Os pescadores do Campeche não conseguiam pronunciar o nome do piloto francês que pousava na praia. Chamaram-no de Zé Perri. O piloto era Antoine de Saint-Exupéry, e a avenida principal do bairro leva o nome do seu livro mais famoso. Florianópolis coleciona histórias assim, entre dunas, fortalezas e fazendas marinhas na Ilha de Santa Catarina.
Como um piloto francês virou lenda no sul da ilha
Entre 1929 e 1931, aviões da companhia francesa Aéropostale faziam escala no campo de pouso do Campeche a caminho de Buenos Aires. Saint-Exupéry abastecia, pegava encomendas do correio e, quando o tempo fechava, pernoitava no casarão dos pilotos. Fez amizade com o pescador Rafael Manoel Inácio, o Seu Deca, que lhe ensinou a pescar corvina nos costões do sul da ilha.
A memória ficou. O bairro tem a Avenida Pequeno Príncipe, a Rua da Aviação Francesa e o casarão onde dormiam os pilotos, tombado pelo município. Em 2021, um filme rodado na praia do Campeche recriou essa passagem com avião cenográfico em tamanho real.

A ilha que virou capital por causa de uma ponte
No início do século XX, deputados catarinenses queriam mudar a capital para Lages, no interior. A ilha parecia isolada demais. O governador Hercílio Luz respondeu com uma ponte. Inaugurada em 1926, a Ponte Hercílio Luz tem 821 metros e é a maior ponte pênsil do Brasil. Seu sistema de barras de olhal é o último do tipo ainda de pé no mundo.
A ponte ficou 28 anos interditada por problemas estruturais e foi reaberta em dezembro de 2019. Nos fins de semana, carros não circulam e ela se transforma em parque a céu aberto, com vista das baías norte e sul.
O que torna Floripa referência em qualidade de vida?
O IDHM de 0,847 coloca Florianópolis como a capital com maior desenvolvimento humano do país, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A escolarização entre 6 e 14 anos passa de 98%. No IPS Brasil 2025, a cidade aparece entre as oito capitais mais bem colocadas, com nota 67,91.
Parte desse resultado vem da presença da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que atrai pesquisadores e alimenta um circuito de empresas de tecnologia. A outra parte vem do mar: a maricultura gera cerca de 1.500 empregos diretos e movimenta comunidades inteiras no Ribeirão da Ilha e em Santo Antônio de Lisboa.

De onde vêm as ostras que o Brasil inteiro consome?
Das baías norte e sul da ilha. Santa Catarina responde por cerca de 95% da produção nacional de moluscos, e Florianópolis concentra a maior fatia, segundo dados da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural (Epagri). A história começou em 1983, quando o professor Carlos Rogério Poli trouxe as primeiras sementes de ostras do Pacífico para o laboratório da UFSC.
Quatro décadas depois, famílias inteiras vivem do cultivo. A Fenaostra, festival anual dedicado ao molusco, já comercializa cerca de 30 mil dúzias em uma única edição. Foi essa relação com o mar que rendeu a Florianópolis o título de Cidade Criativa da Gastronomia pela UNESCO, em 2 de dezembro de 2014, a primeira cidade brasileira a receber a chancela.

Ostras, tainha e a herança açoriana no prato
A culinária nasce do encontro entre a herança açoriana, os saberes indígenas carijós e o que o mar entrega a cada estação. Alguns pratos definem a identidade da ilha.
- Ostras frescas: servidas cruas, gratinadas ou ao vinagrete nos restaurantes do Ribeirão da Ilha e da Costa da Lagoa.
- Sequência de camarão: o crustáceo preparado de várias formas em uma mesma refeição, tradição dos restaurantes do norte da ilha.
- Tainha: entre julho e agosto, a pesca artesanal move comunidades inteiras. O peixe aparece frito, assado e defumado.
- Bolinho de berbigão: petisco açoriano feito com o pequeno molusco das praias da ilha, presença certa nos bares do centro histórico.
O que visitar além das praias na capital catarinense?
Florianópolis tem mais de 40 praias, mas a ilha reserva atrações que dispensam areia e protetor solar.
- Ponte Hercílio Luz e Parque da Luz: caminhada sobre a maior ponte pênsil do país, com mirante panorâmico na cabeceira insular.
- Lagoa da Conceição: centro de esportes náuticos, restaurantes e vida noturna, cercada por dunas e morros.
- Ilha do Campeche: acesso só de barco, com inscrições rupestres e limite de 800 visitantes por dia, controlado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
- Santo Antônio de Lisboa: vilarejo açoriano com casarios coloniais, feiras de artesanato e restaurantes de frutos do mar à beira da baía.
- Fortaleza de São José da Ponta Grossa: construção portuguesa do século XVIII na Praia do Forte, acessível a pé.
Quem planeja passar quatro dias em Florianópolis, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Foco na Viagem, que conta com mais de 88 mil visualizações, onde a apresentadora mostra um roteiro completo pela Ilha da Magia:
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima subtropical traz estações bem marcadas. O vento sul, chamado de “suli” pelos nativos, derruba a temperatura e muda o humor da ilha em poucas horas.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Ilha da Magia?
O Aeroporto Internacional Hercílio Luz (FLN) recebe voos diretos de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba e Porto Alegre. De carro, Floripa fica a 300 km de Curitiba pela BR-101 e a 460 km de Porto Alegre pela mesma rodovia. Ônibus intermunicipais chegam ao Terminal Rodoviário Rita Maria, no centro.
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A ilha que merece mais do que uma temporada
Florianópolis mistura ostras cultivadas no mar, lendas de bruxas açorianas, uma ponte centenária e o rastro de um piloto francês que virou “Zé Perri”. É raro encontrar uma capital brasileira onde o IDH mais alto do país convive com fazendas marinhas e trilhas que terminam em inscrições rupestres.
Você precisa conhecer Floripa fora do verão, quando a ilha respira mais devagar e revela o que nenhum roteiro de temporada consegue mostrar.




