No coração da Serra Gaúcha, a 12 km de Flores da Cunha, existe uma vila onde as placas das ruas dizem Uva Itália, Uva Moscato e Uva Isabel. Otávio Rocha é um distrito de cerca de 2.500 habitantes que preserva o dialeto trazido pelos imigrantes do norte da Itália em 1882 e mantém um ritmo de vida que parece ignorar o calendário.
Por que as ruas deste vilarejo gaúcho têm nome de uva?
Em 1975, a vila decidiu trocar os nomes de todas as suas vias por variedades de uva. A avenida principal virou Uva Itália, e as demais passaram a se chamar Uva Bonarda, Uva Niágara, Uva Bordô, entre outras. A homenagem faz sentido: Otávio Rocha está dentro do município que mais produz vinho no Brasil. Segundo a Prefeitura de Flores da Cunha, o município ostenta o título de maior produtor de vinhos do país desde 1994, com cerca de 200 vinícolas e produção que já alcançou 120 milhões de litros por ano.
Na rua principal, em frente à Igreja São Marcos, um túnel de parreiral com aproximadamente 100 mudas de videira cobre a via por cerca de 80 metros. Na época da vindima, entre janeiro e fevereiro, os cachos pendem sobre quem passa de carro ou a pé.

O dialeto italiano que virou patrimônio nacional
Os primeiros colonos de Otávio Rocha vieram em sua maioria da Província de Vicenza, na região do Vêneto. A língua que trouxeram se misturou ao português e a outras variantes italianas, dando origem ao talian. Em 2014, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu o talian como Referência Cultural Brasileira e o incluiu no Inventário Nacional da Diversidade Linguística. No ano seguinte, Flores da Cunha tornou o talian sua língua cooficial, ao lado do português.
O idioma chegou a ser proibido durante o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), quando falar outra língua que não o português era considerado ato de desobediência. A repressão gerou vergonha em muitas famílias, mas o talian sobreviveu na intimidade das casas e voltou a ser valorizado nas últimas décadas. Em março de 2026, a Prefeitura lançou o projeto “Talian na Prática”, com encontros semanais para estimular a conversação entre moradores.
Quem sonha em viajar pela Serra Gaúcha, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Neumar, que conta com mais de 533 visualizações, onde Neumar mostra as belezas de Otávio Rocha em Flores da Cunha:
Um casarão de pedra tombado pelo patrimônio estadual
O Casarão dos Veronese é o único bem de Flores da Cunha tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE) como Patrimônio Cultural do Rio Grande do Sul. Construído em 1898 pelo imigrante Felice Veronese, que chegou da Itália em 1882, o edifício tem paredes de basalto talhado e detalhes em tijolo que imitam técnicas vênetas. Restaurado entre 2015 e 2017 com investimento de cerca de R$ 3 milhões, o casarão foi reaberto como centro cultural, com salas de exposição, oficinas gastronômicas e visitas guiadas. A entrada é gratuita. O projeto de restauro foi do arquiteto Edegar Bittencourt da Luz, o mesmo responsável pela recuperação do Mercado Público de Porto Alegre.
O que fazer em Otávio Rocha além de provar vinho?
A vila e seus arredores reúnem atrações para pelo menos um fim de semana inteiro. Boa parte dos empreendimentos funciona dentro da rota Otávio Rocha Vila Colonial:
- Parque da Gruta: a 2 km do centro, abriga uma cascata de aproximadamente 15 metros que despenca sobre uma gruta de rocha natural. É possível passar por trás da queda d’água. Entrada gratuita, aberto das 8h às 18h.
- Praça Regional da Uva: homenageia os oito municípios maiores produtores de uva do Rio Grande do Sul. Abriga a estátua de Nossa Senhora da Uva, com 2 metros de altura e 600 kg.
- Pauletti Vinhos e Vinhedos: vinícola familiar com tradição desde 1896, oferece degustação e visita aos vinhedos com acompanhamento da família.
- Slaviero Uvas: propriedade com cerca de 30 variedades de uva, onde o visitante pode colher os cachos e levar para casa no sistema colha e pague.
- Chocolate com Arte: pequena fábrica artesanal no centro da vila, trabalha com chocolate belga e cria peças temáticas como cachos de uva esculpidos em chocolate.
- Belvedere Monte Calvário: inaugurado em 1982 para celebrar o centenário da colonização, tem uma escadaria com mais de 170 degraus e uma cruz de ferro de 14 metros no topo, com vista panorâmica de toda a região.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio na serra?
Flores da Cunha está a 710 metros de altitude e apresenta clima temperado oceânico, com estações bem definidas. A melhor época para quem busca vindima e parreirais carregados é entre janeiro e fevereiro:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar ao vilarejo italiano da Serra Gaúcha?
Otávio Rocha fica a 150 km de Porto Alegre e a 25 km de Caxias do Sul. O acesso mais prático é pela RS-122 até Flores da Cunha, seguindo por 12 km de estrada asfaltada até a vila. A estrada já faz parte do passeio: parreirais, propriedades rurais e vinícolas aparecem ao longo de todo o trajeto. O aeroporto mais próximo é o de Caxias do Sul.
A vila que guarda o ritmo da Itália no meio da serra
Otávio Rocha é um daqueles lugares que não aparecem em roteiros apressados, mas que recompensam quem aceita desacelerar. A combinação de ruas batizadas com nomes de uva, uma língua vêneta reconhecida como patrimônio nacional e cantinas onde o tempo corre devagar transforma o vilarejo em algo raro na Serra Gaúcha.
Você precisa separar um fim de semana, percorrer os 12 km de parreiral até a vila e sentir o que acontece quando uma comunidade inteira decide que a tradição dos avós vale a pena manter viva.




