A 19 km de Belo Horizonte, no vale onde o ribeirão Sabará deságua no Rio das Velhas, uma cidade de ruas estreitas esconde pinturas com influência chinesa dentro de uma igreja do século XVIII. Sabará nasceu do ouro, abrigou a maior comarca de Minas Gerais no período colonial e hoje atrai visitantes com um acervo barroco que rivaliza com o de Ouro Preto, mas sem as multidões.
A montanha que resplandece e o ouro que fundou a vila
O nome vem do tupi “Sabarabuçu”, que significa “montanha grande que resplandece”, numa referência à Serra da Piedade. Foram os bandeirantes Fernão Dias e Borba Gato que, no fim do século XVII, encontraram ouro nas margens do Rio das Velhas e iniciaram o povoamento. Em 1711, o arraial foi elevado a Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará.
A riqueza era tamanha que a Comarca do Rio das Velhas, sediada em Sabará, tinha jurisdição que alcançava os limites de Goiás, Pernambuco e Bahia. A Coroa Portuguesa instalou ali uma Casa de Fundição para cobrar impostos sobre cada grama de ouro extraído. Em 1838, o lugar ganhou oficialmente o título de cidade.

Por que a Igreja do Ó tem pinturas de influência chinesa?
A Igreja de Nossa Senhora do Ó, de 1717, é pequena por fora e estonteante por dentro. O interior é revestido de talha dourada sobre fundo vermelho, com painéis azuis que imitam laca chinesa. Essas “chinesices” teriam sido pintadas por Jacinto Ribeiro, citado em documento de 1721 como natural da Índia. O estilo chegou a Minas provavelmente via Macau, então colônia portuguesa.
O templo foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1938 e é considerado um dos exemplares mais requintados da primeira fase do barroco brasileiro. A agência espanhola Civitatis incluiu a igreja entre as dez mais bonitas do Brasil.

O que visitar no centro histórico e nos arredores?
Sabará concentra seu patrimônio em um centro compacto, percorrível a pé. As atrações vão de igrejas com obra de Aleijadinho a chafarizes coloniais e um teatro do início do século XIX:
- Igreja de Nossa Senhora do Carmo (1763): possui portal esculpido por Aleijadinho e talha rococó. Tombada pelo IPHAN.
- Museu do Ouro: instalado na antiga Casa de Intendência e Fundição, guarda peças de garimpo e mobiliário luso-brasileiro dos séculos XVIII e XIX.
- Teatro Municipal (1819): segundo mais antigo do Brasil em funcionamento, com arquitetura de influência elisabetana.
- Chafariz do Kaquende: segundo a lenda local, quem bebe de sua água sempre retorna a Sabará.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário (1768): construída por escravos, nunca foi concluída. As paredes de pedra sem reboco são um testemunho da decadência do ouro.
- Solar do Padre Correia (1773): casarão com escadaria de jacarandá que já hospedou Dom Pedro I e Dom Pedro II. Hoje abriga secretarias municipais.
Quem aprecia o charme das cidades históricas mineiras, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 83 mil visualizações, onde Tati Marmon mostra as igrejas centenárias e a tradição da jabuticaba em Sabará:
Jabuticaba no IPTU e ora-pro-nóbis no prato
Sabará tem 129.380 habitantes segundo o Censo 2022 do IBGE e IDH de 0,731. A economia local tem dois pilares além do turismo. A ArcelorMittal, cuja unidade de Sabará é a mais antiga do grupo no Brasil, opera desde 1921, quando a Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira foi fundada na cidade. Em 1925, a usina se tornou a primeira siderúrgica integrada da América do Sul.
O outro pilar é a jabuticaba. A fruta é Patrimônio Imaterial e Cultural do município, e moradores recebem até 5% de desconto no IPTU por cada pé de jabuticabeira plantado no quintal, com limite de 25%. O Festival da Jabuticaba, realizado em novembro desde 1987, reúne cerca de 100 mil visitantes em quatro dias de gastronomia e música no centro histórico. Em maio, o bairro Pompéu celebra o Festival do Ora-pro-nóbis, com pratos típicos feitos à base da planta nutritiva.
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Quando o clima favorece o passeio pelo centro colonial?
O clima de Sabará é tropical, semelhante ao de BH, com verões quentes e chuvosos e invernos secos. A tabela resume as condições por estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à cidade histórica mais perto da capital?
Sabará fica a apenas 19 km do centro de Belo Horizonte, cerca de 30 minutos pela MG-262. Linhas de ônibus metropolitano partem do terminal Venda Nova e de outros pontos da capital. Quem vem de fora de Minas pode desembarcar no Aeroporto de Confins, a 45 km, e seguir pela MG-010.
Conheça a vila onde o ouro virou arte
Sabará é uma cidade que cabe numa tarde, mas pede ao menos um dia inteiro para ser sentida. Cada igreja revela uma fase diferente do barroco mineiro, cada chafariz tem uma lenda, e cada novembro a jabuticaba transforma as praças em festa.
Você precisa cruzar o vale do Rio das Velhas e conhecer Sabará, a cidade onde santos de olhos puxados provam que o ouro de Minas sempre brilhou com um toque de Oriente.




