Imagine entrar em uma sala cheia de fios, luzes e barulhos, onde um erro em um único cabo pode comprometer semanas de trabalho. Foi nesse cenário intenso que seis mulheres matemáticas, em plena Segunda Guerra Mundial, tornaram funcional uma das máquinas mais emblemáticas da história: o ENIAC.
O que foi o ENIAC e como ele transformou o trabalho dessas mulheres
O ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Computer) foi um dos primeiros computadores eletrônicos digitais de propósito geral, ocupando uma sala inteira e consumindo enorme quantidade de energia. Construído nos Estados Unidos, pesava toneladas e usava milhares de válvulas, realizando cálculos em alta velocidade para balística, simulações científicas e pesquisas em engenharia e física.
Sem monitores, teclados modernos ou sistemas operacionais, tudo era ajustado manualmente, cabo por cabo. As seis matemáticas precisavam entender o problema a resolver e o funcionamento interno da máquina, configurando cerca de 3.000 interruptores. Um cabo fora do lugar podia arruinar toda a sequência de cálculos, exigindo enorme atenção aos detalhes e muita coragem para lidar com um equipamento tão novo e imprevisível.
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Quem foram as Mulheres do ENIAC e como atuavam na prática
As chamadas Mulheres do ENIAC começaram como “computers”, pessoas que faziam cálculos à mão, e logo se tornaram responsáveis por operar e programar a máquina. Sem receber inicialmente o título de programadoras, elas assumiram funções centrais para transformar um amontoado de cabos em um computador realmente útil e funcionando.
- Kathleen McNulty (Kay McNulty) – Imigrante irlandesa, tinha forte formação em matemática e ajudou a configurar programas para tabelas balísticas.
- Jean Bartik – Especializada em lógica, trabalhou em rotinas complexas e depois atuou em outros projetos pioneiros de computação.
- Frances Holberton – Contribuiu depois para linguagens e padrões de software, trazendo mais organização às instruções do ENIAC.
- Marlyn Meltzer – Planejava rotas de cabos e detalhes de painéis, garantindo a ordem correta das operações.
- Frances Spence – Com experiência em cálculos diferenciais, traduziu equações difíceis em sequências de operações eletrônicas.
- Ruth Teitelbaum – Testava e ajustava rotinas, verificando resultados e identificando falhas de configuração.
Como era programar o ENIAC sem linguagens de computador
Na época, ninguém falava em linguagem de programação ou código-fonte, e isso tornava o trabalho ainda mais desafiador. As programadoras precisavam pensar quase “como a máquina”, analisando o problema matemático, definindo a ordem das operações e imaginando o caminho que os números fariam dentro do ENIAC.
O processo envolvia decompor o cálculo em etapas pequenas, decidir quais módulos fariam soma, subtração ou multiplicação e, então, conectar cabos para criar o fluxo de dados. Depois, ajustavam interruptores para definir repetições e paradas, testando tudo com paciência e comparando resultados com cálculos manuais, em jornadas longas e exaustivas.
Para você que quer aprofundar, separamos um vídeo do canal TecMundo com mais da história do primeiro comptuador do mundo:
Por que o reconhecimento das programadoras do ENIAC demorou tanto
Durante muitos anos, os holofotes ficaram voltados para engenheiros e militares que projetaram o hardware e financiaram o projeto. Nas fotos oficiais, as mulheres apareciam ao lado da máquina, mas eram descritas como meras operadoras, como se apenas apertassem botões em vez de criar a lógica de funcionamento do computador.
O contexto da época, marcado por forte desigualdade de gênero, via o trabalho de cálculo como algo auxiliar, especialmente quando feito por mulheres. Além disso, a computação era considerada apenas um experimento técnico, e o foco histórico recaiu sobre a parte física da máquina, deixando o “software manual” em segundo plano e contribuindo para esse apagamento histórico.
Qual é o legado das Mulheres do ENIAC para a computação atual
O trabalho dessas seis pioneiras mostra que a história da computação é também a história de pessoas que traduzem ideias abstratas em processos concretos. Ao transformar equações em instruções operacionais, elas anteciparam princípios de lógica de programação, testes e documentação que só seriam formalizados mais tarde.
Hoje, seu legado inspira discussões sobre diversidade em tecnologia e sobre como equipes diferentes criam soluções mais criativas e robustas. Estudos acadêmicos, documentários e projetos de divulgação científica têm recuperado seus nomes, ajudando a colocar Kathleen McNulty, Jean Bartik, Frances Holberton, Marlyn Meltzer, Frances Spence e Ruth Teitelbaum lado a lado com o ENIAC quando se fala sobre a origem da computação digital, ampliando o olhar sobre quem fez essa história acontecer de fato e com tanta coragem.




