Quem nunca riu, mesmo sem querer, quando alguém tropeça na rua ou erra em público? Esse misto de vergonha alheia com alívio próprio é mais comum do que parece e, embora possa causar culpa depois, faz parte da experiência humana em diferentes idades e culturas. A psicologia e a neurociência vêm tentando entender por que sentimos isso, em quais situações é mais provável que aconteça e como essa emoção se relaciona com outras, como inveja, ciúmes e a sensação de injustiça.
O que é schadenfreude e por que sentimos esse prazer no erro alheio
A palavra schadenfreude, de origem alemã, é usada para falar da satisfação ou alívio diante do fracasso, erro ou queda de outra pessoa. Ela ganhou espaço justamente porque dá nome a algo que muita gente reconhece: rir de um tombo leve, sentir um certo conforto quando um rival perde ou achar graça quando uma figura pública falha.
Essa emoção é diferente de ódio ou crueldade direta. Na maioria das vezes, a pessoa não causa o dano nem torce ativamente para que ele aconteça; apenas reage quando vê a situação. Ainda assim, a schadenfreude costuma andar de mãos dadas com inveja, ressentimento e competição, o que explica o interesse crescente em entendê-la melhor.

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Como a schadenfreude se relaciona com bullying e ciberacoso
Pesquisas com milhares de estudantes indicam que adolescentes que sentem mais prazer com as perdas alheias têm maior chance de participar de comportamentos como zoações pesadas e ciberacoso. Isso não quer dizer que toda pessoa que sente schadenfreude será agressora, mas mostra uma ligação importante entre essa emoção e a facilidade de humilhar alguém em público.
Quando esse sentimento se junta à busca por status, necessidade de aprovação do grupo e poucos limites empáticos, o riso diante do erro do outro pode virar zombaria persistente, exclusão e ataques coordenados, especialmente em ambientes digitais.
O que a ciência já descobriu sobre o cérebro e o prazer no fracasso do outro
Estudos de neuroimagem apontam que, quando sentimos inveja, áreas do cérebro ligadas ao desconforto e à dor emocional são ativadas. Se essa mesma pessoa invejada passa por um revés, outras regiões associadas à recompensa entram em ação, gerando uma sensação de alívio ou até prazer.
Esse padrão sugere que, em alguns casos, a schadenfreude funciona como uma compensação diante de sentimentos negativos anteriores. Quanto maior a sensação de injustiça ou inferioridade, maior tende a ser a descarga de satisfação quando o outro erra, cai ou perde. Separamos esse vídeo da Neuralmente falando com mais detalhes sobre esse tema:
Quais são os principais tipos de schadenfreude descritos pela psicologia
Pesquisadores costumam agrupar essa emoção em alguns tipos para facilitar a compreensão. Essa divisão ajuda a perceber de onde vem esse prazer e como ele se manifesta em situações do dia a dia, incluindo interações online e conflitos em grupos sociais.
- Ligada à justiça quando alguém visto como injusto, agressivo ou desonesto enfrenta uma consequência negativa.
- Por aversão quando sentimos antipatia por alguém, mesmo sem um motivo claro, e reagimos com satisfação ao seu erro.
- Por competição quando a queda de alguém considerado mais bem-sucedido alivia a pressão da comparação.
Como transformar a schadenfreude em algo mais consciente e construtivo
Em alguns contextos, esse prazer simbólico diante do “desconforto” de figuras de autoridade pode ser usado de forma leve e controlada, como em eventos solidários em que líderes topam brincadeiras públicas para arrecadar fundos. Assim, o grupo vive uma catarse coletiva sem causar dano real.
Reconhecer quando sentimos schadenfreude, dar nome a essa emoção e escolher respostas mais empáticas reduz a chance de que ela vire crueldade. Evitar compartilhar conteúdos humilhantes, interromper piadas cruéis e preferir conversas privadas em vez de exposições públicas são atitudes simples que ajudam a manter essa emoção dentro de limites saudáveis.




