Imagine caminhar por um deserto silencioso e, de repente, se deparar com enormes pedras no chão seco, cada uma com um rastro comprido atrás de si, como se tivesse saído andando sozinha durante a noite. Nenhuma pegada, nenhum pneu, nenhum sinal de gente por perto. Foi exatamente essa cena que transformou as chamadas pedras que andam em um dos fenômenos mais curiosos e misteriosos do Vale da Morte, na Califórnia.
O que são as pedras que andam no Racetrack Playa
No Racetrack Playa, um antigo lago hoje totalmente seco, rochas de vários tamanhos espalhadas pela superfície deixam trilhas longas na argila dura e rachada. À primeira vista, parece que alguém empurrou cada pedra com força, mas não há nenhum indício de intervenção humana ou animal.
Essas pedras não se movem sempre, nem todos os anos. Elas deslizam em raros momentos, criando linhas retas ou curvas suaves que podem se estender por dezenas de metros. Cada trilha é como uma assinatura do caminho silencioso que a rocha percorreu, permitindo que pesquisadores analisem sua velocidade e direção ao longo do tempo.
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Como ocorre o fenômeno das pedras que andam
Hoje se sabe que o segredo está na combinação de água, gelo e vento. Em alguns dias de inverno, a chuva forma poças rasas sobre a planície de argila, que à noite podem congelar e prender as rochas em uma fina camada de gelo.
Quando o sol nasce, o gelo começa a rachar e se quebra em placas que ainda flutuam sobre a água. Ventos moderados empurram essas placas, que arrastam as pedras com pouca força, já que o solo encharcado fica bem escorregadio, permitindo um deslizamento lento, mas eficiente.
Por que as pedras que andam geraram tanto mistério
Durante décadas, ninguém conseguia flagrar o momento em que as pedras se moviam. As pessoas chegavam ao local, viam as marcas no solo e iam embora sem nenhuma explicação concreta, o que abriu espaço para teorias de todos os tipos, desde forças desconhecidas até interferências magnéticas.
O Vale da Morte é um lugar isolado, muito quente, com poucas chuvas e acesso difícil. Isso atrasou a instalação de câmeras e equipamentos de monitoramento contínuo. Só com GPS acoplado às rochas e filmagens permanentes, na década de 2010, foi possível registrar o movimento em tempo real e confirmar o papel do gelo e do vento.
Quais condições ambientais são necessárias para o fenômeno
Para que as pedras realmente “andem”, é preciso que a natureza siga uma espécie de roteiro bem específico. Não basta chover ou ventar: tudo precisa acontecer na ordem certa e com a intensidade adequada, o que explica por que o fenômeno é tão raro.
Veja os principais elementos que os cientistas identificaram como essenciais para que as pedras deslizem:
- Água rasa cobrindo a superfície de argila da planície;
- Noites frias o bastante para formar uma fina camada de gelo;
- Aquecimento gradual ao amanhecer, quebrando o gelo em placas;
- Vento moderado, capaz de empurrar essas placas com as rochas;
- Solo liso e quase plano, reduzindo o atrito e facilitando o deslizamento.
Para você que gosta de misterios, separamos um vídeo do canal Por Que Isso? com fatos sobre o vale da morte e o que se sabe:
Onde mais o fenômeno das pedras que andam pode acontecer
Embora o Racetrack Playa seja o caso mais famoso, fenômenos parecidos já foram observados em outros leitos de lago seco, principalmente em regiões desérticas dos Estados Unidos e de alguns outros países. Em geral, esses locais têm clima árido, chuvas ocasionais e invernos que permitem a formação de gelo fino.
Isso não significa que qualquer planície seca com pedras vai apresentar trilhas tão nítidas. A textura do solo, a espessura do gelo e a força do vento variam bastante. Em alguns lugares, marcas no chão podem ser causadas por lama em movimento ou erosão, e não por pedras deslizando sobre gelo.
O que o fenômeno das pedras que andam revela sobre o ambiente
As trilhas deixadas pelas pedras são como um diário silencioso do clima local. Elas registram momentos raros em que chuva, frio e vento atuaram juntos em uma região conhecida justamente pela secura e pelo calor extremos.
Ao explicar as pedras que andam com base em processos simples e naturais, a ciência mostra como eventos aparentemente “misteriosos” podem ser entendidos com paciência, observação e tecnologia. Em vez de magia, encontramos uma história fascinante sobre como o gelo e o vento conseguem mover até mesmo rochas em um dos lugares mais inóspitos do planeta.




