Com desemprego no menor patamar da série histórica, paradoxo aponta para outro motor: a procura crescente por vagas em tribunais federais, com salários acima de R$ 16 mil e proteção constitucional contra demissão.
A taxa de desemprego no Brasil fechou 2025 em 5,1%, o menor nível desde o início da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, em 2012. O mercado de trabalho registrou recorde de 103 milhões de pessoas ocupadas, segundo dados do IBGE divulgados em janeiro deste ano.
A informalidade caiu para 38,1%, também o menor patamar da série. Na contramão do que se esperaria desse cenário, o número de brasileiros estudando para concursos públicos não recuou. Ao contrário, aumentou.
Os dados do Censo dos Concursos Públicos 2025, levantamento do Qconcursos com 13.128 participantes, mostram que, mesmo com o emprego formal em alta, a estabilidade segue como motivação principal de quase 60% dos candidatos.
A predominância está nas faixas etárias de 25 a 39 anos, perfil de quem já está empregado e busca migrar para o serviço público, em vez de sair do desemprego para ele. O recorte indica algo menos sobre carência de oportunidades e mais sobre a percepção de que carteira assinada e estabilidade constitucional não são equivalentes.
Entre os concursos mais procurados, o segmento dos tribunais ganhou espaço no ranking de preferência, com destaque para os Tribunais Regionais do Trabalho.
A pesquisa do Qconcursos mostrou, inclusive, um recorte de gênero relevante: mulheres concentram preferência por cargos em Saúde, Educação, Tribunais e Jurídico, enquanto homens priorizam as áreas Policial, Fiscal e Militar.
A área de tribunais, antes vista como nicho restrito a quem já tinha formação jurídica, passou a atrair também candidatos de outras áreas, atrás de salários iniciais acima de R$ 16 mil para nível superior.
O que mudou na carreira dos tribunais em 2026
O reajuste sancionado em dezembro de 2025 pela Lei 15.293 alterou as tabelas salariais do Judiciário Federal em 8% a partir de 1º de julho de 2026. Para um cargo de Analista Judiciário, o salário inicial passou para R$ 16.041,21.
Para Técnico Judiciário, o vencimento inicial subiu para R$ 9.776,71. Em final de carreira, esses valores chegam a R$ 24.085,22 e R$ 14.679,69, respectivamente. Os benefícios também foram ajustados: o auxílio-alimentação agora é de R$ 1.860,51, e a assistência pré-escolar, de R$ 1.288,47.
O detalhe que costuma escapar do debate sobre serviço público é a previsibilidade que esses números representam. Não há demissão por desempenho ruim sem processo administrativo formal.
Não há redução salarial unilateral. Não há fim de contrato por reestruturação da empresa. O servidor concursado, após três anos de exercício e avaliação, tem estabilidade garantida pelo artigo 41 da Constituição Federal.
Em pesquisa do Datafolha encomendada pelo Movimento Pessoas à Frente e divulgada em agosto de 2025, 75% dos brasileiros declararam apoiar a estabilidade dos servidores aprovados em concursos públicos. Desse total, 47% concordam totalmente que a estabilidade é importante para proteger o servidor contra pressões e perseguições.
A reforma administrativa em discussão na Câmara, segundo o coordenador do grupo de trabalho, Pedro Paulo, não prevê retirada de direitos como a estabilidade, mas mudanças na progressão e na avaliação de desempenho.
TRT da 3ª Região: o caso de Minas Gerais
O Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, com sede em Belo Horizonte, é um dos mais movimentados do país e ilustra a equação atual do Judiciário trabalhista mineiro: muitas vagas em aberto, concurso anterior ainda válido e estudos para um novo certame em andamento.
Levantamento divulgado pelo próprio tribunal em fevereiro de 2026, em resposta a pedido via Lei de Acesso à Informação, aponta 430 cargos vagos no quadro de pessoal, sendo 348 para técnico judiciário e 82 para analista judiciário. Outras fontes oficiais, como o portal do Conselho Superior da Justiça do Trabalho, chegam a indicar 444 cargos vagos.
A validade do concurso atual, organizado pela Fumarc, foi prorrogada até 17 de fevereiro de 2027. A administração do TRT3 informou que iniciou os estudos para um novo certame, com a expectativa de que as nomeações ocorram após a expiração da validade do edital vigente. Antes de publicar o edital, o tribunal ainda precisa contratar a banca organizadora e definir cargos, especialidades e quantitativos.
O contexto mineiro vai além do TRT3. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais e outros órgãos do Judiciário estadual também acompanham os movimentos de reposição. Para o candidato mineiro, isso significa uma janela rara: dois grandes tribunais com perspectiva de novos editais no mesmo ciclo, com salários comparáveis e exigências de preparação próximas.
A vantagem de quem já está estudando hoje é não precisar partir do zero quando os editais saírem.
Cenário nacional: 24 tribunais, ritmos diferentes
A Justiça do Trabalho no Brasil é organizada em 24 Tribunais Regionais, cada um cobrindo uma região do país. O TRT1 atende o Rio de Janeiro. O TRT2, São Paulo capital e Baixada Santista. O TRT3, Minas Gerais. O TRT4, Rio Grande do Sul. O TRT15, o interior paulista. E assim sucessivamente, até o TRT24, no Mato Grosso do Sul.
Cada tribunal tem autonomia para abrir seu concurso, contratar sua banca e definir seu cronograma, ainda que o conteúdo programático seja praticamente idêntico em todos eles. Isso significa que um candidato bem preparado pode disputar vaga em qualquer região do país.
Para quem está começando a se posicionar, vale consultar um levantamento sobre os maiores concursos de tribunais do trabalho, que organiza por região as autorizações já emitidas, os cargos vagos em cada tribunal e o status dos editais previstos para este ano. O material reúne dados que costumam estar pulverizados entre os portais oficiais e a imprensa especializada.
O Orçamento da União para 2026 prevê 6.983 vagas no Judiciário Federal, sendo 4.418 para provimento e 2.565 para criação. Desse total, 1.049 estão alocadas para os Tribunais Regionais do Trabalho.
O TRT4 (Rio Grande do Sul) é o mais avançado nos preparativos e foi autorizado para abrir certame com 346 cargos. O TRT2 (São Paulo) tem edital com 488 cargos homologado.
O TRT9 (Paraná) confirmou 187 cargos vagos e tem o concurso anterior válido até novembro de 2026, com novo edital sob análise. O TRT8 (Pará e Amapá) já tem comissão organizadora em formação. No Nordeste, o TRT22 (Piauí) confirmou início dos estudos preliminares.
Por que o interesse cresceu agora
Três fatores aparecem no diagnóstico do Censo dos Concursos para explicar o crescimento sustentado de candidatos, mesmo com o mercado de trabalho aquecido.
O primeiro é o reajuste de 8% sancionado em dezembro de 2025, que recompôs perdas inflacionárias acumuladas e tornou os salários do Judiciário Federal competitivos em relação a posições de mesma exigência no setor privado.
O segundo é o avanço da informalidade involuntária: mesmo com queda na taxa, 38,1% dos ocupados no Brasil seguem sem proteção formal completa, e a passagem do emprego CLT para o serviço público representa um salto significativo de previsibilidade.
O terceiro fator é geracional. A faixa entre 25 e 39 anos, dominante entre os candidatos, é a mesma que viveu a transição da carteira assinada como padrão para a multiplicidade de modelos contratuais (PJ, MEI, plataformas digitais, trabalho intermitente).
Para essa geração, a estabilidade não é um valor abstrato. É a diferença entre planejar a vida em ciclos de dez anos ou em ciclos de seis meses. O dado do IBGE de fevereiro de 2026 é eloquente nesse ponto: o número de pessoas trabalhando por conta própria atingiu 26,1 milhões, o maior da série histórica.
A pergunta que fica não é se a busca por concursos vai continuar crescendo. Os dados do orçamento, a movimentação dos tribunais e o perfil dos candidatos indicam que sim, ao menos pelos próximos dois anos.
A pergunta mais útil é onde concentrar a preparação. Para o candidato mineiro, o TRT3 é o gancho mais imediato. Para quem está disposto a se mudar, o TRT4 deve ser o primeiro a publicar edital em 2026, com cronograma já em definição.
Para quem prefere ficar perto de casa, vale acompanhar o calendário do tribunal regional correspondente e começar pelas disciplinas comuns, que respondem pela maior parte da prova em todos os 24 TRTs.
A janela que se abre em 2026 não é eterna. Concursos em massa costumam vir em ciclos, e o atual foi puxado pela combinação de reajuste sancionado, orçamento aprovado e vagas em aberto acumuladas desde a pandemia.
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Quem se posiciona agora estuda com o edital em formação. Quem espera o edital sair, estuda quando a banca já está em fase avançada de organização do certame.
