Avenidas largas, fachadas geométricas e cheiro de pequi no ar. Goiânia nasceu no papel de um urbanista formado em Paris, cresceu oito vezes mais do que o previsto e hoje entrega uma combinação rara entre metrópole e área verde que poucas capitais brasileiras conseguem oferecer.
A capital que o povo queria chamar de Petrônia
Em 1933, o jornal O Social, da antiga capital goiana, promoveu um concurso para batizar a cidade que estava sendo erguida no meio do Cerrado. O nome mais votado foi “Petrônia”, homenagem ao fundador Pedro Ludovico Teixeira, com mais de 100 votos. “Goiânia” não chegou a 10. Ludovico ignorou o resultado e, em 1935, assinou o decreto que deu à nova capital o nome inspirado no tupi-guarani “goyanna”, que significa “terra de muitas águas”. Até hoje ninguém sabe ao certo por que ele descartou a homenagem a si mesmo, segundo registro da Assembleia Legislativa de Goiás.
O projeto urbanístico ficou a cargo de Attílio Corrêa Lima, primeiro urbanista diplomado do Brasil. Ele desenhou três avenidas em formato radial a partir da Praça Cívica, com inspiração direta no Palácio de Versalhes. O plano original previa 50 mil moradores. Hoje, a capital goiana abriga cerca de 1,5 milhão.

O segundo maior acervo art déco do mundo fica no Centro-Oeste
Os primeiros edifícios públicos de Goiânia foram erguidos em estilo art déco entre as décadas de 1940 e 1950. Em 2003, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou 22 bens no núcleo pioneiro da cidade. O Teatro Goiânia, inaugurado em 1942, o Palácio das Esmeraldas, a Torre do Relógio da Avenida Goiás e o Coreto da Praça Cívica integram esse conjunto.
A capital goiana abriga o maior acervo art déco do Brasil e o segundo do mundo, atrás apenas de Miami, nos Estados Unidos, conforme a Assembleia Legislativa de Goiás. Um projeto de lei em análise na Câmara dos Deputados propõe conceder a Goiânia o título oficial de Capital Nacional do Art Déco. A prefeitura também apresentou o acervo à Unesco para pleitear o reconhecimento como Patrimônio Mundial da Humanidade.
Por que a ONU reconheceu Goiânia como Cidade Árvore do Mundo
A capital goiana oferece cerca de 94 m² de área verde por habitante, índice quase oito vezes superior ao mínimo de 12 m² recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU). No ranking mundial, fica atrás apenas de Edmonton, no Canadá, segundo levantamento da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma). O programa Tree Cities of the World, coordenado pela ONU-Habitat e pela Fundação Arbor Day, concedeu a Goiânia o selo de Cidade Árvore do Mundo, colocando-a ao lado de Paris, Nova York e Toronto.
A cidade possui mais de 60 parques e bosques. O Parque Flamboyant concentra lago e pistas de caminhada no coração do Setor Marista. O Bosque dos Buritis abriga o Museu de Arte de Goiânia. O Lago das Rosas, inaugurado na década de 1940, ainda conserva o trampolim original da época em que funcionava como piscina pública.

O planetário que chegou por engano
Nos anos 1970, o professor José Ubiratan de Moura, da Universidade Federal de Goiás (UFG), pediu ao Ministério da Educação (MEC) um telúrio, equipamento didático pequeno o suficiente para caber em cima de uma mesa. Os técnicos do governo não entenderam o pedido. Como o MEC negociava na época com a Alemanha Oriental, Goiânia recebeu um Planetário Zeiss Jena Spacemaster e um telescópio Zeiss Cassegrain. O equipamento definitivamente não cabia na mesa do professor.
A prefeitura construiu uma sede dentro do Parque Mutirama, e o planetário foi inaugurado em 23 de outubro de 1970. Boa parte da população achou que se tratava de mais um brinquedo do parque de diversões. Mais de cinco décadas depois, o Planetário Juan Bernardino Marques Barrio segue em funcionamento e é um dos espaços de divulgação científica mais importantes do Centro-Oeste.
Quem planeja visitar Goiânia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Viajando e Passeando, que conta com mais de 111 mil visualizações, onde Diego mostra um guia completo com os 10 melhores lugares da capital de Goiás:
Sete mil bancas e a maior feira ao ar livre da América Latina
Tudo começou na década de 1960, quando artesãos ligados ao movimento hippie expunham peças no Mutirama. A feira mudou de endereço várias vezes até se fixar na Praça do Trabalhador, ao lado da antiga Estação Ferroviária. Hoje, a Feira Hippie de Goiânia reúne cerca de 7 mil bancas e funciona de sexta a domingo, segundo a Prefeitura de Goiânia. É considerada a maior feira ao ar livre do Brasil e da América Latina.
Caravanas de compradores chegam toda semana, principalmente do Norte e do Nordeste, lotando em média 40 ônibus. A Secretaria de Estado da Cultura de Goiás (Secult) conduz o processo para registrar a feira como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado. Moda no atacado, empadão goiano, artesanato e garapa dividem espaço em corredores que parecem não ter fim.
Conheça a capital que nasceu no papel e virou referência de vida
Goiânia é uma cidade jovem que carrega, nas avenidas arborizadas e nas fachadas art déco, o projeto ousado de quem desenhou uma metrópole inteira no meio do Cerrado. A combinação de parques generosos, patrimônio histórico tombado e feiras que pulsam aos finais de semana cria um ritmo próprio, difícil de encontrar em outras capitais.
Você precisa caminhar pela Avenida Goiás, provar uma pamonha com café e sentir de perto por que a cidade que quase se chamou Petrônia se tornou uma das capitais com melhor qualidade de vida do país.




