Nas ruas de Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha, moradores mais velhos ainda se cumprimentam em Hunsrückisch, um dialeto germânico que sobreviveu a quase dois séculos longe da Europa e a uma proibição formal do governo brasileiro. A cidade de cerca de 21 mil habitantes coleciona títulos que não cabem no seu tamanho: Capital Nacional do Cooperativismo, Jardim da Serra Gaúcha e sede de mais de 50 grupos de canto coral.
O padre suíço que fundou o cooperativismo de crédito brasileiro
Em 28 de dezembro de 1902, vinte colonos se reuniram no salão de bailes de Nicolau Kehl, na comunidade de Linha Imperial, a 8 km do centro de Nova Petrópolis. O encontro quase não aconteceu. A primeira tentativa foi cancelada porque um vendaval derrubou o pavilhão da Sociedade Tiro ao Alvo, onde os estatutos seriam discutidos. A segunda foi adiada pela morte da esposa de um dos organizadores.
Na terceira tentativa, o padre jesuíta suíço Theodor Amstad conseguiu aprovar os estatutos da Caixa de Economia e Empréstimos Amstad, inspirada no modelo de Friedrich Wilhelm Raiffeisen. Era a primeira cooperativa de crédito da América Latina, criada para dar acesso a empréstimos a agricultores que não tinham garantias a oferecer aos bancos. A instituição funciona até hoje sob o nome de Sicredi Pioneira RS. Em 2010, uma lei federal reconheceu Nova Petrópolis como Capital Nacional do Cooperativismo. Em 2019, a Lei Federal 13.926 oficializou Amstad como patrono do cooperativismo brasileiro, conforme registra a Prefeitura de Nova Petrópolis.

O alemão que nenhuma lei conseguiu silenciar
Os imigrantes que chegaram a partir de 1858 vinham principalmente da Pomerânia, Saxônia, Boêmia e da região do Hunsrück, no sudoeste da Alemanha. Trouxeram um dialeto oral, sem forma escrita padronizada, que serviu como língua franca entre grupos étnicos distintos. Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, na década de 1930, o uso de idiomas estrangeiros foi proibido em espaços públicos. As atas da cooperativa, até então redigidas em alemão, passaram a ser escritas em português já durante a Primeira Guerra Mundial.
Mesmo assim, o Hunsrückisch resistiu nas casas, igrejas e festas comunitárias. Em 2012, foi reconhecido como patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Sul. Escolas do município oferecem aulas de alemão desde a educação infantil. A professora Célia Heylmann, idealizadora do Memorial do Hunsrück em Linha Imperial, se refere ao dialeto infantil como Schatz-Deutsch, algo como “alemão tesouro”. Mais de 50 corais e dez grupos de danças folclóricas mantêm viva a tradição musical trazida pelos colonizadores, segundo a Secretaria de Turismo de Nova Petrópolis.
Quem busca por qualidade de vida e cultura alemã, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Novas Fronteiras, que conta com mais de 87 mil visualizações, onde Rafael Escapela mostra as belezas e curiosidades de Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul:
Um campo de futebol transformado em labirinto de ciprestes
O cartão-postal mais fotografado da cidade nasceu de uma quadra esportiva abandonada. No final dos anos 1980, o imigrante alemão Hans Hesse sugeriu transformar o terreno em um labirinto de cercas vivas, inspirado no Park Schönbusch, em Aschaffenburg, cidade onde cresceu na Alemanha. Com apoio da prefeitura e do arquiteto Lauro Alberto Schuch, o Labirinto Verde foi inaugurado em 1989 na Praça das Flores.
No início, adultos ficavam tão frustrados por não encontrar o centro que crianças da cidade desenharam mapas para ajudá-los. Em 2011, o percurso foi refeito com o plantio de mais de 1.700 mudas de ciprestes. Hoje o labirinto tem 28 metros de diâmetro e paredes verdes com mais de 2 metros de altura. A entrada é gratuita, conforme informa a Secretaria de Turismo. A praça onde ele está, oficialmente chamada Praça da República, foi rebatizada pelos moradores por causa dos canteiros floridos que colorem o centro durante as quatro estações.

A colônia que homenageia Dom Pedro II sem que ele tenha pisado ali
O nome Nova Petrópolis foi uma dupla homenagem: ao imperador Dom Pedro II e à cidade fluminense de Petrópolis, refúgio de verão da corte. A colônia foi fundada em 7 de setembro de 1858, logo após o fim da Revolução Farroupilha, quando o Rio Grande do Sul retomou os projetos de imigração interrompidos por dez anos de conflito. Coube ao agrimensor argentino José Maria Vidal medir e dividir as terras em lotes de cerca de 50 hectares, dispostos ao longo de linhas e picadas com núcleos de apoio a cada 10 km.
Os colonos não trouxeram apenas sementes e ferramentas. Em 1910, sem esperar pelo governo, implantaram uma rede telefônica própria que interligava todos os núcleos coloniais às duas centrais. Durante a Revolução Federalista, na década de 1890, organizaram uma força paramilitar de atiradores nos moldes dos Schützen alemães para se defender de bandoleiros. Esse espírito de autossuficiência comunitária alimentou o cooperativismo que viria a definir a cidade no século seguinte, segundo o site oficial do município.

Ouça o Hunsrückisch antes que ele se transforme apenas em patrimônio
Nova Petrópolis reúne num raio de poucos quilômetros a origem do cooperativismo de crédito latino-americano, um dialeto germânico vivo que resistiu a guerras e proibições, e uma tradição coral que supera, em número de grupos por habitante, cidades muitas vezes maiores. O labirinto de ciprestes no centro é só a camada mais visível de uma cidade construída pela teimosia coletiva de imigrantes que precisaram inventar tudo do zero.
Você precisa subir a Rota Romântica, ouvir o Hunsrückisch nas ruas e entender por que essa cidade de 21 mil habitantes carrega tantos títulos nacionais.




