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A pequena vila nordestina que os cineastas franceses descobriram: praias que conquistam turistas do mundo inteiro

Vitor Bruno Por Vitor Bruno
11/03/2026
Em Cidades
Canoa Quebrada encanta com falésias vermelhas e ventos ideais para o kitesurf no Ceará // Créditos: depositphotos.com / phaelnogueira

Canoa Quebrada encanta com falésias vermelhas e ventos ideais para o kitesurf no Ceará // Créditos: depositphotos.com / phaelnogueira

Uma lua crescente e uma estrela esculpidas num paredão vermelho recebem quem desce as escadarias rumo à praia. Canoa Quebrada, no litoral leste do Ceará, nasceu como vila de pescadores, foi descoberta por cineastas da Nouvelle Vague francesa nos anos 1960, virou refúgio hippie na década seguinte e hoje atrai visitantes do mundo inteiro sem perder o clima de liberdade que a marcou desde o início.

O naufrágio de 1650 que batizou a praia

A história do nome remonta ao século XVII. Em 1650, o navegador português Francisco Soares da Cunha encalhou sua embarcação na costa entre Ponta Grossa e Aracati enquanto mapeava a região. Sem conseguir reparar o barco, a tripulação o entregou a um morador chamado Simão. Quando outros pescadores vieram ajudar a desmontar a embarcação, a frase ficou: “vamos quebrar a canoa”. O nome pegou e nunca mais saiu do mapa.

A vila permaneceu isolada por mais de três séculos. Até os anos 1960, o acesso era precário e a população vivia quase exclusivamente da pesca com jangadas. A estrada que liga Canoa Quebrada a Aracati só foi asfaltada em 1995.

Canoa Quebrada combina paisagens únicas, pôr do sol inesquecível e clima acolhedor // Créditos: depositphotos.com / phaelnogueira

De onde vem a lua e a estrela das falésias?

O símbolo mais fotografado do Ceará tem pelo menos três versões de origem. Uma delas conta que cineastas franceses, ligados ao movimento Nouvelle Vague, filmaram cenas do longa Le Grabuge (1968), dirigido por Édouard Luntz, na vila e em Aracati. Na equipe havia um marroquino muçulmano que, segundo a tradição local, mandou esculpir a lua e a estrela nas falésias como referência à sua fé.

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Outra versão aponta o artesão Chico Eliziário, que nos anos 1970 começou a gravar a meia-lua e a estrela em peças de artesanato a pedido de um visitante paquistanês. Mais tarde, o arquiteto Carlos Limaverde (conhecido como Kako) esculpiu o desenho diretamente na falésia em 1977 e passou dez anos restaurando a obra contra a ação do vento e da chuva. Desde 1986, o símbolo é a marca registrada da praia. Hoje há quatro versões esculpidas ao longo do paredão.

Leia também: Uma montanha de 1.385 metros desapareceu, a cidade mineira a 2 horas de Belo Horizonte onde a paisagem valia menos que os lucros e o maior poeta brasileiro nasceu

A Broadway que homenageia um herói abolicionista

A rua principal de Canoa Quebrada é conhecida como Broadway pelo movimento noturno que mistura forró, reggae e música ao vivo até o amanhecer. O nome oficial, porém, é Rua Dragão do Mar, em homenagem a Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, nascido na região em 1839. Ele liderou a greve dos jangadeiros em 1881 e impediu o embarque de pessoas escravizadas no porto de Fortaleza, ajudando o Ceará a se tornar a primeira província brasileira a abolir a escravidão, em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea.

A calçada de pedra portuguesa chegou à Broadway só em 2003. Hoje, o calçadão reúne pousadas, restaurantes, lojas de artesanato e barracas que servem de ponto de encontro entre moradores e turistas.

A vila de Canoa Quebrada é um refúgio paradisíaco que conquista brasileiros e estrangeiros // Créditos: depositphotos.com / ammonite

O que fazer entre falésias e dunas em Canoa Quebrada?

A paisagem combina paredões avermelhados de até 30 metros com dunas brancas, lagoas e um mar esverdeado. A Superintendência Estadual do Meio Ambiente (SEMACE) classifica toda a região como Área de Proteção Ambiental desde 1998. Dentro dessa área protegida, os passeios mais procurados incluem:

  • Passeio de buggy pelas dunas: roteiros de uma a três horas com paradas para esquibunda e tirolesa sobre lagoas. A maior tirolesa tem 300 metros de extensão.
  • Duna do Pôr do Sol: ponto mais alto da região, com vista panorâmica de toda a costa. A Prefeitura de Aracati promove luaus e apresentações musicais no local.
  • Passeio de jangada: navegação tradicional que permite ver as falésias coloridas do mar e acompanhar o trabalho dos pescadores locais.
  • Kitesurf e parapente: os ventos alísios constantes e as correntes térmicas das falésias fazem de Canoa um dos melhores pontos do Brasil para esportes de vento, segundo o Governo do Ceará.
  • Ponta Grossa: passeio de buggy que segue pelo litoral até o município vizinho de Icapuí, passando por falésias ainda mais preservadas e praias quase desertas.

Quem planeja viajar para o Ceará, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Dream Big, que conta com mais de 95 mil visualizações, onde Daniel e Renata mostram as falésias, a famosa Broadway e o pôr do sol em Canoa Quebrada:

A cidade colonial a 13 km da praia

Canoa Quebrada pertence ao município de Aracati, fundado como vila em 1747 e enriquecido pelo comércio de charque no período colonial. A sede municipal guarda mais de 2.500 edificações com fachadas de azulejos portugueses dos séculos XVIII e XIX, tombadas como patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2001. O Museu Jaguaribano, instalado no Solar do Barão de Aracati, e a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário são paradas obrigatórias para quem quer entender como o interior do Ceará financiou parte da economia colonial brasileira.

Como chegar a Canoa Quebrada

A praia fica a cerca de 160 km de Fortaleza, com acesso pela CE-040 (Rota do Sol Nascente) e depois pela BR-304. O trajeto de carro leva em torno de duas horas por estrada duplicada e bem sinalizada. De ônibus, a Viação São Benedito opera linhas diárias saindo da rodoviária de Fortaleza até Canoa Quebrada. A região também conta com o Aeroporto Regional Dragão do Mar, em Aracati, a 20 km da praia, que recebe voos regionais.

Onde o vento conta histórias nas falésias

Canoa Quebrada guarda camadas de história em cada paredão vermelho: um naufrágio do século XVII no nome, um símbolo de inspiração islâmica nas falésias, um herói abolicionista no nome da rua e a herança de cineastas e hippies que transformaram uma vila de pescadores em destino internacional.

Você precisa subir a Duna do Pôr do Sol, deixar o vento do litoral cearense bater no rosto e entender por que tanta gente, desde os anos 1960, chega a Canoa e resolve ficar.

Tags: Canoa QuebradaCearácidades

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