Um conjunto de 48 fossos escavados em Bulford, em Wiltshire, na Inglaterra, está ajudando pesquisadores a repensar a história de Stonehenge e de seus construtores. As escavações revelaram um círculo de madeira neolítico, datado de cerca de 2950 a.C., com evidências de rituais, banquetes e observações astronômicas, sugerindo que o local funcionava como uma espécie de protótipo do famoso monumento de pedra a poucos quilômetros dali.
O que torna o círculo de madeira de Bulford um protótipo de Stonehenge
A descoberta ocorreu em levantamentos arqueológicos de rotina, antes da instalação de uma base militar, quando covas isoladas revelaram um sistema organizado de fossos que sustentavam grandes pilares de madeira. De acordo com o arqueólogo Phil Harding e a equipe da Wessex Archaeology, esse círculo antecede em cerca de 500 anos o início das obras de Stonehenge, tornando-se uma das estruturas cerimoniais mais antigas da paisagem sagrada de Wiltshire.
Estudos indicam que o círculo de Bulford foi planejado com precisão cósmica semelhante à de Stonehenge. Dois postes, separados por aproximadamente 120 metros, estavam alinhados com o nascer do Sol no solstício de verão e com o pôr do Sol no solstício de inverno, sugerindo uma atenção sofisticada aos ciclos astronômicos.

Como o alinhamento astronômico de Bulford revela conhecimento do Sol
Pesquisas lideradas pelo arqueólogo e especialista em arqueoastronomia Fabio Silva, da Stone x Sky e da Skyscape Academy, mostram que o leve desvio de cerca de um grau em relação ao alinhamento perfeito pode ser explicado por mudanças sutis na posição dos corpos celestes ao longo de milênios. Isso aponta para um domínio prático de ciclos astronômicos complexos, mesmo sem instrumentos modernos.
Bulford não deve ser confundido com Woodhenge, outro monumento de madeira da região, o que reforça a diversidade de sítios rituais na planície de Salisbury. A combinação entre arquitetura, posição dos fossos e orientação solar indica um possível calendário ritual, usado para marcar o tempo e organizar festas sazonais ligadas ao movimento do Sol.
Como funcionavam os rituais no círculo de madeira neolítico em Bulford
As covas hoje vazias sustentaram grandes troncos, dispostos em círculo ou semicírculo, e guardam pistas de seu uso cerimonial. No fundo desses fossos, arqueólogos identificaram cerâmica, carvão, fragmentos de sílex e ossos de animais, indicando atividades ligadas a banquetes comunitários e ritos de passagem, com preparo de alimentos, iluminação noturna e oferendas.
Esses achados ajudam a entender as funções práticas e simbólicas do sítio, conectando o cotidiano das comunidades neolíticas a suas crenças religiosas e ao culto solar:
- Fossos: sustentavam pilares de madeira e recebiam depósitos rituais.
- Cerâmica: associada ao consumo de alimentos e bebidas em eventos coletivos.
- Sílex: ferramenta para talhar madeira e processar carne.
- Carvão: evidência de fogueiras usadas em ritos e banquetes.
- Ossos de animais: possível oferta cerimonial após as refeições.

Qual é a relação entre Bulford, Stonehenge e tradições ligadas ao druidismo
A proximidade entre o círculo de madeira de Bulford e Stonehenge sugere uma continuidade cultural e religiosa na região, com o monumento de madeira ainda em uso quando começaram os trabalhos de modelagem do terreno de Stonehenge. Pesquisadores associam esses locais a práticas que, milênios depois, seriam ecoadas em tradições ligadas ao druidismo, marcado pelo respeito à Terra, aos astros e aos ciclos sazonais.
O druidismo histórico e suas vertentes modernas mantêm festivais guiados por solstícios e equinócios, como o Alban Hefin, o solstício de verão. Ritos celebram o dia mais longo do ano e a força do Sol, e as atuais celebrações em Stonehenge, com grupos vestidos de branco aguardando o amanhecer entre as pedras, podem refletir comportamentos que já aconteciam em Bulford, muito antes da colocação dos primeiros blocos de sarsen.
Por que o círculo de Bulford é crucial para entender a origem de Stonehenge
A datação por radiocarbono dos 48 fossos, em torno de 2950 a.C., coloca Bulford como um verdadeiro laboratório a céu aberto para entender a origem de grandes monumentos neolíticos. Para especialistas como Matt Leivers, da Wessex Archaeology, essas estruturas eram formas de registrar a passagem do tempo e, ao mesmo tempo, expressar pedidos de proteção às divindades para manter as pessoas aquecidas, alimentadas e seguras.
Bulford mostra que o famoso círculo de pedras não surgiu de forma isolada, mas como parte de um longo processo de experimentação com materiais, alinhamentos e rituais. Se você se interessa por arqueologia, história antiga ou mistérios do céu, este é o momento de acompanhar de perto novas pesquisas em Wiltshire: cada novo achado pode mudar, de forma decisiva, o que pensamos saber sobre Stonehenge e sobre as primeiras sociedades que olharam para o Sol em busca de sentido e sobrevivência.




