Uma enchente levou metade da ponte sobre o Rio das Almas e deu nome à cidade: Meia Ponte. Três séculos depois, Pirenópolis segue surpreendendo quem chega pelas ruas de pedra quartzítica a 120 km de Goiânia, no sopé da Serra dos Pireneus.
A batalha medieval que acontece todo ano no cerrado goiano
Desde 1826, dois exércitos de 12 cavaleiros cada reencenam a guerra entre cristãos e mouros em pleno Goiás. As Cavalhadas de Pirenópolis duram três dias, com armaduras bordadas à mão, lanças de madeira e cavalos ornamentados. O espetáculo faz parte da Festa do Divino Espírito Santo, registrada como Patrimônio Cultural Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2010. O portal de turismo da prefeitura detalha toda a programação anual.
A festa ocorre desde 1819 e mobiliza a cidade por quase 60 dias. Em 2022, recebeu o prêmio internacional Passaporte Aberto como melhor festa do ano. Os Mascarados, figuras com cabeça de boi ou de onça, invadem as ruas a cavalo no intervalo das batalhas. A origem remonta aos escravos que, proibidos de participar da encenação, saíam fantasiados para não serem reconhecidos. Hoje são patrimônio inventariado e símbolo da festa. Cerca de 30 mil turistas visitam Pirenópolis durante o evento, segundo o Ministério do Turismo.

A “santa” que comandou tropas e criou uma república no sertão
Em Lagolândia, distrito de Pirenópolis, nasceu Benedita Cipriano Gomes, a Santa Dica. Dada como morta aos sete anos, teria “ressuscitado” durante o próprio velório. O episódio atraiu romeiros de toda a região, e ao redor de sua casa formou-se um povoado que ficou conhecido como República dos Anjos. Nele, não circulava dinheiro e as terras eram de uso comum.
A liderança de Dica incomodou coronéis e a Igreja. Em 1925, a polícia estadual atacou o reduto no episódio chamado “Dia do Fogo”. Em 1932, ela comandou 150 homens na Revolução Constitucionalista, voltou sem nenhuma baixa e recebeu a patente de cabo do Exército. A pintora Tarsila do Amaral a retratou em nanquim. Dica morreu em 1970, mas seu túmulo em Lagolândia permanece como local de peregrinação.

Primeiro jornal do Centro-Oeste e o primeiro tombamento de Goiás
Entre 1830 e 1834, Pirenópolis publicou a Matutina Meiapontense, primeiro jornal impresso do Centro-Oeste brasileiro. O periódico serviu como diário oficial das províncias de Goiás e Mato Grosso, totalizando 526 edições. A iniciativa partiu do Comendador Joaquim Alves de Oliveira, dono do Engenho São Joaquim (atual Fazenda Babilônia), construído em 1800.
O nome da serra que abraça a cidade vem dos Pireneus europeus, a cadeia de montanhas entre França e Espanha. Em 1941, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário se tornou o primeiro monumento tombado pelo IPHAN em todo o Centro-Oeste, segundo o registro da Prefeitura de Pirenópolis. Em 1988, o conjunto arquitetônico inteiro recebeu o tombamento federal. A igreja sofreu um incêndio devastador em 2002, foi restaurada e permanece como a maior construção religiosa de Goiás, com obras iniciadas entre 1728 e 1732.
O que fazer entre cachoeiras e ruas coloniais
Pirenópolis concentra natureza e história a poucos passos de distância. A Prefeitura de Pirenópolis lista dezenas de experiências, mas algumas atrações ficam a menos de 15 minutos do centro e merecem destaque:
- Cachoeira do Abade: queda de 12 metros cercada por paredões de pedra, a 12 km da cidade. Acesso pela estrada dos Pireneus.
- Santuário Vaga Fogo: reserva privada com trilha leve entre mata de galeria e nascentes cristalinas, a 6 km do centro.
- Cidade de Pedra: formações rochosas no cerrado que lembram ruas e construções, paisagem única no estado.
- Pico dos Pireneus: a 1.385 m de altitude, com ermida dedicada à Santíssima Trindade e vista panorâmica da serra.
- Centro histórico: ruas de pedra quartzítica, casarões do século XVIII, o Teatro de Pirenópolis (1899) e o Museu das Cavalhadas.
Quem busca o destino mais completo de Goiás, vai curtir esse vídeo do canal Rolê Família, que conta com mais de 104 mil visualizações, onde Bruno mostra um roteiro de 5 dias em Pirenópolis:
Quando o clima favorece cada tipo de passeio
O cerrado goiano tem estação seca bem definida. As cachoeiras ficam mais cheias entre dezembro e março, enquanto o inverno seco favorece trilhas e eventos culturais. Confira o que cada período oferece:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à cidade onde o cerrado encontra o barroco
Pirenópolis fica a 120 km de Goiânia pela GO-431 e a 150 km de Brasília pela BR-070. O acesso é por estrada asfaltada, com tempo médio de 1h30 a partir das duas capitais. Não há aeroporto na cidade, mas os aeroportos de Goiânia e Brasília oferecem voos de todo o país.
Vá ouvir os fogos de alvorada e pisar nas pedras que contam 300 anos
Pirenópolis é daqueles lugares que entregam muito mais do que a paisagem promete. As ruas de quartzito guardam o primeiro jornal do Centro-Oeste, uma batalha medieval viva há quase 200 anos e a memória de uma mulher que fundou uma república no cerrado. Tudo isso entre cachoeiras, cerrado e a hospitalidade goiana que não se encontra em guia nenhum.
Você precisa chegar pela GO-431 no fim de tarde, quando o sol bate nas fachadas coloniais e o Rio das Almas ainda reflete a Serra dos Pireneus, e entender por que essa cidade nunca parou no tempo.




