Imagine caminhar por um jardim e descobrir que, debaixo da terra, pequenas formigas coordenam algo parecido com uma fazenda secreta. Em vez de só sair em busca de comida, algumas espécies organizam verdadeiros sistemas de produção dentro do formigueiro. Nesses espaços subterrâneos, o fungo cultivado vira a principal fonte de alimento da colônia, funcionando quase como uma “lavoura” interna que sustenta milhões de indivíduos.
O que é a agricultura de fungos praticada por formigas
A chamada agricultura de fungos das formigas é um sistema em que o inseto não consome diretamente o material vegetal que coleta. Esse material serve de base para o crescimento de um fungo específico, que é cuidadosamente cuidado e colhido pelas operárias como se fosse uma plantação em miniatura.
Ao longo de milhões de anos, fungo e formiga passaram por um processo de coevolução, no qual cada um se adaptou à presença do outro. Muitos desses fungos já não sobrevivem fora do ninho, e várias espécies de formigas dependem totalmente desse “jardim” para se alimentar, o que faz dessa parceria uma das formas mais antigas de domesticação da natureza.
Quais são as principais espécies de formigas que cultivam fungos
Entre as espécies mais conhecidas pela agricultura de fungos estão as formigas-cortadeiras, como saúvas e quenquéns, muito comuns em regiões tropicais. Elas retiram pedaços de folhas e flores e os carregam em impressionantes fileiras até o ninho, onde tudo será usado para alimentar o fungo simbionte.
Além das cortadeiras, diversas espécies da tribo Attini também mantêm esse tipo de cultivo, algumas lidando com fungos filamentosos e outras com leveduras microscópicas. Em ambientes tropicais, já foram registrados verdadeiros “jardins subterrâneos”, com câmaras interligadas reservadas ao fungo, ao lixo e ao cuidado das larvas.
- Formigas-cortadeiras (saúvas, quenquéns) associadas a grandes ninhos e intenso corte de folhas.
- Espécies da tribo Attini especializadas em fungicultura, com diferentes níveis de complexidade.
- Formigas cultivadoras de leveduras que trabalham com fungos microscópicos em pequenas estruturas.
- Espécies tropicais subterrâneas que mantêm câmaras profundas dedicadas ao cultivo fúngico.
Como funciona o jardim de fungos dentro do formigueiro
Dentro do ninho, o jardim de fungos ocupa câmaras específicas, mais protegidas do movimento intenso de formigas. As operárias depositam fragmentos de folhas mastigados, formando uma massa úmida que serve de “canteiro” para o fungo crescer, como um tapete vivo sendo constantemente aparado e renovado.
O trabalho inclui seleção de folhas, preparo do substrato, limpeza constante e controle de umidade e ventilação. Em troca, o fungo produz estruturas ricas em proteínas, açúcares e outros nutrientes, consumidas principalmente pelas larvas, mas também por muitos adultos, reduzindo a necessidade de buscar alimento fora todos os dias.
Para você que gosta de curiosidades, separamos um vídeo do canal Agência FAPESP com mais sobre as fazendas que as formigas cuidam:
Quais benefícios a agricultura de fungos traz para as colônias de formigas
A agricultura de fungos das formigas garante uma fonte de alimento mais previsível e estável ao longo do ano. Assim, a colônia não depende tanto de épocas de floração, frutos ou outras fontes sazonais, o que aumenta as chances de sobrevivência mesmo em períodos difíceis.
Além disso, o fungo ajuda a aproveitar folhas difíceis de digerir e pode reduzir toxinas presentes nas plantas. Essa forma de produção interna permite o crescimento de colônias enormes, com milhares ou milhões de indivíduos, sem esgotar rapidamente o ambiente ao redor, graças à organização e à divisão de tarefas entre as formigas.
O que a agricultura de fungos das formigas ensina à ciência moderna
O estudo da agricultura de fungos em formigas vem inspirando cientistas em áreas como ecologia, biotecnologia e microbiologia. Pesquisadores observam como esses insetos controlam pragas e doenças em seus jardins, mantendo um equilíbrio fino entre fungos úteis e microrganismos nocivos, muitas vezes com ajuda de bactérias que produzem substâncias parecidas com antibióticos naturais.
Esses mecanismos sugerem caminhos para práticas agrícolas humanas mais sustentáveis, com menos dependência de agrotóxicos e melhor manejo de resíduos e umidade. A parceria entre formigas, fungos e bactérias é um exemplo vivo de como a cooperação entre espécies pode sustentar sistemas complexos e eficientes por milhões de anos, tema que segue em destaque em estudos publicados até 2025.




