Aos pés do Pico da Lapinha, a 143 km de Belo Horizonte, Lapinha da Serra aparece de repente no fim de 10 km de estrada de terra. Cercado pela Serra do Espinhaço, o vilarejo abriga uma das travessias clássicas do trekking brasileiro e um sítio arqueológico que precede qualquer cidade mineira em milênios.
O vilarejo nasceu no caminho dos tropeiros do Espinhaço
A região foi rota dos bandeirantes que abriram o caminho dos diamantes no século XVIII e, depois, passagem dos tropeiros que ligavam os arraiais mineiros. A capela de Santana do Riacho, primeiro núcleo da região, foi erguida em outubro de 1759, e o nome Lapinha da Serra só apareceu no início do século XX, quando três famílias se estabeleceram nos contrafortes da serra.
Hoje, o distrito faz parte da Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira, criada em 1990 e gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) como zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra do Cipó. A APA tem 97 mil hectares e abrange oito municípios mineiros.

Por que a Lapinha guarda pinturas rupestres de 7 mil anos?
Do outro lado da Lagoa da Lapinha, está um dos sítios arqueológicos mais antigos de Minas. Para chegar lá, é preciso atravessar o lago de barco conduzido por moradores. As pinturas têm cerca de 7 mil anos, conforme catalogação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que mantém registros das gravuras em Santana do Riacho.
O sítio tem sete camadas estratigráficas, com vestígios de civilizações que viveram ali há mais de 10 mil anos, incluindo carvão de fogueiras, esqueletos humanos e instrumentos de sobrevivência. As pinturas foram feitas com óxidos e hidróxidos de manganês e ferro presentes nas rochas da Serra do Cipó. Os principais desenhos representam o veado do cerrado, cenas de caça e mulheres grávidas, ligadas a rituais de fertilidade. O IPHAN registra mais de 2.500 sítios arqueológicos pré-coloniais em Minas Gerais.
Como a travessia Lapinha-Tabuleiro virou um clássico do trekking nacional?
A travessia tem entre 28 e 40 km e leva três dias. O percurso parte da Lapinha, sobe ao Pico do Breu, cruza o alto curso do rio Parauninha e termina na Cachoeira do Tabuleiro, em Conceição do Mato Dentro, conforme o Portal de Turismo de Minas Gerais.
Por essa mesma trilha passaram tropeiros durante mais de um século, transportando alho e cebola até o Mercado Municipal de Conceição do Mato Dentro. Hoje, os acampamentos da travessia acontecem nos quintais dos próprios moradores que ainda resistem no alto da serra. Com 273 metros de queda livre, a Cachoeira do Tabuleiro é a mais alta de Minas Gerais e a 3ª maior do Brasil, segundo a Prefeitura de Conceição do Mato Dentro.

O que ver e fazer entre os picos da Lapinha?
O roteiro é puro contato com a natureza, sem grandes atrações construídas. As trilhas, picos e cachoeiras ficam todos a poucos minutos do centro da vila.
- Pico do Breu: ponto mais alto da Serra do Cipó com 1.687 metros, trilha de 4 km de subida desafiadora desde o povoado.
- Pico da Lapinha: 1.686 metros, segundo ponto mais alto, com cruzeiro no topo e vista panorâmica do vilarejo e da lagoa.
- Sítio Arqueológico da Lapinha: pinturas rupestres de 7 mil anos, acessadas por barco pela Lagoa da Lapinha.
- Cachoeira do Bicame: 30 metros de queda em poço escuro, dentro da RPPN Brumas do Espinhaço, com trilha de 9 km.
- Travessia Lapinha-Tabuleiro: 28 a 40 km até a maior cachoeira de Minas, três dias com pernoite no quintal dos moradores.
- Lagoa da Lapinha: represa construída na década de 1950 pela Companhia Industrial de Belo Horizonte, contorna o vilarejo e oferece banho e stand-up paddle.
Quem busca um refúgio mágico em Minas Gerais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Por onde andei, com Fernanda Götz, que conta com mais de 180 mil visualizações, onde Fernanda Götz mostra os encantos da Lapinha da Serra, um vilarejo com cerca de 650 moradores cercado por montanhas e cachoeiras:
O vento que sopra durante a noite e cala de manhã
A Lapinha tem um fenômeno climático próprio. Quase todas as noites, por volta da meia-noite, começa uma ventania fortíssima que só se encerra perto das oito da manhã. O fenômeno é tão consistente que aparece nos guias turísticos e nos avisos das pousadas, recebendo turistas que chegam com agasalhos para a noite mesmo no verão.
O efeito vem da topografia em forma de funil entre o Pico do Breu e o Pico da Lapinha, que canaliza o ar frio descendo da serra. A região faz parte da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, reconhecida pela UNESCO em 24 de junho de 2005, como detalha a Rede Brasileira de Reservas da Biosfera. O território abrange 172 municípios mineiros e percorre três biomas: Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga.
Quando o clima da serra favorece a viagem?
A Lapinha tem clima de montanha, com dias quentes e noites frias o ano todo. A estação muda o nível das trilhas e a balneabilidade das cachoeiras.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo de Santana do Riacho. Condições podem variar.
Como chegar ao vilarejo onde a estrada termina?
O caminho exige planejamento. Saindo de Belo Horizonte, são 100 km pela MG-010 até a Serra do Cipó, mais 33 km até a sede de Santana do Riacho e 10 km de estrada de terra até a Lapinha, totalizando 143 km e cerca de 2h30 de viagem. A estrada principal é asfaltada, mas o trecho final pede atenção em dias chuvosos.
Para quem não dirige, a Saritur opera linhas diárias entre a Rodoviária de Belo Horizonte e Santana do Riacho. De lá, há um caroneiro semanal e ônibus particulares que sobem a serra. São Paulo fica a 690 km e Rio de Janeiro, a 540 km. O Aeroporto Internacional de Confins está a aproximadamente 113 km da Lapinha.
Suba a serra e descubra o tempo que parou em Minas
Lapinha da Serra reúne picos de 1.687 metros, sítio arqueológico de 7 mil anos, travessia clássica até a maior cachoeira de Minas Gerais e a sensação rara de chegar a um lugar onde a estrada termina antes do começo da paisagem. Poucos vilarejos no Brasil oferecem essa combinação em apenas duas horas e meia da capital mineira.
Você precisa subir a serra e conhecer Lapinha da Serra, onde o vento avisa a hora certa de dormir e o silêncio é parte do roteiro.




