Primeiro patrimônio cultural brasileiro reconhecido pela UNESCO, Ouro Preto é a cidade onde se caminha sobre túneis coloniais sem saber. A 100 km de Belo Horizonte, a antiga Vila Rica preserva o maior conjunto de arquitetura barroca do mundo e expressões populares que nasceram no ciclo do ouro.
A cidade construída por cima de um labirinto
Pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) mapeiam desde 1994 as galerias escavadas por mãos escravizadas no século XVIII. O trabalho já catalogou cerca de 270 estruturas subterrâneas, mas o total estimado chega a 350, somando galerias de extração, caminhos de ventilação e túneis de desvio de água. Quem sobe e desce as ladeiras de paralelepípedo pisa, sem saber, sobre centenas desses corredores.
O ouro que saiu de baixo da terra revestiu os altares que tornaram a cidade famosa. A Basílica de Nossa Senhora do Pilar, inaugurada em 1733, ostenta mais de 400 kg de metais preciosos na ornamentação interna. A Igreja de São Francisco de Assis, projetada por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, em 1766, foi reconhecida como uma das sete maravilhas de origem portuguesa no mundo. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou a cidade em 1938. A UNESCO concedeu o título de Patrimônio Mundial em 1980.

Algumas expressões do português brasileiro nasceram nessas ladeiras. “Santo do pau oco” vem da prática de esconder ouro dentro de imagens religiosas. “Sem eira nem beira” descrevia casas simples, sem os detalhes pomposos nos telhados que indicavam riqueza. “Feito nas coxas” remete à fabricação irregular de telhas moldadas sobre as pernas dos escravizados.

O que fazer entre igrejas barrocas e minas subterrâneas
O roteiro de Ouro Preto equilibra arte sacra, história da Inconfidência Mineira e mergulhos literais no subsolo. Os principais pontos ficam a poucos minutos de caminhada uns dos outros:
- Praça Tiradentes: coração da cidade, ladeada pelo Museu da Inconfidência (antiga Casa de Câmara e Cadeia) e pelo Palácio dos Governadores (atual Escola de Minas). Foi ali que a cabeça de Tiradentes ficou exposta após a execução.
- Igreja de São Francisco de Assis: fachada esculpida em pedra-sabão por Aleijadinho e teto pintado por Mestre Ataíde. Considerada a obra-prima do barroco mineiro.
- Basílica de Nossa Senhora do Pilar: seis altares cobertos de ouro e o Museu de Arte Sacra no subsolo.
- Mina da Passagem: entre Ouro Preto e Mariana, é a maior mina de ouro aberta à visitação no mundo. A descida de trolley percorre 315 metros até um lago subterrâneo a 120 metros de profundidade.
- Casa da Ópera: o teatro mais antigo em funcionamento nas Américas, com acústica perfeita e programação cultural ativa.
- Parque Estadual do Itacolomi: trilhas com vista panorâmica da serra e cachoeiras acessíveis para banho.
Como chegar à antiga Vila Rica
Ouro Preto fica a 100 km de Belo Horizonte pela BR-356, cerca de 1h30 de carro. Ônibus regulares partem do terminal rodoviário de BH com frequência ao longo do dia. De São Paulo, a distância é de aproximadamente 670 km pela BR-381 (Fernão Dias) até BH, seguida pela BR-356. Não há aeroporto na cidade, mas o Aeroporto de Confins recebe voos de todo o Brasil e fica a cerca de duas horas do centro histórico. As ladeiras de pedra exigem calçados firmes, especialmente nos meses de chuva.
A cidade que parou no tempo e ganhou o mundo
Ouro Preto sobreviveu porque empobreceu. Quando o ouro acabou e a capital migrou para Belo Horizonte em 1897, a cidade parou no tempo. Esse congelamento econômico preservou o casario branco, as esquadrias coloridas e os altares dourados que hoje atraem visitantes do mundo inteiro.
Você precisa subir essas ladeiras pelo menos uma vez na vida e entender, de perto, como o Brasil colonial ainda respira em cada pedra de Minas Gerais.



