Imagine caminhar pela floresta, seguir uma trilha de terra e, de repente, perceber que está pisando sobre antigas plataformas de pedra construídas há séculos. É assim que muitas pessoas descrevem o primeiro contato com Betoma, na Sierra Nevada de Santa Marta: um lugar onde o passado indígena e a vida atual se misturam a cada passo, revelando um território muito mais complexo do que se imaginava.
O que é Betoma e por que o urbanismo Tairona chama tanta atenção
A Betoma, é entendida como uma grande província arqueológica formada por uma conurbação indígena, ou seja, um conjunto de assentamentos conectados entre si. Em vez de uma cidade única e monumental, as pesquisas mostram uma paisagem urbana contínua, espalhada por vales e encostas da Sierra Nevada de Santa Marta.
Esse modelo de urbanismo Tairona contrasta com a imagem tradicional de grandes capitais concentradas e muradas. Em Betoma, as estruturas líticas – como terraços e caminhos – sugerem bairros, aldeias e áreas produtivas interligadas, formando um sistema urbano extenso, planejado e muito bem adaptado ao ambiente montanhoso.

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Como a tecnologia Lidar ajuda a revelar o urbanismo indígena de Betoma
O avanço das pesquisas em Betoma está diretamente ligado ao uso de tecnologias como o Lidar (Light Detection and Ranging). Acoplado a drones, esse sensor emite pulsos de laser que atravessam a vegetação densa e criam modelos tridimensionais do relevo, permitindo enxergar o que o olho humano não vê.
Ao aplicar o Lidar em cerca de 18 quilômetros quadrados, as equipes mapearam milhares de estruturas de pedra, multiplicando o número de plataformas conhecidas. A comparação entre caminhadas de campo e mapeamento digital mostrou que muitos assentamentos continuavam invisíveis, e que a tecnologia não substitui o trabalho em terra, mas amplia a leitura do urbanismo pré-hispânico.
De que forma Betoma muda a visão sobre a arqueologia na Sierra Nevada
O estudo de Betoma faz com que arqueólogos e moradores revisem a história da Sierra Nevada de Santa Marta. Por muito tempo, a atenção ficou em sítios famosos, como Teyuna–Ciudad Perdida, vistos como centros únicos de poder e população; agora, entende-se que eles faziam parte de um sistema mais amplo de assentamentos articulados entre si.
Outro ponto essencial é o papel das comunidades locais – indígenas e camponesas – na construção desse conhecimento. Moradores que percorrem essas trilhas há gerações conhecem terraços, caminhos antigos e locais sagrados, ajudando a localizar novos setores, interpretar o uso do espaço e discutir formas de preservar esse patrimônio.
Para você que gosta de aprofundar, separamos um vídeo do canal Civilizações Antigas com mais sobre esse lugar misterioso:
Quais são os desafios e oportunidades para o turismo em Betoma
Com a crescente visibilidade de Betoma, surge a pergunta: esse megassítio seguirá o caminho de destinos como Ciudad Perdida? Pensar em turismo arqueológico na região envolve equilibrar conservação ambiental, direitos das comunidades que vivem ali e o desejo de visitantes por conhecer essa história de perto.
Os debates atuais giram em torno de temas que podem definir o futuro da região, e costumam ser resumidos em alguns pontos centrais:
- Preservação das estruturas: proteger terraços, caminhos e vestígios diante de um possível aumento de visitantes.
- Participação comunitária: garantir que decisões sobre acesso e roteiros incluam diretamente moradores locais.
- Equilíbrio econômico: articular o turismo com a economia agropecuária existente, evitando dependência total de visitantes.
- Segurança e contexto social: considerar a presença histórica de atores armados ilegais e seus impactos na visitação.
Como patrimônio, memória e futuro se cruzam em Betoma
As informações reunidas até agora mostram que Betoma é um verdadeiro laboratório para entender como antigas sociedades indígenas organizaram megassistemas urbanos em montanhas tropicais. A distribuição de terraços, a rede de caminhos e a longa ocupação indicam formas complexas de gestão do território, em que urbanismo, floresta e ciclos produtivos caminham lado a lado de forma integrada.
Ao mesmo tempo, Betoma destaca a arqueologia da Sierra Nevada como um campo construído coletivamente, por pesquisadores, guias, moradores, animais de carga e instituições de vários países. Assim, o megassítio deixa de ser apenas um “novo achado” e se torna um convite a repensar o território como lugar de pesquisa, moradia e memória compartilhada, em que as escolhas de hoje moldam o futuro das pedras que sustentaram os antigos povoados.




