Engenheiros e empresas da Áustria vêm testando uma forma diferente de erguer edifícios altos em madeira, focada em redução de desperdício, desmontagem facilitada e adaptação ao longo do tempo. Em vez de tratar o prédio como algo fixo e difícil de alterar, a proposta transforma a construção em um conjunto de componentes que podem ser encaixados, substituídos e reaproveitados, tendo como referência o sistema MOHOHO, desenvolvido na Universidade de Tecnologia de Graz (TU Graz).
O que é o sistema MOHOHO em arranha-céus de madeira?
A ideia central do MOHOHO é criar uma estrutura principal robusta em madeira engenheirada e, dentro dela, instalar módulos pré-fabricados que funcionam como unidades independentes. Esses módulos podem corresponder a apartamentos, salas de trabalho ou outros ambientes, todos produzidos em fábrica com alto grau de precisão e controle de qualidade.
Quando chegam ao canteiro, os módulos entram na estrutura como se fossem blocos encaixados em uma grande armação, o que facilita montagem, manutenção e reforma. Essa lógica de “peças plugadas” aproxima a construção civil de um modelo industrializado, com mais previsibilidade de prazos, custos e desempenho.

O que torna o MOHOHO diferente em edifícios altos de madeira?
A arranha-céu de madeira costuma despertar dúvidas sobre segurança, durabilidade e limites de altura. O MOHOHO responde a esses pontos ao combinar construção modular e estrutura em esqueleto, reduzindo a dependência de paredes portantes e ampliando a flexibilidade de uso ao longo da vida útil do prédio.
O sistema utiliza um esqueleto de pilares e vigas em glulam (madeira laminada colada) e lajes em CLT (madeira laminada cruzada), que recebem os módulos como se fossem gavetas estruturais. Em cenários de cálculo apresentados pela TU Graz, o MOHOHO foi pensado para suportar edifícios de até 24 pavimentos, exigindo, acima de seis andares, um núcleo de concreto para estabilidade, segurança contra incêndio, vento e sismos.
Como funciona o sistema plug-and-play na prática?
O conceito de sistema plug-and-play na construção civil segue a mesma lógica de equipamentos que podem ser conectados e desconectados com facilidade. No MOHOHO, isso é viabilizado por um nó de conexão específico, projetado para transferir cargas, permitir desmontagem e ao mesmo tempo acomodar redes de água, esgoto, eletricidade e aquecimento sem comprometer a estrutura.
Para organizar o processo, o sistema costuma seguir alguns passos principais, que estruturam a obra desde a fábrica até a montagem final em canteiro, promovendo rastreabilidade e redução de erros de execução:
- Pré-fabricação dos módulos e elementos estruturais em fábrica, com cortes precisos em CLT e glulam.
- Montagem do esqueleto de pilares, vigas e lajes de madeira engenheirada no terreno, criando os pavimentos.
- Instalação dos módulos como unidades tridimensionais que se encaixam na estrutura, conectadas pelos nós plug-and-play.
- Integração das instalações prediais, aproveitando passagens previstas nos nós e nos elementos de madeira.
- Possíveis ajustes futuros, com retirada, substituição ou remanejamento de módulos conforme o uso do edifício se altera.
Quais são os principais benefícios urbanos e ambientais?
Na prática, arranha-céus de madeira com sistema modular oferecem vantagens em relação aos modelos tradicionais, desde que atendam às normas locais de segurança e desempenho. Um dos pontos mais relevantes é a redução de resíduos, já que os cortes em fábrica são otimizados e os elementos podem ser rastreados, desmontados e reaproveitados em novos projetos.
A pré-fabricação e o uso de madeira engenheirada também impactam diretamente a operação de obra, sobretudo em áreas densamente ocupadas, em que o entorno urbano é sensível a interferências e transtornos.
- Menor tempo de montagem, devido a etapas mais industrializadas e previsíveis.
- Redução de ruído e poeira, importante em bairros consolidados e próximos a habitações.
- Menos tráfego pesado, com diminuição de caminhões e materiais soltos em circulação.
- Estoque de carbono na madeira oriunda de florestas manejadas, ajudando a compensar emissões de outros materiais.
Quais desafios técnicos e regulatórios ainda precisam ser superados?
Apesar do potencial, o uso de sistemas como o MOHOHO em arranha-céus de madeira depende de verificações técnicas rigorosas e de evolução normativa. Temas como proteção contra incêndio, desempenho acústico entre unidades, comportamento sob vibrações, controle de umidade e durabilidade demandam pesquisas, ensaios e soluções de projeto detalhadas.
A presença de um núcleo de concreto em edifícios acima de seis pavimentos mostra que, por enquanto, a solução mais viável é híbrida, combinando madeira e materiais convencionais. Do ponto de vista urbano, a possibilidade de adaptar, desmontar e remontar edifícios modulares em madeira pode ajudar cidades com imóveis desatualizados ou demandas rápidas por habitação e serviços, alinhando-se a princípios de economia circular e a uma visão de ciclo de vida ampliado para os materiais.




