As ruas são de pedra, as paredes são de pedra e a montanha que sustenta tudo tem quase dois bilhões de anos. São Tomé das Letras, no sul de Minas Gerais, repousa a 1.440 metros de altitude sobre um imenso depósito de quartzito e coleciona lendas que ninguém conseguiu explicar por completo.
Uma carta impossível que fundou uma cidade inteira
No final do século XVIII, o escravo João Antão fugiu da fazenda do capitão João Francisco Junqueira e se refugiou em uma gruta no topo da serra. A tradição oral conta que ali apareceu um senhor de vestes brancas, que lhe entregou uma carta destinada ao antigo dono. Junqueira ficou perplexo: João Antão era analfabeto e jamais poderia ter escrito aquelas linhas. Ao visitar a gruta, encontrou apenas uma imagem de São Tomé.
O escravo recebeu a alforria. O capitão mandou erguer uma ermida ao lado da caverna, e ali nasceu o povoado. Na entrada da gruta, inscrições rupestres atribuídas aos antigos cataguases completam o nome: “das Letras”. A Prefeitura de São Tomé das Letras registra essa lenda como marco fundador da cidade.

A pedra que sustenta casas e movimenta milhões
O quartzito sob a Cidade Mística se formou há cerca de 1,7 bilhão de anos por processos de metamorfismo. A rocha possui baixa condutividade térmica, superfície antiderrapante e alta resistência à abrasão, o que a tornou um material valorizado na construção civil. A exploração comercial começou na década de 1940, quando um geólogo constatou que o topo da montanha era um depósito de fácil extração.
Em julho de 2024, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu à Pedra São Thomé o registro de Denominação de Origem, a 125ª Indicação Geográfica do país. Segundo a Associação de Mineradores da Pedra São Thomé (AMIST), o quartzito movimentou cerca de US$ 7,8 milhões no mercado exterior em 2024. Pesquisadores da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) conduziram os estudos técnicos que comprovaram a singularidade da rocha.
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Paredes sem argamassa e patrimônio tombado desde o século XX
No centro histórico, casas e muros são montados com lascas de quartzito empilhadas sem uso de argamassa. O encaixe por sobreposição lembra técnicas de construção medieval e se mantém firme há gerações. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, erguida por escravizados no século XVIII com a mesma técnica, foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) em 1985.
Onze anos depois, em 1996, o IEPHA tombou o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Centro Histórico, incluindo a Igreja Matriz de 1785, com retábulos rococó e pinturas de Joaquim José da Natividade. O tombamento inscreveu São Tomé em quatro livros oficiais: arqueológico, belas artes, histórico e artes aplicadas.
Carros que sobem ladeira com o motor desligado
A 4 km do centro, a Ladeira do Amendoim desafia os olhos de quem chega. Ao desligar o motor e soltar o freio de mão, o carro parece rolar para cima. O fenômeno atrai curiosos desde a década de 1980 e rendeu milhões de visualizações nas redes sociais.
A ciência já desvendou o truque. O engenheiro cartógrafo Plínio Temba, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mediu a inclinação da via e confirmou que o trecho é um declive disfarçado. Trata-se de um fenômeno chamado “gravity hill”: a ausência de um horizonte claro e a inclinação das árvores ao redor enganam o cérebro, que interpreta a descida como subida. São Tomé das Letras, porém, é a única “ladeira gravitacional” instalada sobre uma montanha de quartzito cercada por grutas milenares, o que torna a experiência ainda mais singular.

Misticismo de altitude e ufologia de interior
A Cidade Mística carrega essa fama há décadas. Moradores e turistas relatam avistamentos de luzes no céu desde os anos 1980, e a cidade sedia encontros anuais de ufologia organizados por pesquisadores locais. A Gruta do Carimbado, a 6 km do centro, alimenta a lenda mais célebre: seus túneis de quartzito levariam até Machu Picchu, no Peru, a quase 4 mil km de distância. Ninguém jamais chegou ao fundo da caverna.
Para seguidores de correntes esotéricas, a cidade seria um dos sete pontos energéticos do planeta. Essa crença, sem respaldo científico, atraiu comunidades alternativas e a Sociedade Brasileira de Eubiose, instalada ali no início do século XX. Ciência ou não, o misticismo moldou a identidade da cidade e transformou o turismo em uma segunda força econômica ao lado da mineração.
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Onde a pedra guarda o que o tempo não apaga
São Tomé das Letras é um lugar que resiste a definições simples. A mesma rocha que sustenta as casas reveste piscinas em outros continentes, e a mesma gruta que originou a lenda fundadora alimenta histórias de portais e visitantes do espaço. Tudo convive no mesmo topo de serra, entre paredes de quartzito e um céu que escurece como poucos no interior de Minas.
Você precisa subir a serra, sentar na Pirâmide ao entardecer e deixar o pôr do sol mostrar por que tanta gente sobe essa montanha e demora para descer.




