No mundo do venture capital, onde a maioria das apostas grandes termina em zero, Yasmin Razavi fez uma das mais lucrativas da história recente da tecnologia. Parceira da Spark Capital, ela liderou um investimento de US$ 75 milhões (equivalentes a aproximadamente R$ 375,75 milhões na cotação de R$ 5,01 por dólar do dia cotado) numa empresa de inteligência artificial antes que o restante do mercado entendesse o que estava sendo construído. A participação da Spark Capital nessa empresa vale hoje cerca de US$ 3 bilhões (aproximadamente R$ 15,03 bilhões na mesma cotação). Essa empresa é a Anthropic, criadora do modelo de IA Claude.
Quem é Yasmin Razavi e o que a diferencia dos outros investidores de risco?
Razavi cresceu em Teerã e se mudou para o Canadá para estudar engenharia na Universidade de Toronto. O MBA em Harvard veio depois, mas foi a formação técnica que moldou sua forma de avaliar startups. Ela passou pela McKinsey como consultora, depois construiu a pilha tecnológica por trás da monetização de anúncios do Snap como gerente de produto, e em 2017 entrou para a Spark Capital como parceira. Desde então, conduziu investimentos em empresas como Marqeta, Deel, Rapyd, Niantic, Capitolis e Earnin, um portfólio que combina infraestrutura financeira, desenvolvimento de software e plataformas de escala.
O que a distingue no mercado é a rejeição ao que ela chama de “investimento orientado por instinto”. Enquanto muitos investidores apostam em fundadores carismáticos ou em narrativas de mercado, Razavi aplica análise profunda de unit economics antes de qualquer decisão. Ela quer entender o custo real de adquirir um cliente, a velocidade de recuperação desse custo e a estrutura de mercado que determina se uma empresa pode escalar sem destruir suas margens. Esse filtro técnico e econômico é o que a levou a identificar a Anthropic antes da maioria.

Por que o investimento na Anthropic foi considerado arriscado e o que Razavi viu que outros não viram?
Quando a Spark Capital fez sua aposta na Anthropic, o mercado de IA generativa ainda era dominado por ceticismo. A maioria dos fundos de venture capital evitava o setor por considerar os custos de infraestrutura proibitivos e o caminho para a receita longo demais. A tese dominante era que modelos de linguagem de grande escala seriam comoditizados rapidamente e que nenhuma empresa isolada conseguiria construir uma vantagem competitiva sustentável.
Razavi discordava. Seu histórico técnico permitia avaliar a arquitetura dos modelos e a qualidade das equipes de engenharia com um nível de profundidade que a maioria dos investidores sem formação técnica não consegue atingir. Ela focou no que chama de “encanamento da indústria”: as empresas que constroem a infraestrutura fundamental sem a qual toda a camada de aplicação de IA simplesmente não funciona. A Anthropic se encaixava exatamente nesse perfil, com barreiras de entrada altíssimas, uma equipe de pesquisa de nível excepcional e uma abordagem de segurança em IA que Razavi avaliou como diferencial competitivo real, não apenas retórico.
Como o retorno de US$ 3 bilhões se compara com os padrões do mercado de venture capital?
No venture capital, um retorno de 40 vezes o valor investido é considerado excepcional. O investimento da Spark Capital na Anthropic, calculado com base nas avaliações públicas mais recentes da empresa, supera esse múltiplo com folga. A Anthropic foi avaliada em mais de US$ 60 bilhões em rodadas recentes, e a participação da Spark Capital, chegou a valer cerca de US$ 3 bilhões, representando um retorno bruto de 40 vezes o capital investido.
Para contextualizar: US$ 3 bilhões representam, na cotação de R$ 5,01 por dólar, aproximadamente R$ 15,03 bilhões. É um valor maior do que o PIB de muitas cidades brasileiras de médio porte, gerado a partir de uma única aposta num setor que a maioria do mercado ainda encarava com desconfiança. Fundos de venture capital de topo do mundo esperam que apenas 10% a 20% dos investimentos gerem retorno significativo. Um caso com esse múltiplo de retorno é o que banca todo o restante do portfólio.

O que a trajetória de Razavi ensina sobre como identificar oportunidades antes do mercado?
A carreira de Razavi oferece um modelo concreto para entender como grandes retornos em venture capital são construídos. O primeiro elemento é a profundidade técnica: ela consegue ler arquitetura de software e avaliar a viabilidade real de modelos de machine learning, o que elimina a dependência de narrativas de fundadores e análises de superfície. O segundo é a paciência com horizontes longos: a Spark Capital manteve sua posição mesmo quando o mercado questionava a viabilidade de negócio da Anthropic, porque a análise interna sustentava a tese original.
Qual é a visão de Razavi para o próximo ciclo de investimento em IA?
Com o mercado de IA em transição do ciclo de hype inicial para a fase de aplicações industriais, Razavi acredita que a próxima geração de grandes retornos virá das empresas capazes de entregar valor mensurável e economicamente sustentável para clientes corporativos, não das que prometem transformar tudo sem demonstrar unit economics sólidas. A lição da aposta na Anthropic não é que apostas arriscadas em IA sempre funcionam: é que apostas com embasamento técnico profundo e tese econômica sólida, feitas antes do consenso de mercado, são as que geram retornos que mudam o tamanho de um fundo.
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