O Bradesco anunciou o fechamento da sua única agência no município de Macururé, no interior da Bahia, seguindo o padrão de reestruturação que o banco vem implementando desde outubro de 2023 e que já deixou dezenas de cidades baianas sem atendimento bancário presencial. O caso de Macururé tem um agravante documentado pelo Sindicato dos Bancários da Bahia: segundo o diretor Ronaldo Ornelas, cerca de 90% dos clientes atendidos na agência são aposentados e idosos, exatamente o público com maior dificuldade de migrar para o atendimento digital. A Câmara Municipal de Macururé realizou audiência pública para debater o fechamento.
Quantas cidades baianas já ficaram sem agência bancária
O fechamento de Macururé não é um caso isolado. É parte de um processo que o Relatório de Agências Bancárias 2025, elaborado pelo Sindicato dos Bancários da Bahia, documentou com precisão. Segundo o levantamento, ao longo de 2025 foram 48 agências fechadas e apenas duas abertas no estado. O impacto acumulado é expressivo: a Bahia iniciou 2026 com 214 municípios sem nenhuma agência bancária, o equivalente a 51,31% dos 417 municípios baianos. Entre os 48 fechamentos de 2025, 16 eram as únicas agências dos seus respectivos municípios.

As cidades afetadas incluem Caldeirão Grande, Chorrochó, Palmeiras, Rodelas, Ipecaetá e Olindina, entre outras. Em Caldeirão Grande, a Justiça chegou a proibir o fechamento e fixar multa diária de R$ 50 mil, mas o TJ-BA suspendeu a decisão em segunda instância em março de 2026, autorizando o banco a fechar.
Por que o Bradesco está fechando agências no interior do Brasil
O banco está em processo de reestruturação desde outubro de 2023, com foco na redução de custos e migração para o atendimento digital. Segundo o diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia, Ronaldo Ornelas, o planejamento estratégico previu “redução drástica dos custos de serviços” com a diminuição dos postos presenciais. O banco argumenta nas ações judiciais que cumpriu todas as exigências regulatórias do Banco Central para o encerramento das unidades.
A Justiça pode obrigar um banco privado a manter agência aberta
É a questão central em todos esses casos, e a resposta da Justiça baiana tem sido variável. Em primeira instância, municípios conseguiram liminares proibindo os fechamentos e com fixação de multa diária. Em segunda instância, os bancos têm prevalecido. No caso de Caldeirão Grande, a desembargadora Carmen Lúcia Santos Pinheiro entendeu que o banco demonstrou cumprir as exigências regulatórias para o encerramento da unidade e que, por se tratar de instituição privada, possui autonomia para decidir sobre a manutenção ou fechamento de suas agências. O argumento jurídico central dos bancos é que correspondentes bancários e canais digitais garantem acesso mínimo aos serviços, cumprindo a regulação do Banco Central sem necessidade de agência física.

O que os moradores têm como alternativa quando o banco fecha
A alternativa imediata que o Bradesco oferece é a rede de correspondentes Bradesco Expresso, disponível em lotéricas, supermercados e farmácias parceiras. Esses pontos permitem pagamentos, saques, depósitos e alguns serviços básicos, mas não oferece a amplitude de serviços de uma agência bancária completa. Para operações como abertura de conta, contratação de crédito com análise presencial, emissão de documentos e serviços relacionados à folha de pagamento de servidores municipais, a alternativa é deslocar-se até o município mais próximo com agência, o que pode significar dezenas de quilômetros de distância para moradores do interior baiano.
O que está em jogo além do acesso bancário individual
Em municípios pequenos, a agência bancária frequentemente opera como gestora da folha de pagamento dos servidores municipais e do recebimento de benefícios previdenciários. Como resume Ornelas: é prejuízo especialmente para hipervulneráveis — idosos e pessoas sem letramento digital —, e também prejuízo econômico para as cidades de pequeno porte.
Se você mora num município do interior baiano onde a única agência bancária anunciou o fechamento, o primeiro passo é acionar a prefeitura para que ela mova ação civil pública. O histórico mostra que as liminares de primeira instância têm sido concedidas, mesmo que os bancos consigam reverter em segunda instância, ganhando tempo para a população e para negociações alternativas com o banco e o Banco Central.




