A chamada “fábrica escura” deixou de ser apenas conceito para se tornar parte do cenário industrial global. Em vez de linhas cheias de operários em turnos, surgem galpões quase totalmente automatizados, nos quais robôs assumem tarefas que antes exigiam presença constante de pessoas. Nesse modelo, a produção de eletrônicos, como smartphones premium, passa a ocorrer em regime contínuo, com menos paradas e maior previsibilidade de resultados, ao mesmo tempo em que se discutem impactos sobre empregos, competitividade e políticas públicas.
O que é uma fábrica escura e por que esse modelo importa para a indústria?
A expressão fábrica escura descreve instalações em que a produção pode seguir com as luzes apagadas, pois não há necessidade de iluminação e conforto pensados para pessoas em tempo integral. A automação cobre desde a chegada da matéria-prima até a embalagem, criando um ambiente em que robôs, esteiras inteligentes e sistemas de armazenamento automatizado coordenam o fluxo de insumos e produtos acabados.

No caso da Changping Smart Factory, o objetivo é escalar a fabricação de smartphones de alta gama, como os modelos dobráveis MIX Fold 4 e MIX Flip. Em plena capacidade, a planta foi projetada para entregar até 10 milhões de aparelhos por ano, o que se aproxima de um dispositivo por segundo, reduzindo o impacto de pausas de turno, férias ou variações de mão de obra e favorecendo uma produção mais linear e previsível.
Como funciona a automação na fábrica escura da Xiaomi
Quais impactos a fábrica escura provoca no emprego e na estrutura industrial?
O avanço de fábricas altamente automatizadas provoca mudanças na estrutura do mercado de trabalho industrial e na distribuição de valor nas cadeias produtivas. Na China, dados oficiais indicam redução da participação da indústria no PIB, de 30,3% para 29,1% entre 2013 e 2023, enquanto o setor de serviços cresceu de 38,4% para 48,1%, em um contexto que inclui automação intensiva e migração para atividades de maior valor agregado.
Em fábricas escuras, funções ligadas à operação direta de equipamentos são substituídas por atividades mais técnicas e analíticas, exigindo profissionais com novas competências e formação contínua. Entre as principais funções que ganham relevância estão:
- Programação e calibração de robôs;
- Gestão de dados e análise de desempenho das linhas;
- Manutenção avançada de sistemas automatizados;
- Desenvolvimento e integração de novos processos produtivos.
Ao mesmo tempo, a adoção desse modelo em outros países encontra barreiras relevantes, como custo inicial elevado, infraestrutura de robótica ainda limitada, escassez de profissionais especializados e desafios regulatórios e trabalhistas. Esses fatores fazem com que a transição para fábricas escuras dependa de estratégias nacionais de inovação, incentivos fiscais, capacitação técnica e marcos regulatórios que equilibrem competitividade e proteção social. Selecionamos um vídeo da Leila Navarro, que fala um pouco mais sobre essas fábricas escuras que estão tão em alta em território chinês.
A fábrica escura é uma tendência recente ou um movimento em consolidação na manufatura?
Os vídeos divulgados em 2026 deram visibilidade ao projeto da Xiaomi, mas o conceito de produção com luzes apagadas tem antecedentes importantes. A japonesa FANUC opera desde o início dos anos 2000 instalações capazes de funcionar semanas seguidas sem presença humana constante, produzindo milhares de robôs por mês, o que mostra um processo de longo prazo de automação do chão de fábrica.
O que se observa em 2025 é uma disputa crescente por escala e domínio tecnológico na manufatura avançada, em que fábricas escuras representam economia de custos, capacidade de manter ritmo sob pressão e maior resiliência em cadeias globais de suprimentos. A velocidade de expansão desse modelo, porém, dependerá da combinação entre investimento, qualificação profissional e políticas públicas, fazendo da experiência de Changping uma vitrine e um teste de fôlego para um padrão de produção que reposiciona países, empresas e trabalhadores diante da automação em larga escala.




