Os indígenas a chamavam de Guanaani, a Ilha do Mel. Hoje, Vitória é uma capital erguida sobre aterros, batalhas e camadas de história que poucos brasileiros conhecem. Terceira capital mais antiga do Brasil, a cidade capixaba guarda segredos que vão muito além das praias.
A capital que nasceu de uma derrota indígena
Em 1535, o donatário Vasco Fernandes Coutinho desembarcou aos pés do Morro da Penha e fundou a Vila do Espírito Santo, atual Vila Velha. Ataques constantes de indígenas, franceses e holandeses forçaram os portugueses a buscar refúgio numa ilha próxima. Em 8 de setembro de 1551, após vencerem os goitacases em combate, batizaram o local de Vila da Vitória.
O nome celebra uma conquista militar. A Prefeitura de Vitória registra que os indígenas chamavam a ilha de Guanaani, referência às águas calmas da baía e ao manguezal repleto de vida. Com a fundação, Vitória se tornou a terceira capital mais antiga do país, atrás apenas de Recife (1537) e Salvador (1549).

Uma cidade que engoliu suas próprias ilhas
O território de Vitória já reuniu cerca de 50 ilhas. Ao longo dos séculos, sucessivos aterros foram incorporando ilhas menores à ilha principal. Bairros como Ilha do Príncipe, Ilha de Santa Maria e Ilha de Monte Belo mantêm o nome original, mas perderam a condição insular há décadas.
Segundo a Prefeitura, o município é hoje um arquipélago de 33 ilhas e uma porção continental, com 93,38 km² de área total. Sete pontes conectam a Ilha de Vitória ao continente. A mais conhecida, a Terceira Ponte, liga a capital a Vila Velha e se tornou um dos cartões-postais do Espírito Santo. Foi sobre esses aterros que surgiram as avenidas largas, o porto e os bairros que deram à cidade sua forma atual.

O palácio de quase 5 séculos que ainda governa o estado
No topo da Cidade Alta, o Palácio Anchieta ocupa 7 mil metros quadrados e mais de 130 cômodos. A construção começou em 1570 como igreja e colégio jesuíta. O padre José de Anchieta concluiu a primeira ala em 1587 e ali viveu seus últimos anos. Seu túmulo simbólico permanece no local.
Com a expulsão dos jesuítas em 1759, o complexo virou sede da administração colonial. De lá para cá, nunca deixou de abrigar o governo. O Governo do Espírito Santo classifica o Palácio como uma das mais antigas sedes governamentais em funcionamento no país. Restaurado entre 2004 e 2009, o edifício abriga achados arqueológicos do século XVI, um poço jesuítico original e exposições abertas ao público.
Quem deseja conhecer as surpresas de Vitória e Vila Velha, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Tesouros do Brasil, que conta com mais de 124 mil visualizações, onde João Vitor mostra um roteiro histórico e gastronômico pelo Espírito Santo:
O primeiro patrimônio imaterial registrado no Brasil
No bairro de Goiabeiras Velha, à beira do manguezal, mulheres modelam panelas de barro com técnicas herdadas de povos indígenas. A argila é extraída do meio natural, moldada à mão, seca ao sol, queimada a céu aberto e impermeabilizada com tintura de tanino retirada do mangue-vermelho.
Em 20 de dezembro de 2002, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) inscreveu o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras no Livro de Registro dos Saberes. Foi o primeiro bem cultural registrado como Patrimônio Imaterial do Brasil. A tradição, passada de mãe para filha, sustenta ao menos 86 famílias e produz as panelas sem as quais a moqueca capixaba simplesmente não existe.
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Conheça a Ilha do Mel que virou metrópole
Vitória é uma capital que se reinventou sobre seus próprios aterros sem apagar as marcas de origem. O colégio jesuíta virou palácio de governo, as ilhas viraram bairros e o barro do mangue se transformou no primeiro patrimônio imaterial de um país inteiro.
Você precisa atravessar uma das sete pontes e pisar na ilha capixaba para entender como uma cidade tão compacta consegue guardar quase cinco séculos de história viva.




