Em Londres, no Reino Unido, dirigir o icônico táxi preto não é trabalho para qualquer um. Para virar motorista de um black cab, o candidato precisa passar por um teste que existe há 161 anos, decorar 25 mil ruas e provar que conhece a cidade melhor do que qualquer aplicativo de navegação.
Como nasceu o exame The Knowledge na capital britânica
O teste foi criado em 1865, depois que turistas reclamaram da incompetência dos cocheiros durante a Grande Exposição de Londres de 1851. Para resolver o problema, a polícia metropolitana passou a exigir um conhecimento detalhado da cidade antes de qualquer cocheiro receber a licença.
Desde então, o procedimento mudou pouco. O nome oficial é Knowledge of London e cobre toda a área dentro de um raio de 9,7 km a partir da estação de Charing Cross, considerada o coração da capital. O exame é hoje administrado pela Transport for London (TfL), autoridade responsável pelos transportes públicos da metrópole.
O conteúdo está reunido no chamado Blue Book, manual oficial com 320 rotas básicas que cruzam o centro da cidade. Cada candidato precisa dominar essas rotas, todas as 25 mil ruas espalhadas dentro do raio do teste e cerca de 20 mil pontos de interesse, de hospitais a embaixadas.

Quanto tempo um candidato leva para passar no teste?
O processo dura, em média, entre dois e quatro anos. Os candidatos, conhecidos como Knowledge Boys, dedicam o tempo integral ao estudo, percorrendo a cidade em motos com pranchetas presas ao guidão e repetindo os nomes das ruas em voz alta.
O exame tem sete etapas oficiais, segundo a Transport for London. Depois de uma autoavaliação inicial, o candidato passa por uma prova escrita e por uma série de entrevistas orais individuais chamadas appearances. Para conquistar a licença completa, o aspirante precisa passar em pelo menos 12 dessas entrevistas.
Apenas cerca de metade dos candidatos consegue completar o processo. O recorde de aprovação mais rápida é de 18 meses, mas há quem leve cinco anos. A taxa de aprovação difícil contrasta com a média de 24 horas de treinamento exigida para taxistas em Nova York, considerado o teste mais rigoroso dos Estados Unidos.

O estudo que mostrou: o cérebro dos taxistas londrinos cresce
O esforço cognitivo é tão intenso que mudou para sempre o entendimento da neurociência sobre o cérebro adulto. A pesquisadora Eleanor Maguire, do University College London (UCL), publicou no ano 2000 um estudo que comparou cérebros de taxistas e não taxistas por meio de ressonâncias magnéticas.
O resultado foi impressionante: motoristas aprovados no The Knowledge tinham o hipocampo posterior, região ligada à memória espacial, significativamente maior do que pessoas comuns. Quanto mais tempo de carreira, maior o tamanho dessa área do cérebro.
Em 2011, Maguire acompanhou 79 candidatos durante todo o processo. Antes do estudo, todos tinham hipocampos parecidos com os do grupo controle. Depois de quatro anos, apenas os aprovados apresentaram crescimento mensurável da região, conforme registro do Wellcome Trust.
Por que o táxi preto virou símbolo da cidade?
O carro tem nome oficial menos famoso: hackney carriage. As primeiras versões circulavam pela cidade desde o início do século XVII, ainda puxadas por cavalos. O serviço foi regulamentado pela primeira vez em 1636, quando o número de carruagens foi fixado em 50.
O primeiro táxi motorizado a gasolina apareceu em 1903. A cor preta, hoje considerada a marca registrada do veículo, só virou padrão depois da Segunda Guerra Mundial. Antes disso, os carros vinham em diversas cores, e o tom escuro foi adotado por questões de praticidade econômica do pós-guerra.
Outra peculiaridade do veículo é o raio de giro de apenas 7,6 metros, exigência regulatória criada para que os táxis pudessem manobrar com facilidade na pequena rotunda da entrada do hotel Savoy. O teto alto, herança dos tempos em que cavalheiros usavam cartolas, permanece até hoje em modelos como o LEVC TX, lançado em 2018 com motor híbrido elétrico.
O contraste entre o conhecimento e os aplicativos de navegação
A chegada de aplicativos como Uber e Bolt mudou o panorama da capital. Os táxis pretos licenciados, que eram cerca de 22.800 em 2014, caíram para aproximadamente 16.847 em fevereiro de 2025, segundo dados publicados pelo Museu de Londres. No mesmo período, o número de veículos de aplicativo subiu de 49,9 mil para 89,6 mil.
Mesmo assim, os taxistas tradicionais defendem que a memorização ainda vence a tecnologia. Um estudo de 2025 da UCL, publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, mostrou que os motoristas planejam rotas priorizando os trechos mais difíceis primeiro, estratégia que aplicativos não conseguem replicar com a mesma eficiência.
O motorista experiente também consegue responder a pedidos imprevisíveis, como o restaurante mais próximo de uma rua específica ou o caminho alternativo durante uma manifestação, sem perder tempo digitando endereços ou recalculando rotas no GPS.
Conheça a tradição que sobrevive em uma das cidades mais modernas do mundo
O exame que decora 25 mil ruas resiste ao tempo, aos aplicativos e às mudanças do trânsito londrino. Na capital britânica, entrar em um táxi preto continua sendo, antes de tudo, encontrar alguém que carrega no cérebro o mapa vivo de uma das cidades mais complexas do planeta.
Você precisa visitar Londres pelo menos uma vez para chamar um black cab e entender por que esses motoristas viraram caso de estudo da neurociência mundial.




