A 110 quilômetros de Belo Horizonte, no centro do chamado Quadrilátero Ferrífero, está localizada Itabira. Esta é a cidade que viu nascer Carlos Drummond de Andrade e de onde se originou a empresa Vale. O Pico do Cauê, que outrora reluzia em tons azulados a 1.385 metros de altitude e servia como ponto de referência para os viajantes do período colonial, foi convertido em uma imensa cratera após décadas de atividade mineradora. No lugar da montanha, restaram poemas, museus com projetos assinados por Oscar Niemeyer e uma identidade que mescla a força do ferro à sensibilidade da literatura, tudo isso a apenas duas horas da capital mineira.
A origem de um nome que remete a uma pedra de aparência luminosa
O termo Itabira tem suas raízes na língua tupi e significa, precisamente, “pedra que brilha”. O brilho a que o nome se refere era literal: o minério de ferro que aflorava nas montanhas da região refletia a luz do sol de forma intensa, o que não tardou a chamar a atenção dos primeiros exploradores. Os irmãos Francisco e Salvador de Faria Albernaz foram alguns desses pioneiros, tendo chegado por volta do ano de 1720, oriundos de Itambé do Mato Dentro, com o intuito de encontrar ouro nos córregos que desciam do Cauê.
O ouro se esgotou ao final do século XVIII, mas a exploração do ferro estava apenas em seus estágios iniciais. No ano de 1911, a empresa inglesa Itabira Iron Ore Company obteve a concessão para explorar as jazidas da região. Mais tarde, em 1942, já em meio à Segunda Guerra Mundial, o então presidente Getúlio Vargas nacionalizou as minas e criou a Companhia Vale do Rio Doce. Naquele mesmo ano, por meio de um decreto do governador, a cidade teve seu nome alterado para Presidente Vargas. A população local, no entanto, resistiu à mudança, e em 1947 a denominação original, Itabira, foi definitivamente restaurada.

Uma cidade onde a poesia de Drummond se faz onipresente
Drummond veio ao mundo em Itabira no ano de 1902, tendo ali residido até os treze anos de idade. As vivências de sua infância, passadas em meio às ruas de terra e aos casarões de estilo colonial, serviram de matéria-prima para uma parte substancial de sua obra literária. Atualmente, a cidade retribui a herança cultural deixada pelo poeta por meio de uma rede de espaços culturais geridos pela Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), instituição que foi criada em 1985.
O Memorial Carlos Drummond de Andrade, inaugurado no ano de 1998, é um projeto de autoria do renomado arquiteto Oscar Niemeyer e está situado na encosta do Pico do Amor, um dos pontos mais elevados da cidade. Seu acervo abriga itens de grande valor histórico e afetivo, como a primeira máquina de datilografia utilizada pelo poeta, correspondências familiares e exemplares das primeiras edições de seus livros. O memorial recebe anualmente um público superior a 15 mil pessoas.
Pelas ruas do centro da cidade, 44 placas confeccionadas em aço compõem o Museu de Território Caminhos Drummondianos, um itinerário de 7 quilômetros que foi concebido em 1997. Cada uma dessas placas exibe um poema que guarda uma relação direta com o local exato em que se encontra instalada. Jovens participantes do Projeto Drummonzinhos atuam como guias, acompanhando os visitantes e declamando os versos ao longo de todo o percurso.

Como é morar na terra do ferro e da poesia?
De acordo com os dados doCenso 2022 do IBGE, Itabira possui uma população de 113.343 habitantes e ostenta um PIB per capita de R$ 65.590, montante fortemente impulsionado pela atividade mineradora. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município é de 0,756, valor que o classifica como alto. A cidade também conta com um campus da Unifei, diversas faculdades de natureza privada e uma infraestrutura de saúde que atende, inclusive, a população de municípios vizinhos.
A relação da cidade com a mineração, entretanto, é marcada por uma profunda ambiguidade. A Vale é uma importante fonte de geração de empregos e de arrecadação de receitas, mas as marcas deixadas na paisagem são cicatrizes visíveis de praticamente qualquer mirante. O Pico do Cauê, cuja silhueta Drummond podia avistar da janela de sua própria casa, é hoje uma vasta cratera. Desde 2011, a empresa mineradora executa no local um projeto de revegetação, devidamente licenciado pelos órgãos ambientais competentes.
Quem aprecia história e literatura, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Pelos Quatro Ventos, que conta com mais de 90 mil visualizações, onde Glauder e Andreia mostram os monumentos de Drummond e o patrimônio ferroviário de Itabira:
O que visitar em Itabira e nos distritos serranos?
A cidade consegue harmonizar, em um mesmo território, um rico patrimônio cultural concentrado em sua área central e uma natureza exuberante localizada nos distritos que a circundam. Ipoema, situado a 42 quilômetros da sede, abriga cerca de 50 cachoeiras devidamente catalogadas e integra o trajeto do Caminho dos Diamantes da Estrada Real. A lista a seguir reúne os principais atrativos, que atendem aos mais variados perfis de viajantes:
- Casa de Drummond: sobrado do século XIX com 32 cômodos, jardim com canteiros em forma de estrela e exposição permanente sobre o poeta.
- Fazenda do Pontal: propriedade da família Drummond, desmontada em 1973 e reconstruída em 2004 com peças originais.
- Cachoeira Alta: queda de aproximadamente 110 metros em Ipoema, com área de camping e acesso por trilha leve.
- Serra dos Alves: vilarejo com pouco mais de cem moradores, cânions, cachoeiras e mirantes na divisa com o Parque Nacional da Serra do Cipó.
- Parque Estadual Mata do Limoeiro: 2.056 hectares de Mata Atlântica e Cerrado em Ipoema, com trilhas sinalizadas e cachoeiras.
- Museu do Tropeiro: em Ipoema, com mais de 500 peças que resgatam a cultura tropeira dos séculos XVII e XVIII.
Itabira integra a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, reconhecida pela UNESCO em 2005, que abrange 172 municípios e mais de 10 milhões de hectares.
Quando visitar a cidade serrana do ferro?
O clima de Itabira é tropical de altitude, com verões quentes e chuvosos e invernos secos. A tabela resume as condições ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à terra de Drummond saindo de BH?
Itabira está situada a 110 quilômetros de Belo Horizonte, e o acesso se dá principalmente pela rodovia BR-381 (conhecida como Fernão Dias), seguindo-se posteriormente pela MG-436. O percurso de carro tem duração média de duas horas. A empresa Saritur opera linhas regulares de ônibus que partem da Rodoviária de Belo Horizonte. Para aqueles que optam pelo transporte aéreo, o Aeroporto Internacional de Confins é o mais próximo, localizado a 130 quilômetros de distância.
Conheça o berço onde a poesia foi forjada a partir do ferro
Itabira é uma cidade que traz em seu próprio nome a referência ao brilho da pedra e que tem sua trajetória histórica profundamente entrelaçada com a atividade mineradora. Em meio a crateras e casarões seculares, entre versos que se encontram espalhados por suas ruas e cachoeiras que se ocultam nas montanhas, a terra natal de Drummond proporciona uma experiência singular que congrega cultura e natureza, a uma curta distância da capital mineira.
Vale a pena subir a serra e desbravar Itabira, a cidade onde cada esquina parece guardar um poema e onde cada mirante descortina, a um só tempo, o preço a pagar e a beleza inerente ao ferro.




