Um achado arqueológico em Carmona, na Andaluzia, surpreendeu especialistas: dentro de uma tumba romana selada há cerca de 2 mil anos, pesquisadores identificaram o que consideram ser o vinho líquido mais antigo do mundo, confirmado por análise química. Preservado em uma urna de vidro com cerca de 5 litros, o líquido estava misturado a restos cremados humanos, oferecendo pistas valiosas sobre os rituais funerários romanos na antiga Hispânia e sobre a relação simbólica entre morte, memória e bebida.
Como esse vinho romano conseguiu sobreviver por 2 mil anos
O fator determinante para a preservação desse vinho romano antigo foi a arquitetura da tumba de Carmona, um mausoléu subterrâneo escavado diretamente na rocha. Essa configuração reduziu a exposição a variações climáticas, infiltrações de água e intervenções humanas, criando um ambiente estável ao longo dos séculos.
A urna com o vinho estava no nicho 8, protegida por um invólucro de chumbo que atuou como barreira contra entrada de ar e micro-organismos. A tumba permaneceu selada desde o século I d.C., sem sinais de saque, o que explica a raríssima preservação de um líquido ainda reconhecível após dois milênios.

O que havia dentro da urna de vidro encontrada em Carmona
A urna de vidro, imersa em um recipiente de chumbo, guardava cerca de 5 litros de um líquido marrom-avermelhado, além de ossos cremados de um homem adulto. Um anel de ouro com a figura de Jano Bifronte, divindade romana associada a passagens e transições, reforça a interpretação de um ritual funerário elaborado e carregado de simbolismo.
Em laboratório, o líquido apresentou pH em torno de 7,5, distante dos vinhos atuais e indicativo de intensa degradação química. Análises por cromatografia e espectrometria de massa identificaram polifenóis típicos de vinhos e ausência de ácido siríngico, marcador de vinhos tintos, confirmando que originalmente se tratava de um vinho branco produzido na antiga província da Bética.
Por que essa descoberta é tão importante para o estudo de vinhos romanos
Até então, o caso mais famoso era o da Garrafa de Speyer, do século IV d.C., encontrada na Alemanha. O achado de Carmona se destaca porque permitiu uma análise química direta de um vinho ainda líquido, e não apenas de resíduos secos aderidos às paredes de recipientes, como ocorre na maioria dos estudos anteriores.
Segundo o estudo publicado na Journal of Archaeological Science, o perfil mineral do líquido da tumba é semelhante ao de vinhos atuais da região de Jerez. Isso abre caminho para comparações mais finas sobre produção vinícola, rotas de comércio e técnicas de conservação empregadas pelos romanos na Península Ibérica.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Olhar Digital falando mais sobre a descoberta do vinho mais antigo já encontrado.
O que a tumba romana de Carmona revela sobre rituais funerários e status social
A câmara subterrânea abrigava restos de seis indivíduos, com urnas distribuídas em nichos diferentes para homens e mulheres, sugerindo organização familiar e alto status social na antiga Carmo, nome romano de Carmona. Inscrições preservando os nomes Hispanae e Senicio reforçam a hipótese de um mausoléu de elite.
Além do vinho, arqueólogos encontraram outra urna de vidro com fragmentos de tecido, âmbar do Báltico e um pequeno recipiente com resíduos solidificados de perfume, cuja composição se aproxima de essências como o patchouli. Entre os elementos que apontam para rituais sofisticados, destacam-se:
- Uso de vinhos finos em libações e oferendas aos mortos;
- Emprego de perfumes importados ou de alto valor em cerimônias;
- Objetos de luxo, como anéis de ouro e âmbar do Báltico;
- Distribuição organizada das urnas, indicando laços familiares e hierarquia.
Esse vinho poderia ser bebido hoje e o que essa descoberta muda para nós
Embora análises apontem ausência de toxicidade microbiológica relevante, os pesquisadores enfatizam que o vinho antigo de Carmona não deve ser visto como curiosidade gastronômica. O líquido permaneceu cerca de 2 mil anos em contato com restos cremados humanos e sofreu transformações químicas profundas, sendo um bem estritamente científico e patrimonial, não destinado ao consumo.
O verdadeiro valor desse achado está em funcionar como uma cápsula histórica, capaz de iluminar práticas funerárias, hábitos de consumo e redes de comércio da elite na Espanha romana. Se você se interessa por arqueologia, história do vinho ou cultura romana, este é o momento de acompanhar de perto novas pesquisas sobre Carmona: cada novo dado pode ser único, irrepetível e decisivo para reconstituir um capítulo fascinante do nosso passado compartilhado.


