Durante décadas, atravessar uma rua no Brasil quase sempre significava encontrar um orelhão pelo caminho. Em frente a padarias, repartições públicas, praças e rodoviárias, ele era ponto de recado, lugar de desabafo, palco de confusões e, para muita gente, a única ponte com quem morava longe. A história desse telefone público mistura inovação, improviso e situações curiosas que ajudam a entender como o país se conectava antes da era do smartphone.
Como o telefone deixou de ser luxo para virar orelhão de esquina
No começo do século XX, ter uma linha fixa em casa era sinônimo de status. A instalação era cara, demorada e a rede atendia poucos privilegiados, enquanto a maioria dependia de recados, bilhetes ou visitas para resolver qualquer urgência.
Com o tempo, surgiram telefones “compartilhados” em bares, padarias e farmácias, pagos no balcão. Eles ajudavam bastante, mas só funcionavam no horário comercial, o que deixava muita gente sem opção à noite, de madrugada ou em feriados prolongados.

Por que as primeiras cabines públicas fracassaram nas cidades brasileiras
Antes do formato clássico, houve uma fase de testes. Em 1971, São Paulo recebeu cabines fechadas de fibra de vidro e acrílico, inspiradas na Europa. A proposta era oferecer conforto acústico e privacidade, mas o calor brasileiro transformava o interior em uma espécie de estufa.
Além do desconforto térmico, as cabines ocupavam muito espaço nas calçadas, atrapalhando o fluxo de pedestres. A experiência mostrou que o país precisava de um projeto próprio, pensado para o clima tropical, para ruas cheias e para uso intenso ao ar livre.
Como Chu Ming Silveira criou o desenho marcante do orelhão
A responsabilidade pelo novo modelo ficou com a arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, que criou duas versões: uma menor para interiores e outra robusta para as ruas. A peça de rua, que ficou conhecida como orelhão, tinha uma concha curva de fibra de vidro, resistente e relativamente leve para produção em massa.
A forma ovalada reduzia o barulho, protegia do sol e da chuva e ocupava pouco espaço, enquanto as cores chamativas facilitavam achar o aparelho à distância. Embora o nome oficial fosse Tulipa, o apelido popular pegou e se espalhou com a expansão do sistema nacional de telecomunicações.
Como funcionavam as fichas, cartões e gírias ligadas ao orelhão
O sistema de pagamento foi um dos pontos mais particulares do orelhão. Em vez de moedas comuns, adotaram-se fichas metálicas próprias, que funcionavam como unidades de tempo de ligação, solução prática em um período de inflação alta e valores instáveis.
Quando a ficha era inserida, a chamada só completava após ela cair no mecanismo, originando a expressão “caiu a ficha” para indicar entendimento súbito. Mais tarde, vieram os cartões telefônicos pré-pagos, recarregáveis e ilustrados, que alimentaram um mercado de colecionadores, com temas que iam de futebol a paisagens turísticas:
- Cartões comemorativos de eventos esportivos e culturais.
- Séries limitadas com cidades e pontos turísticos brasileiros.
- Modelos promocionais de empresas e campanhas publicitárias.
- Itens raros disputados em feiras e grupos de colecionadores.
Selecionamos o vídeo do Canal 90 que faz sucesso no YouTube com seus vídeos incríveis:
Qual é o legado dos orelhões e por que revisitá-los agora
Com a popularização dos celulares pré-pagos nos anos 2000, o hábito de atravessar a rua para telefonar entrou em queda livre. Em grandes capitais, como São Paulo, a remoção gradual dos orelhões já faz parte do planejamento urbano, com desligamento definitivo previsto em alguns locais a partir de 2026.
Mesmo desaparecendo das calçadas, o orelhão deixou um legado forte: democratizou a telefonia, criou uma cultura em torno de fichas e cartões e virou cenário de histórias marcantes de esquina. Se você quer resgatar essas memórias antes que sumam de vez, comece hoje: procure fotos antigas, guarde fichas e cartões que encontrar e registre relatos de quem viveu essa era – cada objeto ou lembrança pode ser a última conexão viva com um Brasil que já não existe mais.




