciente.”

Para Camila, essa percepção veio aos poucos. Mesmo produzindo conteúdo na internet e conversando com outros pacientes, ela ainda não dimensionava o quanto a condição comprometia sua qualidade de vida.

A mudança aconteceu quando encontrou uma médica que avaliou sua situação de forma mais ampla e apresentou uma possibilidade de terapia-alvo. Desde 2020, Camila faz tratamento com uma terapia direcionada e, com a medicação, conseguiu finalmente alcançar o controle da dermatite atópica que não havia sido possível com as classes de tratamentos utilizadas anteriormente. Hoje, mantém a doença controlada com a terapia.

“Ela segurou a minha mão, e eu entendi que poderiam existir médicos diferentes das experiências ruins que eu tinha tido”, afirma. A partir do acompanhamento e do controle da doença, Camila percebeu mudanças em situações aparentemente simples.

“O primeiro impacto foi dormir. Já tinha me esquecido de como era uma boa noite de sono. Depois, tomar banho sem sentir nenhuma parte da minha pele ardendo ou doendo. Não tenho palavras para explicar.”

Ela também voltou a realizar atividades sem organizar toda a rotina em torno da doença. “Eu passei a me descobrir como outra pessoa. Eu era uma pessoa com a dermatite [atópica] ativa e, quando ela passou a estar controlada, eu consegui viver de uma outra forma.”

A experiência de Camila ajuda a dimensionar o impacto que o controle adequado da dermatite atópica pode ter na vida de quem convive com a doença. Mas, para que essa mudança seja possível, não basta apenas o diagnóstico: o acesso ao tratamento adequado também é determinante. Nos últimos anos, o SUS passou por mudanças importantes nesse sentido, com a ampliação das alternativas terapêuticas para determinados grupos de pacientes.

Avanço no SUS amplia tratamento, mas discussão continua

Em 2025, o Ministério da Saúde atualizou o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da dermatite atópica, ampliando as opções de tratamento oferecidas pelo SUS, especialmente para casos graves em crianças e adolescentes.

A nova versão estabelece critérios nacionais para diagnóstico, tratamento, acompanhamento e regulação da assistência aos pacientes com a doença. Entre as mudanças, destaca-se a inclusão de novas alternativas terapêuticas para pacientes pediátricos e adolescentes com dermatite atópica grave. Apesar da atualização do PCDT, as novas medicações ainda não estão disponíveis para esse grupo de pacientes.

Para Michelle, a mudança representa uma conquista importante, mas também evidencia uma discussão que permanece necessária: o acesso para adultos com quadros graves. “A dermatite atópica não deixa de ser uma doença grave quando o paciente completa 18 anos. O impacto pode continuar ou até se intensificar na vida adulta, justamente em uma fase em que a pessoa está trabalhando, estudando, formando uma família e tendo uma vida social ativa”, aponta a médica.

______________________________

3. PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS DA DERMATITE ATÓPICA. Disponível em: Dermatite Atópica. Acesso em: 21 set. 2026.

Atuação da Sanofi em imunologia se insere no debate sobre avanços no tratamento da dermatite atópica e ampliação do acesso pelo SUS

Sanofi/Divulgação

“Um dos principais desafios é ampliar as possibilidades terapêuticas para aqueles pacientes que não conseguem um controle adequado com as opções sistêmicas atualmente disponíveis.”

A escolha do tratamento, reforça Michelle, precisa considerar as particularidades de cada paciente. “Não existe um tratamento único que seja ideal para todos os pacientes. A dermatite atópica apresenta diferentes graus de gravidade, diferentes localizações e diferentes impactos sobre a vida do paciente.”

Para Camila, ampliar o debate sobre acesso significa reconhecer que a doença pode comprometer trajetórias inteiras: “Existem muitos pacientes adultos que não conseguem exercer trabalho, não conseguem estudar devido ao impacto da doença. São adultos na idade, mas que ainda estão dentro de casa sendo cuidados pelos pais. E isso é muito difícil.”

Da experiência pessoal à conscientização

A experiência de conviver com a dermatite atópica também levou Camila a criar conteúdo sobre a doença nas redes sociais. A iniciativa nasceu da sensação de isolamento que viveu durante anos e da dificuldade de encontrar informações seguras.

“Eu comecei a criar conteúdo porque procurava informações seguras e não encontrava. A partir do momento em que comecei a falar sobre a doença, nasceu em mim uma responsabilidade de compartilhar conhecimento com outras pessoas que se sentem sozinhas.”

Ao compartilhar sua história, ela passou a entrar em contato com outros pacientes, médicos, associações e cuidadores e também a enxergar de outra forma aquilo que durante anos tentou esconder.

Hoje, resume essa transformação em uma frase: “Nós temos dermatite atópica, mas não somos a nossa patologia. Você não é só pele. Eu não sou só pele. Nós não somos só pele.”

Informação e acesso também fazem parte do cuidado

É nesse cenário que se insere a atuação da Sanofi, biofarmacêutica global impulsionada por pesquisa e desenvolvimento, com atuação em imunologia. Além do desenvolvimento de medicamentos e vacinas, a empresa mantém iniciativas de conscientização sobre a dermatite atópica e seus impactos na qualidade de vida.

Sanofi atua em pesquisa e desenvolvimento e mantém iniciativas de conscientização sobre a dermatite atópica e seus impactos na qualidade de vida

Sanofi/Divulgação

Entre elas está a plataforma educativa Entenda Dermatite Atópica, no Sanofi Conecta, que reúne informações sobre a doença, sintomas e impactos, contribuindo para ampliar o conhecimento de pacientes e familiares.

Controlar a dermatite atópica vai além das lesões na pele e pode significar recuperar o sono, retomar atividades e ter mais autonomia na rotina, como aponta a médica Michelle.

MAT-BR-2604149. Set. 2026.

Bibliografia

PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS DA DERMATITE ATÓPICA. Disponível em: Dermatite Atópica. Acesso em: 21 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Dermatite atópica. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/d/dermatite-atopica.

Atopic dermatitis in the pediatric population - Annals of Allergy, Asthma & Immunology

Brazilian consensus on the management of atopic dermatitis. Arquivos de Asma, Alergia e Imunologia. Disponível em: https://aaai-asbai.org.br/journal/aaai/article/doi/10.5935/2526-5393.20200066.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

George Washington University – Himmelfarb Health Sciences Library. SMHS Dermatology Faculty Publications. Disponível em: https://hsrc.himmelfarb.gwu.edu/smhs_derm_facpubs/543/.

compartilhe