Entre a neblina que desce das serras e o cheiro de lenha dos fornos a 1.400°C, Cunha guarda uma identidade que poucas cidades paulistas conseguem oferecer. Reconhecida por lei federal como a Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura, essa estância climática de 21 mil habitantes no alto da Serra da Bocaina virou destino obrigatório para quem busca arte, natureza e o ritmo lento de uma cidade que escolheu o barro como linguagem.
Como uma técnica japonesa transformou Cunha na capital da cerâmica
A história começa em 1975, quando um grupo de ceramistas se instalou no antigo matadouro municipal, cedido pela prefeitura. O grupo trouxe consigo o forno Noborigama, técnica milenar originária de Kyoto que usa câmaras interligadas em aclive para atingir temperaturas superiores a 1.400 °C. Nenhuma outra cidade do Japão concentra tantos fornos desse tipo fora do país de origem quanto Cunha.
O grupo pioneiro era formado pelo casal japonês Toshiyuki e Mieko Ukeseki, o ceramista português Alberto Cidraes e os irmãos mineiros Vicente e Antônio Cordeiro. A primeira abertura de fornada aconteceu em 1976 e o que começou com cinco pessoas virou um movimento cultural que resiste há cinco décadas. Em 2022, o governo federal reconheceu a trajetória com a Lei 14.363, que conferiu à cidade o título oficial de Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura.
Cada peça que sai do forno Noborigama é única. A cinza da lenha, levada pelo calor extremo, deposita-se sobre a argila e cria vidrados orgânicos impossíveis de reproduzir. É exatamente essa imprevisibilidade controlada que atrai colecionadores e artistas de outros países até a serra paulista.

Cunha tem reconhecimento nacional e internacional pelo artesanato em barro
O vilarejo ocupa hoje uma posição reconhecida além das fronteiras brasileiras. Segundo o Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), a cerâmica de Cunha é reconhecida internacionalmente por sua sofisticação e identidade, com ateliês que atraem visitantes e colecionadores de outros países. A Prefeitura de Cunha descreve a cidade como um importante polo de cerâmica artística na América do Sul, posição sustentada pela concentração de fornos Noborigama ativos que não tem equivalente nem no Japão contemporâneo.
Desde 2005, o Festival de Cerâmica de Cunha acontece anualmente, reunindo ceramistas, visitantes e compradores de diferentes regiões do Brasil e do exterior. Em 2025, a edição celebrou os 50 anos da chegada do primeiro forno Noborigama com mais de 50 ateliês abertos ao público simultaneamente. Cunha também foi palco de duas edições do L’Étape Brasil by Le Tour de France, prova de ciclismo que escolheu a serra pela beleza e pela dificuldade das estradas de montanha.

O que fazer em Cunha além de visitar ateliês de cerâmica
A cidade concentra muito mais do que barro e fornos. As principais atrações da Estância Climática de Cunha são:
- Circuito de ateliês de cerâmica: mais de 20 ateliês espalhados pela cidade e arredores, muitos com visitas abertas e oficinas para o público. O Ateliê Suenaga e Jardineiro é um dos pioneiros e abre suas fornadas ao público em datas fixas. A Casa do Artesão centraliza a produção de dezenas de ceramistas locais em um único endereço no centro.
- Pedra da Macela: pico a 1.840 metros de altitude no Parque Nacional da Serra da Bocaina, na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro. A caminhada de 2 km em terreno íngreme recompensa com vista panorâmica de Paraty, da Baía de Ilha Grande e de Angra dos Reis.
- Parque Estadual da Serra do Mar: o maior bloco contínuo de Mata Atlântica preservada do Brasil, com 330 mil hectares. O núcleo de Cunha oferece trilhas de 1,7 km a 14,4 km, com até seis cachoeiras em um único percurso.
- Lavandário e Contemplário: campos de lavanda instalados no alto da serra, com vistas para o Vale do Paraíba. O Lavandário fica na estrada Cunha-Paraty e inspira comparações com a Provença francesa. O Contemplário, no bairro do Taboão, é a segunda opção da região, mais recente e com estrutura diferente.
- Estrada Cunha-Paraty: trecho de 9,4 km que percorre o Parque Nacional da Serra da Bocaina pelo traçado do antigo Caminho do Ouro, com paisagens de Mata Atlântica densa. Os carros circulam apenas das 7h às 17h30 para preservar a travessia dos animais.
- Fazenda Aracatu: propriedade rural com queijos artesanais premiados, pães e doces caseiros, a 9,5 km do centro pela estrada Cunha-Paraty. Combina loja e ambiente de museu de objetos antigos.
Quem busca um roteiro completo por Cunha, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Vamos Fugir Blog, que conta com mais de 138 mil visualizações, onde Lígia e Ulisses mostram as melhores trilhas, campos de lavanda e ateliês de cerâmica de São Paulo:
Qual a melhor época para visitar Cunha na serra paulista
O clima de Cunha é tropical de altitude, com temperaturas que variam ao longo do ano de acordo com o Climatempo. A cidade registra geadas ocasionais no inverno e o fenômeno local chamado de “chuva da serra”, uma garoa fina e persistente que pode durar dias e cobre as montanhas de névoa densa:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Cunha saindo de São Paulo ou do Rio de Janeiro
Cunha fica a 230 km da capital paulista. De São Paulo, o acesso é pela Rodovia Presidente Dutra (BR-116) até Guaratinguetá, onde se entra na SP-171 (Rodovia Paulo Virgínio) em direção a Paraty. A cidade fica no km 46 dessa rodovia, com quatro pedágios em cada sentido. Do Rio de Janeiro, o trajeto segue pela mesma Dutra até Guaratinguetá e depois a SP-171, com cerca de 300 km. Não há ônibus direto de São Paulo para Cunha: a baldeação é feita em Guaratinguetá. Carro próprio ou alugado é a opção mais prática, já que a maioria das atrações fica fora do centro e em estradas rurais.
Cunha é o tipo de cidade que você visita uma vez e volta sempre
A estância climática da serra paulista tem algo raro: uma identidade construída por escolha. Os ceramistas que chegaram em 1975 não vinham para um lugar famoso. Criaram um.
Se você ainda não foi a Cunha, planeje uma visita lenta, com tempo para esperar uma abertura de forno, subir a Pedra da Macela e sentar em um ateliê sem pressa. A serra vai fazer o resto.




