O vapor sobe das piscinas mesmo em noites de julho. Quem chega a Caldas Novas pela primeira vez estranha: nenhuma caldeira, nenhum aquecedor, e ainda assim a água está morna. A explicação está debaixo do chão. A 170 km de Goiânia, no sul de Goiás, a cidade abriga o maior manancial hidrotermal do planeta, alimentado por chuvas que infiltraram na serra há cerca de mil anos e voltam quentes pela força da própria Terra.
Chuva de mil anos que volta quente: como funciona o fenômeno
Não existe vulcão por baixo de Caldas Novas. A explicação, segundo o Ministério do Turismo, é a geotermia. A chuva se infiltra pelas fissuras da Serra de Caldas, desce lentamente pelo solo e atinge profundidades próximas a mil metros. No caminho, as rochas da formação geológica aquecem a água por gradiente geotérmico, elevando a temperatura para cerca de 60 °C.
Quando a pressão é suficiente, a água retorna por fendas e se mistura, já perto da superfície, com infiltrações mais rasas do lençol freático. Esse processo de resfriamento parcial entrega temperaturas médias de 37,5 °C nas piscinas dos hotéis e parques. Em alguns pontos, como a histórica Lagoa de Pirapitinga, a água chega a 57 °C, quente o bastante para cozinhar um ovo em minutos. Todo esse ciclo leva aproximadamente mil anos: a água em que os turistas mergulham hoje caiu como chuva na época em que os vikings exploravam a Europa.

A serra que protege o aquecedor natural da cidade
A caixa-d’água de Caldas Novas não é artificial. O Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCaN), criado em 1970 e administrado pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad), protege 12.315 hectares de Cerrado nos municípios de Caldas Novas e Rio Quente. É a mais antiga unidade de conservação do estado.
A serra se formou por dois eventos tectônicos, ocorridos há 600 e 130 milhões de anos, que fraturaram e arquearam as rochas. Essas fissuras são exatamente o caminho por onde a chuva infiltra e se aquece. Dentro do parque não existem águas quentes: toda a mágica acontece no subsolo, na descida da água pelas fraturas. Em 2025, a NASA publicou em seu perfil oficial uma imagem de satélite da serra, destacando a singularidade geológica da formação. A postagem ultrapassou 400 mil curtidas e atraiu curiosidade de pesquisadores do mundo inteiro.
O que fazer em Caldas Novas além de mergulhar?
A Capital das Águas Quentes oferece atrações que vão das piscinas termais às trilhas de Cerrado preservado. A lista a seguir reúne os destaques verificados:
- Parques aquáticos: Hot Park (em Rio Quente), diRoma Acqua Park, Water Park e Lagoa Quente Park operam com piscinas abastecidas por água termal natural, sem aquecimento artificial. Toboáguas, rios lentos, piscinas de ondas e spas fazem parte da estrutura.
- Lagoa de Pirapitinga: nascente histórica onde a água brota a 57 °C. O “poço do ovo”, que cozinha um ovo em poucos minutos, é a atração mais curiosa e o marco da descoberta das fontes.
- PESCaN: trilhas da Cascatinha (716 m) e do Paredão (1,1 km) levam a cachoeiras de água fria, mirantes e cânions. Entrada gratuita, aberto das 6h às 16h, conforme a Semad.
- Lago de Corumbá: represa às margens da cidade com passeios de lancha, jet-ski e pesca esportiva.
- Jardim Japonês: projetado pelo paisagista Toshiyuki Murai nos anos 1980, com pontes arqueadas, lagos de carpas coloridas e espaço de contemplação.
Quem deseja relaxar nas águas termais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Dell Por Aqui, que conta com mais de 120 mil visualizações, onde Dell mostra como aproveitar os parques e a gastronomia de Caldas Novas, em Goiás:
Como o clima e a temperatura da água mudam ao longo do ano?
A água termal mantém temperatura agradável o ano inteiro, mas o clima de superfície varia bastante. O verão é quente e chuvoso, típico do Cerrado. O inverno seco e ameno transforma os banhos noturnos nas piscinas fumegantes em experiência visual única. A tabela a seguir cruza o clima externo com a temperatura da água para ajudar no planejamento:
Temperaturas do ar aproximadas com base no Climatempo. A água termal mantém-se naturalmente aquecida o ano todo, variando conforme o poço e a profundidade. A altitude de 686 metros ameniza as noites.
O inverno seco (junho a agosto) é considerado a melhor época para quem quer sentir o contraste entre o ar fresco da madrugada e a água fumegante das piscinas. A alta temporada coincide com as férias de julho e os feriados prolongados. Para tarifas mais acessíveis e menos filas nos parques, os meses de março a maio e setembro a outubro são os mais indicados.
Mergulhe na água que a Terra aquece há mil anos
Caldas Novas é a prova de que o Brasil guarda fenômenos geológicos capazes de rivalizar com qualquer destino europeu de termas. Uma cidade onde 86 poços jorram mais de um milhão de litros quentes por hora, onde a serra que abastece o sistema termal virou destaque da NASA e onde o banho de piscina dispensa qualquer equipamento artificial.
Você precisa sentir a água quente subindo dos pés enquanto o céu do Cerrado escurece para entender por que Caldas Novas transformou um acidente geológico de mil anos na maior estância hidrotermal do planeta.




