Relatos de mulheres descrevendo a colocação do dispositivo intrauterino (DIU) como “a pior dor da vida” têm exposto um abismo entre o que se promete nos consultórios – “só uma cólica forte e rápida” – e o que muitas realmente vivem: dor intensa, sensação de desmaio e experiências traumáticas. Esse contraste, em um procedimento amplamente usado e considerado seguro, escancara como a dor feminina ainda é subestimada e mal conduzida dentro da medicina e do sistema de saúde.
A dor na colocação do DIU é realmente tão comum?
Estudos recentes mostram que a dor na inserção do DIU hormonal e de cobre está longe de ser exceção. Uma pesquisa da Unicamp com 7.259 inserções revelou que 54% das mulheres classificaram a dor como severa (nota ≥ 7 em uma escala de 0 a 10), e apenas 3% disseram não sentir dor.
Atualizações conduzidas no Caism/Unicamp, entre 2022 e 2024, apontaram que 81% das usuárias relataram dor moderada a severa, em claro choque com diretrizes oficiais que estimam menos de 5% nesse nível. Esses dados reforçam que a dor é uma experiência frequente e precisam ser levados em conta na prática clínica cotidiana.

Quais fatores explicam a variação da dor entre as mulheres?
A ginecologista e obstetra Larissa Cassiano, com mais de uma década de atuação em inserção de DIU, destaca que a dor não tem relação com “frescura” ou baixa tolerância. O procedimento envolve manipular o colo e a cavidade uterina, região íntima e altamente sensível, sendo mais invasivo que um simples exame de papanicolau.
Aspectos como o posicionamento do colo do útero, canal vaginal estreito, vaginismo e histórico de traumas ginecológicos podem intensificar a dor. Em casos raros, a dor pode sinalizar complicações como perfuração uterina ou migração do dispositivo, exigindo avaliação imediata.
Por que o DIU ainda costuma ser colocado sem anestesia?
Historicamente, a colocação do DIU sem anestesia foi normalizada como um procedimento “rápido de consultório”, o que serviu de justificativa para não incluir anestesia de rotina. No entanto, ensaios clínicos mostram que o bloqueio paracervical – anestesia local ao redor do colo do útero – reduz significativamente a dor em todas as etapas da inserção.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que a anestesia local diminui o desconforto, mas cita desafios como necessidade de treinamento, tempo extra e custos de materiais. Ainda assim, estudo publicado no Middle East Fertility Society Journal mostrou aumento de satisfação de 63% para 80% com o bloqueio paracervical, defendendo sua adoção como técnica eficaz e acessível.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube CANAL VAGINAL falando sobre a dor que mulheres sentem na hora de colocar DIU e como se preparar.
Como o sistema de saúde pode melhorar o cuidado com a dor feminina?
A discussão em torno do DIU expõe uma cultura médica que frequentemente minimiza cólicas incapacitantes, dores de endometriose, desconforto em exames e até mesmo no parto. Em vez de adaptar o procedimento, recorre-se a orientações genéricas, como “tome um analgésico antes”, que estudos mostram ser insuficientes para esse tipo de dor.
Para transformar essa realidade, é essencial adotar rotinas mais humanizadas e baseadas em evidências. Alguns pontos práticos que podem fazer diferença na experiência da paciente incluem:
- Explicação clara e antecipada de cada etapa da inserção, possíveis sensações e riscos.
- Oferta real de anestesia local (como bloqueio paracervical), discutida de forma objetiva e sem julgamento.
- Ambiente acolhedor, com privacidade, linguagem acessível e abertura para que a paciente relate medo e dor.
- Monitoramento pós-procedimento, com orientações sobre sinais de alerta e acesso fácil à reavaliação.
Como decidir sobre o DIU e cobrar um procedimento mais humano?
Apesar das experiências negativas de algumas mulheres, o DIU segue como um dos métodos contraceptivos de longa duração mais eficazes, com versões com e sem hormônio e poucas contraindicações. A questão central não é abandonar o método, mas exigir que a inserção seja feita com preparo emocional, manejo adequado da dor e respeito absoluto ao relato da paciente.
Se você está pensando em colocar um DIU – ou já sofreu com uma inserção dolorosa –, leve essas informações para sua próxima consulta e questione explicitamente sobre anestesia, alternativas de alívio da dor e forma de condução do procedimento. Não aceite que sua dor seja minimizada: peça explicações, peça opções e, se necessário, mude de profissional ou serviço. Seu corpo, sua saúde reprodutiva e o seu direito a um atendimento digno exigem atitude agora – não adie essa conversa.




