O motorista desliga o motor, solta o freio de mão e o carro começa a se mover. Para cima. Pelo menos é o que os olhos juram ver na Ladeira do Amendoim, estrada de terra a 4 km do centro de São Thomé das Letras, no sul de Minas Gerais. O fenômeno atrai curiosos desde a década de 1980, e a ciência já explicou o truque, mas o encanto continua intacto.
O que a física diz sobre carros que desafiam a gravidade?
A Ladeira do Amendoim é o que pesquisadores chamam de “gravity hill”, ou ladeira gravitacional. Trata-se de uma ilusão de óptica macroscópica: o terreno ao redor engana o cérebro, que interpreta um suave declive como se fosse um aclive. O carro, na verdade, desce. A gravidade continua funcionando como sempre.
O engenheiro cartógrafo Plínio Temba, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mediu a inclinação da via e confirmou que o trecho é um declive, não uma subida. Já o professor Renato Las Casas, do Departamento de Física da mesma universidade, descartou a teoria do campo magnético local: se houvesse magnetismo forte o bastante para mover um veículo, bússolas e outros instrumentos seriam afetados, o que não acontece. A ausência de um horizonte claro na paisagem e a inclinação das árvores e do terreno circundante completam a receita da ilusão.

Por que São Thomé das Letras amplifica o mistério?
São Thomé das Letras não é qualquer cidade mineira. Com 7 mil habitantes e construída a 1.440 metros de altitude sobre um imenso depósito de quartzito do Neoproterozoico, a cidade carrega fama de lugar sobrenatural desde que um escravo fugido chamado João Antão supostamente encontrou uma imagem de São Tomé dentro de uma gruta no final do século XVIII. A lenda diz que ele recebeu uma carta escrita com caligrafia perfeita, algo impossível para um homem analfabeto. A história lhe rendeu a alforria e deu nome à cidade.
Esse passado alimenta teorias que vão de campos magnéticos a portais interdimensionais. Moradores mais antigos afirmam que a Ladeira do Amendoim fica sobre uma gruta que, segundo a crença esotérica, seria caminho subterrâneo até Machu Picchu, no Peru. Relatos de luzes no céu noturno e a presença da Sociedade Brasileira de Eubiose na cidade desde o início do século XX reforçam a atmosfera mística. Para o visitante que chega já esperando o inexplicável, a ladeira entrega exatamente o que ele procura.
Quem se interessa por mistérios e fenômenos inexplicáveis, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Mundo Proibido, que conta com mais de 253 mil visualizações, onde é explorada a mística cidade de São Thomé das Letras, em Minas Gerais, revelando lendas sobre OVNIs, portais para Machu Picchu e figuras como Chico Taquara:
Como funciona o “ritual” da ladeira?
O acesso parte do centro de São Thomé pela estrada asfaltada em direção a Três Corações, por 4 km. Depois, um trecho de 2 km em estrada de terra e pedras leva ao ponto exato. A sinalização é escassa, com apenas uma placa indicativa. Ao chegar, o procedimento é simples: posicionar o veículo no ponto marcado, engatar ponto morto, soltar o freio e observar. O carro se desloca por mais de 10 metros na direção que os olhos interpretam como “para cima”.
Objetos não metálicos reforçam que não há magnetismo envolvido. Garrafas d’água, bolas de plástico e até líquidos derramados no asfalto seguem a mesma direção dos carros. A experiência de andar de costas no trecho intensifica a confusão sensorial: o corpo registra que está descendo, mas os olhos insistem no contrário. Próximo à ladeira, dois blocos de quartzito com diferença de altura atraem quem busca sensações energéticas. Os guias locais garantem que uma pedra “carrega” e a outra “descarrega” o corpo.

Um fenômeno que não é exclusivo mas é único no cenário
Ladeiras gravitacionais existem em dezenas de países. A Rua do Amendoim, em Belo Horizonte (oficialmente Rua Professor Otávio Magalhães, no bairro Mangabeiras), é outro caso famoso em Minas. No exterior, a Spook Hill na Flórida e o Magnetic Hill na Índia repetem o mesmo princípio. Um estudo de 2003 sobre percepção visual confirmou que, sem a referência de um horizonte verdadeiro, o cérebro humano erra com facilidade ao avaliar a inclinação de terrenos.
O que diferencia a Ladeira do Amendoim é o cenário. Nenhuma dessas “irmãs gravitacionais” fica em uma cidade de quartzito a 1.440 metros de altitude, cercada por grutas milenares e lendas de civilizações subterrâneas. O centro histórico de São Thomé das Letras foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) em 1996. As casas de pedra empilhada sem argamassa, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (tombada em 1985) e a Gruta de São Thomé com suas inscrições rupestres transformam a visita à ladeira em apenas uma parada dentro de um roteiro muito maior.
A ladeira que engana os olhos e conquista o viajante
A Ladeira do Amendoim é um lembrete de que a percepção humana nem sempre conta a verdade. Não importa quantas explicações científicas existam: o carro vai parecer subir, os olhos vão insistir no impossível e o sorriso vai aparecer mesmo assim.
Se você estiver no sul de Minas, desvie até São Thomé das Letras, solte o freio na ladeira e deixe seus olhos discordarem do que a física já provou, porque poucas experiências são tão divertidas quanto ser enganado pela própria paisagem.




