O cheiro de jabuticaba madura no quintal chega antes da rua de pedra aparecer. Sabará, a apenas 23 km de Belo Horizonte, guarda em poucas quadras o que levou séculos para ser construído: igrejas barrocas com pintura chinesa, um teatro bicentenário onde imperadores já assistiram a óperas e uma fruta que ganhou certificação nacional e fama internacional.
A capital do ouro que esconde uma pintura chinesa no barroco mineiro
Sabará nasceu às margens do Rio das Velhas durante o ciclo do ouro e tornou-se um dos principais centros de extração de Minas Gerais no século XVIII. A Vila do Sabará chegou a ser sede de uma das quatro primeiras comarcas da capitania, abrangendo território que ia até Goiás e Pernambuco, conforme registra o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Com os rios e lavras riquíssimos, milhares de escravos foram empregados nos garimpos que alimentaram a coroa portuguesa.
Mas a curiosidade mais surpreendente de Sabará não está nos baús de ouro, e sim na pequenina Igreja de Nossa Senhora do Ó, tombada pelo IPHAN em 1938. Datada de 1719, ela abriga pinturas internas com dragões, flores e motivos orientais que escapam completamente ao vocabulário do barroco mineiro. O historiador francês Germain Bazin classificou-a como uma das criações mais refinadas da arte barroca. Supõe-se que o pintor Jacinto Ribeiro, nascido na Índia portuguesa e radicado em Minas desde 1711, tenha executado as pinturas, introduzindo no interior colonial mineiro aquilo que os europeus chamavam de chinoiserie, o gosto decorativo pelo Extremo Oriente.

Vale a pena morar em Sabará?
Quem chega à cidade por conta do patrimônio histórico acaba ficando pela qualidade de vida. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de escolarização entre crianças de 6 a 14 anos chega a 99,16%, um dos melhores indicadores da região metropolitana. O município soma 134.576 habitantes estimados em 2025 e mantém uma densidade demográfica equilibrada para uma cidade histórica com 302 km² de área.
A proximidade com Belo Horizonte é uma vantagem prática: o Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) oferece cursos gratuitos em áreas como Engenharia e Sistemas de Informação na cidade, e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) fica a menos de 40 minutos de carro. Moradores relatam custo de vida mais acessível que a capital com acesso a seus serviços metropolitanos. A cidade tem ritmo de interior com a conveniência de quem mora a meia hora de uma metrópole.

Que reconhecimentos Sabará acumulou ao longo dos anos?
Os tombamentos pelo IPHAN somam 19 bens protegidos em nível federal, iniciados em 1938, entre igrejas, chafarizes, o Museu do Ouro e o casario da Rua Dom Pedro II. São monumentos distribuídos por poucas quadras do centro histórico, uma concentração rara fora das grandes rotas do turismo colonial mineiro.
Em 2018, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu a Indicação Geográfica (IG) aos derivados de jabuticaba produzidos no município, certificação que reconhece a originalidade e a qualidade dos produtos locais. O Teatro Municipal, inaugurado em 1819 e tombado pelo IPHAN em 1963, é o segundo teatro mais antigo do Brasil ainda em funcionamento e uma das Sete Maravilhas da Estrada Real, conforme reconhecimento do IPHAN. O prédio recebeu restauro de R$ 2,6 milhões pelo governo federal em 2019 e voltou a receber peças, óperas e concertos.
O que fazer e onde comer em Sabará?
O centro histórico reúne atrações a poucos minutos de caminhada. Uma manhã já revela o essencial da cidade:
- Igreja de Nossa Senhora do Ó (1719): menor e mais surpreendente das igrejas de Sabará, com pinturas orientais únicas no barroco mineiro. Tombada pelo IPHAN em 1938.
- Igreja de Nossa Senhora do Carmo: construída por volta de 1763, traz obras do Mestre Aleijadinho e é tombada pelo IPHAN. O interior apresenta as três fases do barroco em seus altares.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário: iniciada em 1768 por escravos, jamais foi concluída porque o esgotamento das minas de ouro interrompeu as obras. A fachada inacabada, tombada pelo IPHAN, é hoje um dos registros mais tocantes da história colonial brasileira.
- Teatro Municipal (Casa de Ópera): inaugurado em 1819, é o segundo teatro mais antigo do Brasil em funcionamento. Dom Pedro I o visitou em 1831; Dom Pedro II, em 1881. A acústica em formato de ferradura, segundo relatos da época, permitiu que o imperador ouvisse críticas de opositores saídas dos camarotes.
- Museu do Ouro: instalado na antiga Casa de Intendência e Fundição, guarda peças e equipamentos de garimpagem, incluindo uma prensa de 1670. Administrado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Funciona de terça a domingo.
- Chafariz do Kaquende (1757): tombado pelo IPHAN em 1950, é um dos cartões-postais mais fotografados da cidade e palco de lendas que dizem: quem bebe sua água sempre retorna a Sabará.
A gastronomia de Sabará gira em torno de dois pilares: a jabuticaba e a cozinha mineira de raiz. Os sabores que definem a mesa local:
- Derivados de jabuticaba: licores, geleias, compotas, vinhos e molhos artesanais produzidos por famílias da cidade. Com a certificação de Indicação Geográfica do INPI, os produtos têm origem e qualidade reconhecidas. Encontrados nos mercados do centro histórico e no Festival da Jabuticaba, em novembro.
- Cozinha mineira tradicional: feijão tropeiro, frango ao molho pardo, tutu de feijão e doces caseiros nos restaurantes do centro histórico. Ambiente simples, sabores honestos.
- Festival da Jabuticaba: realizado anualmente desde 1987, a 39ª edição aconteceu em novembro de 2025 com mais de 40 estandes, oficinas de culinária e concurso de melhor licor e geleia. A Prefeitura de Sabará organiza o evento gratuitamente nas Praças Melo Viana e Santa Rita.
Quem busca roteiros históricos em Minas Gerais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 84 mil visualizações, onde Tati Marmon mostra as belezas e curiosidades de Sabará, localizada bem pertinho de Belo Horizonte:
Quando é a melhor época para visitar Sabará?
Sabará tem clima tropical, com temperatura média anual entre 18°C e 30°C, segundo o Climatempo. O verão é quente e chuvoso; o inverno é seco e ameno, perfeito para passeios pelas ruas históricas. Cada estação oferece um motivo diferente para ir:
Temperaturas aproximadas com base em dados do Climatempo. Condições podem variar.
Novembro merece atenção especial: é quando acontece o Festival da Jabuticaba, que transforma as praças do centro histórico em palcos de gastronomia, música e cultura. O inverno seco, entre junho e agosto, é o melhor período para caminhar pelas ruas de pedra sem o calor intenso do verão mineiro.
Sabará surpreende quem chega sem expectativa
Poucas cidades brasileiras reúnem, em tão pouco espaço, arte oriental em uma chapel barroca de 1719, um teatro bicentenário que recebeu imperadores e uma fruta com certificação nacional que virou símbolo de identidade. Sabará não é a cidade mais famosa do circuito colonial mineiro, e talvez seja exatamente por isso que vale tanto a pena conhecê-la.
Você precisa cruzar a Cristiano Machado, chegar antes do calor do meio-dia e deixar Sabará mostrar que a cidade mais perto de BH é também a mais surpreendente do barroco mineiro.




