Imagine trabalhar por décadas no mesmo lugar, ver colegas se tornarem quase família e, de um dia para o outro, assistir aos portões dessa fábrica serem fechados para sempre. Foi o que aconteceu com a Cabot em Campana, na Província de Buenos Aires, marcando um ponto de inflexão para a indústria automotiva e química da região.
Como a Cabot se encaixava na indústria automotiva argentina?
Quando se fala em Cabot na indústria automotiva argentina, fala-se de uma empresa que ocupava um lugar estratégico na produção de componentes para pneus e na integração local da cadeia. O negro de fumo, produto no qual a Cabot era referência, é um material usado para reforçar o caucho das coberturas, aumentar a durabilidade dos pneus e melhorar o desempenho em diferentes tipos de piso, garantindo mais segurança e vida útil para veículos de passeio e de carga.
Com essa produção tão perto das montadoras e fabricantes de autopeças, o país conseguia manter um grau relevante de integração local, com menos dependência de importações e mais previsibilidade de abastecimento. Agora, sem essa base produtiva, as empresas precisam rever contratos, custos e estratégias de compra, em um cenário em que o câmbio e as regras de comércio exterior pesam ainda mais nas decisões diárias.

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Quais são as consequências econômicas imediatas e sociais?
O fechamento da Cabot em Campana provocou a demissão de mais de 150 trabalhadores diretos, além de impactar transportadoras, prestadores de manutenção industrial e pequenos fornecedores de serviços. Em uma região que construiu sua identidade em torno do polo industrial Campana–Zárate, a saída de uma empresa com mais de 60 anos amplia o desafio de realocar mão de obra especializada em processos químicos e de produção ligados ao setor automotivo.
Entidades como a União Industrial Argentina (UIA) e a Associação de Fábricas de Componentes (AFAC) vêm apontando queda na produção manufatureira e recuo nos níveis de patentamento de veículos, o que reforça a sensação de perda de competitividade. Para muitas famílias, isso se traduz em renda menor, incerteza sobre o futuro e necessidade de buscar recolocação em segmentos que nem sempre conseguem absorver rapidamente esse tipo de perfil profissional.
Como o fechamento da Cabot afeta a cadeia de pneus no país?
Com o encerramento da unidade de Campana, a cadeia de fabricação de pneus na Argentina passa a depender quase inteiramente de fornecedores externos de negro de fumo. Isso muda uma rotina consolidada por décadas, em que o insumo era produzido a poucos quilômetros de montadoras e empresas de autopeças, reduzindo riscos logísticos e custos de transporte em um contexto de alto peso dos insumos na formação de preços.
Para reduzir incertezas, fabricantes de pneus e empresas de componentes estudam novas formas de negociação e planejamento com seus fornecedores. Fala-se em contratos de longo prazo, diversificação de origens de importação e até na busca de matérias-primas alternativas que possam complementar o negro de fumo tradicional, sempre tentando equilibrar custo, qualidade e prazos de entrega em um mercado cada vez mais competitivo.

Quais desafios ficam para Campana e para o futuro industrial da região?
Além do impacto imediato, surgem questões de médio prazo relacionadas à arrecadação de impostos locais, à ocupação de imóveis industriais vazios e à necessidade de requalificação profissional de centenas de pessoas. Economistas e analistas do setor destacam que áreas como o antigo terreno industrial da Cabot podem ser vistas como oportunidades para novos projetos, desde centros de distribuição até parques industriais menores, dependendo de estudos ambientais e de viabilidade.
- Emprego formal: redução de vagas industriais registradas, com maior pressão sobre o mercado de trabalho local e regional.
- Atividade das pequenas e médias empresas (PMEs): queda na demanda por serviços terceirizados e insumos, afetando negócios de bairro e prestadores especializados.
- Logística e importações: aumento do fluxo de mercadorias importadas para suprir a falta de produção local, com mais sensibilidade a restrições cambiais.
- Investimentos futuros: maior cautela de grupos estrangeiros em novos projetos industriais, exigindo políticas claras, previsibilidade e apoio à inovação.
O desligamento da Cabot em Campana encerra um ciclo iniciado nos anos 1960, quando o polo Campana–Zárate começou a se consolidar como eixo industrial de peso.
