O chão que se pisa na Chapada dos Veadeiros já existia antes de qualquer forma de vida surgir na Terra. No nordeste de Goiás, entre cânions de 300 metros e centenas de cachoeiras, um pedaço de Cerrado de altitude guarda a geologia mais antiga do continente, uma comunidade quilombola de 262 mil hectares e um parque nacional que quase desapareceu do mapa.
Por que não existem fósseis na Chapada dos Veadeiros?
As formações geológicas da região pertencem ao chamado Supergrupo Veadeiros, com idades que variam entre 650 milhões e 2,1 bilhões de anos. Quando essas rochas se formaram, a vida multicelular simplesmente não existia. Não há fósseis porque não havia o que fossilizar. Esse período, anterior à explosão de vida no planeta, é classificado como pré-Cambriano.
O encontro tectônico entre os grupos geológicos Araí, Traíras, Paranoá e Bambuí moldou serras, vales e cânions ao longo de bilhões de anos. A abundância de quartzito, com suas estratificações cruzadas e marcas de onda de maré, é visível até em trilhas curtas. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), as altitudes variam de 600 a 1.650 metros e os cânions alcançam 300 metros de altura.

O parque que perdeu 90% do território e depois ressuscitou
Em 1961, o presidente Juscelino Kubitschek criou o Parque Nacional do Tocantins com 625 mil hectares, abrangendo toda a Chapada. A história que se seguiu foi de encolhimento. Em 1972, uma comissão do Ministério da Agricultura reduziu a área para 171 mil hectares, alegando prejuízo à agropecuária. Em 1981, novo corte: restaram 65 mil hectares, cerca de 10% do tamanho original, para dar passagem à rodovia GO-239.
O parque ficou assim por décadas. Em 2001, uma tentativa de ampliação foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por falhas no processo de consulta pública. Somente em junho de 2017, no Dia Mundial do Meio Ambiente, o governo federal assinou o decreto que expandiu a área para 240 mil hectares, conforme reportou a Agência Brasil. A ampliação passou a proteger 466 nascentes e 32 espécies de fauna ameaçadas de extinção.
O maior quilombo do Brasil fica ao norte do parque
O Território Quilombola Kalunga se estende por 262 mil hectares entre os municípios de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás. Cerca de 9 mil pessoas vivem ali, distribuídas em 39 comunidades que mantêm 83% do Cerrado nativo preservado. A história começou no século XVIII, quando escravizados fugiam para os vãos entre as montanhas e fundavam comunidades isoladas.
O contato mais amplo com o restante do país veio apenas em 1982, quando antropólogos alertaram sobre uma usina hidrelétrica no Rio Paranã que desalojaria centenas de famílias. O projeto foi cancelado, e o território acabou reconhecido como Sítio Histórico e Patrimônio Cultural. Em 2021, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu o Kalunga como o primeiro TICCA do Brasil, ou seja, território conservado por comunidades locais, segundo informações da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).

A expedição que mapeou a futura capital atravessou a Chapada
Em 1892, a Comissão Exploradora do Planalto Central, comandada pelo astrônomo belga Luís Cruls, cruzou a região da Chapada dos Veadeiros para delimitar a área que receberia a nova capital do país. A missão traçou o chamado Quadrilátero Cruls, referência que orientou, décadas depois, a construção de Brasília.
Antes de Cruls, os primeiros a chegar foram os bandeirantes da Bandeira do Anhanguera, por volta de 1730, em busca de ouro. Os escravizados que os acompanhavam fugiam para os vales e formavam quilombos. Em 1926, a célebre Coluna Prestes também passou pela Chapada. Esses cruzamentos históricos ajudam a explicar por que o nome “Veadeiros” não vem do animal, mas dos cães que farejavam veados na antiga fazenda que deu origem à região.

1.476 espécies de plantas e o Cerrado mais alto do país
O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros protege um Cerrado de altitude com diversidade rara. De acordo com o IPHAN, foram identificadas 1.476 espécies de plantas dentro do parque, de um total de 6.429 catalogadas no bioma. Cinquenta espécies de fauna são classificadas como raras, endêmicas ou ameaçadas de extinção, incluindo onça-pintada, lobo-guará, tatu-canastra e o raríssimo pato-mergulhão, que vive nos trechos encachoeirados do Rio Preto.
O parque funciona também como divisor de águas entre as bacias dos rios Paraná e Maranhão, este último afluente do Rio Tocantins e, portanto, parte da bacia Amazônica. Rios e córregos formam os saltos de 80 e 120 metros do Rio Preto, cartão-postal da Chapada, além de dezenas de cachoeiras espalhadas por fazendas e comunidades no entorno. Gerido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o parque foi declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO em 2001.
Quem busca o guia definitivo para a Chapada dos Veadeiros, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 109 mil inscritos, onde Bruno mostra um roteiro épico por Goiás, incluindo as águas cristalinas de Cavalcante e Alto Paraíso:
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Caminhe sobre o solo mais antigo do continente
A Chapada dos Veadeiros reúne o que poucos destinos no mundo conseguem: geologia bilionária, cultura quilombola viva, biodiversidade protegida por selo da UNESCO e um parque que sobreviveu a décadas de tentativas de encolhimento. Tudo isso a cerca de 230 km de Brasília, no Cerrado mais alto do Brasil.
Você precisa calçar a bota, encarar a trilha e deixar que a Chapada mostre por que esse pedaço de Goiás merece ser chamado de patrimônio do planeta.




