Em 1999, o agricultor texano Charles Bland doou cerca de 35 hectares à cidade de Taylor, no Texas, por simbólicos US$ 10, com uma condição em escritura: a terra deveria virar um parque público para as crianças. Quase três décadas depois, e após passar por várias mãos, a área foi vendida por US$ 10 milhões à empresa Blueprint, que ergue ali um data center. Os moradores, que esperavam o parque prometido, foram às ruas e à Justiça para tentar barrar a obra, sem sucesso até agora.
Como um terreno doado virou alvo de um data center?
A escritura de 1999 amarrava a doação a um uso específico, mantendo a terra em fideicomisso para servir como parque. Com o tempo, porém, a propriedade mudou de dono várias vezes, até chegar à venda para o data center, em uma sequência que os críticos veem como manobra.
Veja o caminho que a área percorreu até a venda:
- 1999: a família Bland doa cerca de 35 hectares à cidade de Taylor por US$ 10, com cláusula de uso como parque.
- 2003: a área passa por fundações de parques e é repassada à cidade de Taylor.
- 2008: a cidade vende o terreno à Taylor Economic Development Corporation por US$ 15 mil.
- 2025: a corporação vende a área à Blueprint por US$ 10 milhões.

O que será construído no lugar do parque?
No lugar do parque, surge um data center de cerca de 135 mil pés quadrados, a menos de 200 metros de casas, entre uma subestação de energia e uma linha de trem. A Blueprint projeta investir até US$ 1 bilhão no complexo ao longo de dez anos, com a criação de 20 a 30 empregos, número baixo para o tamanho da obra.
A instalação deve ocupar parte do terreno, cerca de 21 hectares, enquanto a cidade manteve cerca de 14 hectares como barreira de proteção entre o data center e a vizinhança. O projeto prevê muro, paisagismo e um sistema de resfriamento de circuito fechado, segundo a Prefeitura de Taylor.
Por que os moradores estão revoltados?
A revolta tem duas raízes. A primeira é simbólica: a terra havia sido doada para as crianças brincarem, e a intenção original da escritura está sendo deixada de lado. A segunda é prática, com medo de ruído, alto consumo de energia e água, qualidade do ar e queda no valor dos imóveis, comuns em quem mora perto desse tipo de instalação.
À frente do movimento está Pamela Griffin, moradora cuja família vive na região há gerações. Ela e parentes entraram na Justiça, mas a ação foi rejeitada e o pedido para suspender a obra, negado. Agora, recorrem ao tribunal de apelações de Austin, segundo o 404 Media, determinados a manter a luta pelo uso original da terra.

O que a prefeitura alega para justificar a venda?
A prefeitura afirma que tem pouca margem para barrar a obra. Segundo a administração, o terreno já era destinado a uso industrial pelo zoneamento, o que dá ao projeto o direito de seguir, e os ganhos financeiros beneficiariam a cidade e a rede de ensino local. A cidade ainda cita um estudo de impacto ambiental contratado para responder às queixas.
A prefeitura resume assim os ganhos esperados:
| Ponto da prefeitura | O que diz |
|---|---|
| Arrecadação | Até US$ 30 milhões em receita adicional em dez anos |
| Escolas | Cerca de US$ 20 milhões para instalações e salários de professores |
| Zoneamento | A área já é destinada a uso industrial, então a obra é permitida |
| Mitigação | Muro, paisagismo e resfriamento de circuito fechado |
O caso de Taylor é um sinal do que vem por aí?
Tudo indica que sim. O episódio se soma a uma onda de data centers que avança nos Estados Unidos e em outros países, inclusive no Brasil, onde os investimentos no setor crescem com a expansão da inteligência artificial. O choque entre arrecadação, infraestrutura digital e impacto local tende a aparecer em cada vez mais cidades.
Um terreno prometido às crianças virou peça de uma corrida bilionária por capacidade de computação. Vale acompanhar de perto como a sua cidade decide entre o dinheiro de hoje e os espaços que faltarão amanhã, quando o concreto já estiver no lugar do gramado.




