Imagine um animal tão pequeno e delicado que caberia na palma da sua mão, mas com uma habilidade que desafia tudo o que sabemos sobre envelhecer: em vez de simplesmente morrer, ele pode voltar a ser “bebê” e recomeçar a vida. É isso que torna a água-viva Turritopsis dohrnii um dos seres mais curiosos já estudados pela ciência, misturando mistério, esperança e muitas perguntas sobre o futuro da medicina.
O que é a chamada imortalidade biológica da Turritopsis dohrnii
Diferentemente da maioria dos animais, essa pequena água-viva consegue, em situações extremas, retornar a um estágio mais jovem do seu ciclo de vida. Quando sofre estresse intenso, como lesões, falta de alimento ou sinais de envelhecimento, ela pode “voltar atrás” em vez de seguir rumo à morte.
Esse fenômeno não a torna indestrutível, mas oferece um modelo único para entender regeneração celular e longevidade. A partir de observações em laboratório, cientistas perceberam que indivíduos adultos podiam reverter à fase de pólipo, espécie de fase “bebê” do animal, o que fez a espécie ficar conhecida como “água-viva imortal”.
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Por que a água-viva imortal chamou tanta atenção na ciência
Depois que essa reversão foi confirmada em laboratório, a Turritopsis dohrnii passou a ser estudada em diferentes países. Pesquisadores da genética, da biologia do desenvolvimento e da medicina regenerativa enxergam nela uma chance rara de observar um organismo “recomeçando” várias vezes.
A ideia de um animal que foge do envelhecimento natural despertou também o interesse do público em geral, alimentando documentários, reportagens e até histórias de ficção científica. Mesmo assim, os cientistas reforçam: ela não é mágica, mas um ponto fora da curva dentro do que já conhecemos sobre a vida marinha.
Como funciona a imortalidade biológica na prática
Imortalidade biológica, nesse contexto, não significa viver para sempre sem nenhum risco. No caso da água-viva Turritopsis dohrnii, o termo descreve a capacidade de evitar a morte por envelhecimento, retornando a um estágio juvenil quando submetida a certas condições de estresse.
Ela passa por dois estágios principais: o pólipo, que fica fixo em rochas ou conchas, e a medusa, forma livre que reconhecemos como “água-viva”. Enquanto a maioria das espécies segue do pólipo ao adulto sem volta, a água-viva imortal consegue fazer o caminho inverso, da medusa ao pólipo, em um processo chamado transdiferenciação.
Como a água-viva imortal volta à fase de pólipo
Quando a Turritopsis dohrnii passa por uma lesão grave, fome prolongada ou mudança brusca na água, como queda de temperatura, entra em “modo de sobrevivência”. Em vez de simplesmente parar de funcionar, o corpo começa a se reorganizar: a medusa adulta encolhe, perde mobilidade e forma uma massa gelatinosa que se prende a uma superfície dura.
Nessa etapa, algumas células especializadas mudam de função, num processo de transdiferenciação celular. Tecidos da campânula, dos tentáculos e de outras regiões se reorganizam e dão origem a um novo pólipo, jovem e funcional, capaz de formar colônias e gerar novas medusas, repetindo esse ciclo várias vezes ao longo da vida.
Para você que gosta de curiosidades, separamos um vídeo do canal Incrivelmente Animal aprofundando mais sobre esse animal:
Quais mecanismos chamam mais atenção nos estudos recentes
À medida que novas análises genômicas se tornam possíveis, os cientistas conseguem olhar com mais detalhes para o “manual interno” da Turritopsis dohrnii. Alguns processos aparecem com frequência e ajudam a explicar por que esse animal é tão diferente de outros seres multicelulares.
- Expressão diferenciada de genes ligados a estresse celular e reparo de DNA
- Uso de mecanismos parecidos com os de células-tronco, mesmo sem reprogramação completa
- Reorganização de tecidos complexos sem formação de tumores, algo raro em muitos modelos de regeneração
Quais são os limites reais da imortalidade dessa água-viva
Apesar do nome popular, a Turritopsis dohrnii continua vulnerável ao mundo ao seu redor. Predadores, infecções, poluição, mudanças extremas de temperatura e acidificação dos oceanos podem matá-la antes que consiga reverter ao estágio de pólipo. Assim, sua imortalidade é um potencial, não uma garantia.
Relatos de campo e estudos em laboratório mostram que a espécie enfrenta muitos obstáculos: peixes e outros animais marinhos se alimentam de medusas e pólipos, o estresse ambiental pode ser grande demais para iniciar a transdiferenciação, doenças e parasitas comprometem a estrutura celular e, em cativeiro, condições inadequadas reduzem as chances de reversão bem-sucedida.

