Em 1987, um jornalista americano cruzou as dunas do Ceará e mandou ao mundo a primeira reportagem sobre um vilarejo de pescadores que não tinha luz, banheiro nem estrada. Quase 40 anos depois, Jericoacoara virou destino internacional, mas continua sem asfalto, sem postes e com mais de 8 mil hectares de dunas protegidas por lei.
A reportagem americana que mudou o destino da vila
O nome veio dos índios. Em tupi, “îurukûá kûara” significa toca da tartaruga, referência aos animais que desovam na praia há séculos. A história moderna, porém, começou em março de 1987, quando o jornalista Cal Fussman publicou no The Washington Post uma reportagem sobre praias remotas e exóticas. Jeri estava entre as três citadas, ao lado de Sanibel Island e Mombasa.
Antes daquele texto, a vila tinha cerca de 580 moradores, conforme o Conselho Comunitário de Jericoacoara. A energia elétrica só chegou em 1998 e foi instalada por rede subterrânea, decisão tomada para preservar o céu estrelado. Os postes de iluminação pública continuam proibidos até hoje. Quem janta na rua come à luz de velas.

O parque nacional que protege dunas, lagoas e o caminho até o mar
A região ganhou status de Área de Proteção Ambiental em 1984 e foi recategorizada como Parque Nacional pelo decreto de 4 de fevereiro de 2002, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Hoje, o Parque Nacional de Jericoacoara tem 8.863 hectares e abrange os municípios de Jijoca de Jericoacoara, Cruz e Camocim.
O bioma é marinho costeiro e abriga dunas móveis, lagoas temporárias, manguezais, restinga e uma faixa marítima de um quilômetro paralela ao litoral. O parque protege espécies ameaçadas como a tartaruga-cabeçuda, a tartaruga-pente e o cavalo-marinho, que pode ser observado no estuário do Rio Guriú. Em janeiro de 2024, o ICMBio concedeu a gestão do parque ao Consórcio Dunas pelos próximos 30 anos.

O que ver nos dois lados da vila
Os passeios se dividem em lado leste e lado oeste, e o ideal é reservar pelo menos três dias inteiros para conhecer as principais atrações. As mais procuradas estão a poucos quilômetros do centro:
- Pedra Furada: arco rochoso esculpido pelo vento e pelo mar, símbolo da vila. No solstício de inverno, entre 15 de julho e 15 de agosto, o sol se põe exatamente dentro do vão, conforme o portal do ICMBio.
- Duna do Pôr do Sol: ritual diário em que turistas e moradores sobem a duna para ver o sol mergulhar no oceano e aplaudir o espetáculo.
- Lagoa do Paraíso: águas azul-turquesa rasas com redes suspensas dentro d’água, a cerca de 19 km da vila.
- Serrote: ponto culminante do parque a 95 metros de altitude, onde fica o farol e a vista panorâmica de 360 graus.
- Manguezal do Rio Guriú: passeio de canoa pelo lado oeste para observar cavalos-marinhos em habitat natural.
A cozinha mistura tradição cearense com toques internacionais trazidos pelos estrangeiros que adotaram a vila como casa. Os pratos mais pedidos pelos restaurantes da rua principal são:
- Camarão no abacaxi: prato-símbolo de Jeri, servido na fruta inteira.
- Peixe na folha de bananeira: assado lentamente com pescados do mesmo dia.
- Carne de sol com macaxeira: clássico nordestino dos cardápios mais tradicionais.
- Tapioca recheada: opção leve do café da manhã, vendida nas barracas da praça central.
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Por que a vila é um dos raros lugares do Brasil onde o sol se põe no mar
A geografia explica o fenômeno. A península de Jeri se projeta para o norte e a praia central fica voltada para o poente, segundo o Ministério do Turismo. Isso permite que turistas e moradores vejam tanto o nascer quanto o pôr do sol sobre o oceano, situação rara no litoral brasileiro, que é majoritariamente voltado para o leste.
De julho a janeiro, ventos constantes transformam Jeri em um corredor mundial de kitesurf e windsurf. As escolas locais oferecem aulas para iniciantes na Praia do Preá, a 11 km da vila, onde as condições de vento são apontadas por velejadores como das melhores do mundo.
Quando ir a Jericoacoara para curtir as lagoas cheias ou os ventos fortes
O clima é tropical, quente o ano inteiro, com duas estações muito bem definidas. As lagoas atingem o auge da beleza entre julho e setembro, e os ventos para esportes náuticos sopram mais forte de agosto a dezembro:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à vila sem asfalto do litoral cearense
Jericoacoara fica a cerca de 300 km de Fortaleza, capital cearense. O acesso por terra é feito pela CE-085, conhecida como rodovia do Sol Poente, até a sede de Jijoca de Jericoacoara. De lá, os últimos 20 km são em estrada de areia, percorridos em veículos 4×4 credenciados que atravessam as dunas do parque.
Para quem prefere voar, o Aeroporto Regional de Jericoacoara (JJD), no município de Cruz, fica a cerca de 30 km da vila e recebe voos diretos de capitais como São Paulo, Brasília e Belo Horizonte. A vila não tem agências bancárias nem caixas eletrônicos, então a recomendação é levar dinheiro em espécie da capital.
Vale subir a duna no fim da tarde
Poucos lugares no mundo conseguiram crescer e manter intacto o que os tornou famosos. Jeri continua sem asfalto, sem postes e com o sol mergulhando no mar todas as tardes diante de quem aplaude.
Você precisa pisar na areia da rua principal e entender por que os moradores escolheram a lua em vez da iluminação pública.




