O caso de um vigilante demitido por justa causa após publicar fotos em um churrasco durante afastamento médico reacendeu o debate sobre o uso das redes sociais e os limites da confiança nas relações de trabalho. O episódio, ocorrido em Santa Helena de Goiás e analisado pela 2ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região (TRT-GO), mostra como um simples post pode comprometer direitos trabalhistas e a continuidade do vínculo de emprego.
O que é justa causa e como ela impacta o trabalhador
A justa causa é a forma mais severa de rescisão do contrato de trabalho, prevista no artigo 482 da CLT. Nessa modalidade, o empregado perde direitos como aviso-prévio, multa de 40% do FGTS, saque integral do fundo e seguro-desemprego.
No caso do vigilante, a empresa enquadrou a conduta como “mau procedimento”, entendendo que houve quebra de confiança na apresentação do atestado. O afastamento remunerado pressupõe boa-fé e uso legítimo do benefício para repouso ou tratamento de saúde.

Por que o vigilante perdeu o emprego por causa das redes sociais
O trabalhador apresentou atestado médico com dois dias de descanso por sinusite e reação alérgica, iniciando o afastamento em um sábado. No domingo, porém, publicou fotos de um churrasco na casa do sogro, com registro de churrasqueira, bebidas e ambiente de lazer.
Para o TRT-GO, houve incompatibilidade entre o estado de saúde alegado e a atividade desempenhada, rompendo a confiança necessária à relação de emprego. A Justiça entendeu que não era obrigatório aplicar penalidades gradativas antes da justa causa, dada a gravidade da conduta.
Quando o uso de atestado médico pode gerar justa causa
A utilização de atestado médico é baseada na fidúcia, isto é, na confiança recíproca entre empregado e empregador. Quando o comportamento do trabalhador mostra possível má-fé ou desvio de finalidade, essa confiança pode ser rompida e justificar a demissão motivada.
Nos julgamentos trabalhistas, alguns aspectos costumam pesar bastante na análise sobre fraude ou uso indevido do atestado, servindo de parâmetro para casos semelhantes:
- coerência entre o repouso recomendado e as atividades realizadas no período de afastamento;
- repetição de afastamentos em datas estratégicas, como fins de semana e feriados;
- função que exige alto grau de confiança, como vigilantes, caixas, motoristas e gestores;
- impacto da ausência para a empresa, inclusive em segurança, escala de trabalho e custos extras.

Como as redes sociais viram prova em processos trabalhistas
O caso do vigilante mostra que fotos, vídeos e mensagens em redes sociais podem ser usados como prova em processos trabalhistas. Mesmo conteúdos direcionados a amigos e familiares podem ser acessados e apresentados em juízo quando revelam contradições com o que foi alegado.
Por isso, é essencial que o trabalhador tenha coerência entre o que declara para justificar o afastamento e sua conduta pública online. Empresas, por sua vez, devem manter políticas claras sobre uso de atestados, afastamentos e consequências de fraudes ou má-fé.
Quais lições práticas esse caso deixa para empregados e empresas
O julgamento no TRT-GO reforça que o ambiente digital não é completamente privado e pode ser decisivo na validação ou não de uma justa causa. Em um cenário de alta exposição online, empregados precisam agir com transparência e responsabilidade, e empregadores devem avaliar cada caso com cautela.
Se você é trabalhador, redobre a atenção com o uso de atestados e com o que publica nas redes durante afastamentos. Se você é empresa, revise imediatamente suas políticas internas e procedimentos disciplinares: um erro de avaliação hoje pode custar caro amanhã em juízo. Não espere outro caso estourar para agir; ajuste suas práticas agora e proteja sua relação de trabalho com base em confiança real e comprovável.




