Entre as Serras do Mar e da Bocaina, a mil metros de altitude, Cunha é uma cidade de 21 mil habitantes onde fornos de cerâmica aquecem mais que o trânsito. A Estância Climática paulista não tem um único semáforo, mas reúne mais de 20 ateliês de cerâmica de alta temperatura, campos de lavanda com vista para as montanhas e uma estrada cenográfica que leva direto a Paraty. Em 2022, a Lei 14.349 conferiu a Cunha o título de Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura.
Como artistas japoneses e portugueses transformaram esta serra em polo ceramista?
A relação de Cunha com a argila é antiga. Antes da colonização, os povos Tamoios já produziam cerâmica na região. Nos séculos seguintes, mulheres conhecidas como “paneleiras” moldavam potes e utensílios em fornos rústicos. A última delas, Benedita Olímpia de Abreu (1912-2011), aprendeu o ofício com a avó e trabalhou com barro até os 93 anos.
A virada aconteceu em 1975. Um grupo de ceramistas formado pelo arquiteto português Alberto Cidraes e pelo casal japonês Toshiyuki e Mieko Ukeseki se instalou no antigo matadouro da cidade, com apoio da prefeitura, e construiu o primeiro forno Noborigama do município. Esse tipo de forno, de tradição milenar japonesa, possui câmaras interligadas em aclive que atingem até 1.400°C e queimam durante 32 horas seguidas. O resultado são peças com texturas e cores que dependem do comportamento do fogo, tornando cada cerâmica única.

Que título federal Cunha recebeu por sua tradição ceramista?
A Lei 14.349, sancionada em 1º de junho de 2022, concedeu oficialmente a Cunha o título de Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura. O projeto foi aprovado por unanimidade na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal. Desde 2005, a cidade realiza o Festival de Cerâmica, com aberturas de fornadas, queimas de raku, workshops e exposição coletiva dos ceramistas. O Memorial da Cerâmica de Cunha (MECC) preserva um acervo de mais de 200 obras, incluindo peças dos pioneiros de 1975.
O que fazer entre lavandas e fornos centenários na serra?
Cunha concentra atrações culturais e naturais em um raio curto. A maioria dos pontos fica ao longo da Estrada Cunha-Paraty, com 49 km de extensão e paisagens de Mata Atlântica preservada:
- Ateliês de cerâmica: mais de 20 espaços abertos à visitação, como o Suenaga e Jardineiro, que reúne até 200 pessoas nas aberturas de fornada, e o Ateliê Carvalho, referência em técnica de multiqueima. A lista completa está no site da Prefeitura.
- O Lavandário: mais de 40 mil pés de lavanda a 1.200 metros de altitude, com vista panorâmica para as montanhas do Vale do Paraíba. O pôr do sol é considerado um dos mais bonitos do estado.
- Contemplário: campos de lavanda com proposta sensorial e educativa, trilhas entre as plantações e extração de óleos essenciais. Entrada gratuita.
- Pedra da Macela: pico a 1.840 metros de altitude com vista 360° que alcança a baía de Ilha Grande, a planície de Paraty e a Serra da Bocaina. Trilha de 4 km, dificuldade moderada.
- Canto das Cachoeiras: ecoparque com quatro quedas d’água, trilhas e bistrô, a 10 minutos do Lavandário.
- Parque Estadual da Serra do Mar (Núcleo Cunha): trilhas em Mata Atlântica com cachoeiras. A trilha do Rio Paraibuna é autoguiada; as demais exigem agendamento gratuito com guias do parque.
Quem busca um roteiro completo por Cunha, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Vamos Fugir Blog, que conta com mais de 75 mil visualizações, onde Lígia e Ulisses mostram as melhores trilhas, lavandários e gastronomia de São Paulo:
Quando a neblina e a lavanda estão no auge?
Cunha é classificada como Estância Climática pelo Governo do Estado de São Paulo. A altitude média de mil metros garante temperaturas amenas o ano todo, com neblina frequente no inverno. A floração mais intensa da lavanda acontece entre julho e setembro:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude.
Como chegar à Serra dos Ceramistas saindo de São Paulo?
Cunha fica a cerca de 230 km da capital paulista. O trajeto mais comum é pela SP-70 (Ayrton Senna/Carvalho Pinto), depois BR-116 (Via Dutra) até Guaratinguetá e, por fim, SP-171 até Cunha, totalizando aproximadamente 3 horas de viagem. De Paraty (RJ), são apenas 46 km pela Estrada Cunha-Paraty. O carro é essencial: as atrações ficam espalhadas pela zona rural e não há transporte público entre elas.
A cidade que fez da argila uma razão para ficar
Cunha é daqueles destinos que pedem mais de um fim de semana. A combinação de ateliês onde se pode ver o fogo transformar barro em arte, campos de lavanda que mudam de cor conforme o sol desce e trilhas que terminam com vista do mar lá do alto da serra cria uma experiência difícil de replicar no interior paulista.
Se você busca um lugar onde a pressa não faz sentido e cada peça de cerâmica carrega a marca do forno e do acaso, Cunha espera com seus fornos acesos e suas montanhas cobertas de névoa.




