O avanço recente em concreto com CO₂ está mudando a forma como a construção civil enxerga esse material tão comum em obras ao redor do mundo. Em vez de tratar o dióxido de carbono apenas como um subproduto indesejado da indústria do cimento, pesquisas atuais estudam maneiras de incorporá-lo ao próprio concreto, reforçando sua estrutura interna e contribuindo para reduzir a pegada de carbono das edificações.
O que é concreto com CO₂ e por que ele é importante?
Em um concreto tradicional, o endurecimento ocorre principalmente por reações entre o cimento, a água e os agregados. Já no concreto com CO₂, o dióxido de carbono entra como reagente extra, participando de processos de carbonatação do concreto, formando produtos estáveis que podem tornar a matriz interna mais densa e resistente.
Esse tipo de concreto sustentável busca não só melhorar o desempenho mecânico, como também capturar parte do CO₂ que seria liberado à atmosfera. Com isso, o material tende a apresentar maior capacidade de suportar esforços, menor permeabilidade a agentes agressivos e um papel mais favorável na construção sustentável global.

O que diferencia o concreto com CO₂ do concreto comum?
No concreto comum, a carbonatação ocorre de fora para dentro, de forma lenta e geralmente indesejada, podendo afetar a armadura em estruturas de longo prazo. No concreto com CO₂, a carbonatação é controlada e aproveitada como mecanismo de reforço, tornando a microestrutura mais densa e homogênea.
Em métodos convencionais de concreto carbonatado, o CO₂ permanece concentrado nas camadas mais externas, limitando o ganho de desempenho e dificultando o uso em vigas e colunas. A tecnologia em estudo na Universidade Temple surgiu justamente para superar essa limitação, promovendo uma carbonatação mais profunda e adequada a concreto estrutural.
Como funciona a cura interna e externa com CO₂ desenvolvida por Mehdi Khanzadeh?
O método de cura com CO₂ desenvolvido pelo professor Mehdi Khanzadeh, da Universidade Temple, combina o contato externo do concreto com dióxido de carbono e um mecanismo interno que ajuda o gás a se espalhar pela peça. Esse mecanismo é viabilizado pelo uso de hidrogéis no concreto, materiais com grande capacidade de armazenar líquidos e soluções enzimáticas preparadas para interagir com o CO₂.
Quando o concreto contendo hidrogéis é exposto ao dióxido de carbono, parte do gás se difunde até essas microestruturas internas, onde as enzimas aceleram reações de carbonatação do concreto. Ensaios de laboratório indicaram ganhos de cerca de 80% a 100% em desempenho mecânico e durabilidade, abrindo espaço para aplicações em elementos de alta responsabilidade e não apenas em componentes não estruturais.
O concreto com CO₂ é adequado para obras estruturais exigentes?
Para uso em larga escala, o concreto com CO₂ precisa atender plenamente às exigências de segurança de projetos complexos. Em obras estruturais, é necessário comprovar desempenho consistente sob ação de cargas, ciclos de temperatura, umidade, agentes químicos e tempo de uso prolongado, por meio de ensaios e simulações de longo prazo.
A proposta é que esse material possa substituir, em alguns contextos, misturas convencionais usadas em vigas e colunas, sem reduzir o nível de segurança exigido pelas normas. O prêmio NSF CAREER recebido em 2024 pela pesquisa de Khanzadeh reforça o potencial da tecnologia e garante apoio para ampliar a escala de testes, aproximando o comportamento do concreto das condições reais de canteiros de obra.

Qual é o papel do cimento de baixo carbono nesse tipo de concreto sustentável?
Um elemento-chave dessa tecnologia é o uso de cimento de baixo carbono, formulado para emitir menos CO₂ durante a fabricação, por meio da redução de clínquer e de processos mais eficientes. Quando combinado à cura com CO₂, cria-se um concreto ecológico que reduz emissões na produção e captura dióxido de carbono na fase de endurecimento.
A lógica é estabelecer um ciclo mais equilibrado, em que o concreto contribui para mitigar parte das emissões de CO₂ associadas à infraestrutura. Em escala global, essa abordagem pode trazer benefícios relevantes para metas climáticas e para políticas de descarbonização do setor da construção civil.
Quais são os principais benefícios do concreto com CO₂ para a construção sustentável?
O concreto com CO₂ pode impactar vários aspectos da construção sustentável, desde a durabilidade das estruturas até a redução de intervenções futuras. Um material mais resistente à entrada de água e agentes agressivos tende a apresentar menos fissuras, corrosão de armaduras e desprendimentos ao longo dos anos, diminuindo custos de manutenção.
Entre os benefícios associados a essa tecnologia de concreto sustentável, destacam-se pontos que interessam tanto a projetistas quanto a gestores de obras:
- Uso de cimento com menor emissão de CO₂ na fabricação.
- Incorporação controlada de dióxido de carbono ao concreto durante a cura.
- Formação de microestrutura mais densa, resistente e menos permeável.
- Potencial para vida útil mais longa das estruturas e menos reparos.
- Otimização de seções estruturais, com uso mais eficiente de materiais.




