Com cerca de 46 mil qanats escavados manualmente ao longo de três milênios e até 350 mil km de galerias movidas apenas pela gravidade, o Irã transformou o deserto em território produtivo. Hoje, porém, enfrenta uma crise hídrica agravada pela superexploração moderna.
Como os qanats transformaram o deserto em área habitável?
Em regiões com menos de 50 mm de chuva por ano e ausência de rios permanentes, o sistema de qanats captava água subterrânea em áreas elevadas e a conduzia até povoados e plantações sem uso de bombas.
A lógica era simples e eficiente: respeitar a recarga natural do aquífero. A água fluía por diferença de altitude, reduzindo evaporação e garantindo abastecimento contínuo por séculos em cidades e zonas agrícolas.

Qual era a base técnica desse sistema subterrâneo?
A construção começava com o poço-mãe, que podia ultrapassar 300 metros de profundidade, como em Gonabad. A partir dele, escavava-se um túnel horizontal com inclinação precisa, evitando erosão ou estagnação da água, como detalhado abaixo.
- Inclinação controlada: variava entre 1:500 e 1:2.500 para manter fluxo estável.
- Poços de ventilação: abertos a cada 20 a 50 metros para manutenção e retirada de sedimentos.
- Trabalho especializado: executado por muqanis, profissionais que herdavam técnicas ao longo de gerações.
Qual foi a escala e o impacto dessa engenharia milenar?
As estimativas indicam que o comprimento total das galerias ultrapassa 250 mil km, podendo chegar a 350 mil km. O qanat de Gonabad, construído entre 700 e 500 a.C., possui cerca de 33 km e segue ativo após 2.700 anos.
Outros sistemas, como o Zarch Qanat em Yazd, com aproximadamente 71 km, demonstram a amplitude da rede. Tecnologias semelhantes se espalharam por mais de 34 países, consolidando o modelo como referência global em regiões áridas.

O que provocou a ruptura do equilíbrio hídrico?
A partir da década de 1960, a expansão de poços profundos e barragens impulsionados por bombas elétricas alterou a dinâmica tradicional. A extração passou a superar a reposição natural, rompendo o princípio autorregulado do sistema ancestral.
- Superexploração dos aquíferos: redução do fluxo em muitos qanats históricos.
- Abandono de estruturas: perda de manutenção e diminuição da eficiência hídrica.
- Impactos visíveis: secas prolongadas e colapsos ambientais, como a situação do Lago Urmia.
Qual é o desafio atual entre tradição e tecnologia?
Em 2016, 11 sistemas foram reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO, evidenciando seu valor técnico e cultural. Porém, o reconhecimento não resolve a falta de manutenção nem a fragmentação da gestão comunitária.
A crise atual expõe um dilema estratégico: combinar infraestrutura moderna com limites naturais de extração. A história dos qanats mostra que eficiência sem governança de longo prazo pode comprometer justamente o recurso que sustenta civilizações.




