Por muitos anos, a Mesbla foi sinônimo de novidade no Brasil: lugar de passeio em família, vitrines cheias e aquele ar de “loja que tem tudo”. Hoje, sua história desperta curiosidade não só pela nostalgia dos carnês e comerciais na TV, mas também como exemplo de como uma gigante do varejo pode crescer, dominar o mercado e, mesmo assim, desaparecer por não acompanhar as mudanças do país e do comportamento de consumo.
Como a Mesbla surgiu e se transformou em marca conhecida?
A origem da Mesbla remete ao início do século XX, quando uma companhia francesa se instalou no centro do Rio de Janeiro focada em acessórios para automóveis, um produto de luxo na época. Aos poucos, a filial brasileira ganhou identidade própria, afastando-se da matriz e ampliando seu escopo de atuação.
O nome Mesbla nasceu da combinação de termos ligados à empresa-mãe, mas acabou ganhando vida própria no Brasil. Quando a operação deixou de ser apenas extensão estrangeira e passou a atuar como empresa independente, abriu caminho para um modelo de negócio voltado ao consumo do dia a dia, mais próximo da realidade urbana em transformação.
Entenda melhor essa história com o vídeo do Canal 90 que faz sucesso no YouTube:
Como a Mesbla se tornou a loja onde se encontrava de tudo?
Com o crescimento das cidades e da classe média urbana, a Mesbla adotou o formato de grande loja de departamentos. A proposta era concentrar, em um só endereço, produtos variados para diferentes perfis de clientes, reduzindo a necessidade de percorrer várias lojas pela cidade.
Nas décadas de 1970 e 1980, a rede viveu seu auge, com lojas de vários andares, áreas amplas e presença em diversas capitais. Entre roupas, eletrodomésticos, brinquedos, eletrônicos e até veículos, a sensação era de que “se não tinha na Mesbla, não tinha em lugar nenhum”, transformando a compra em passeio e programa em família.
Por que marketing e crediário foram tão importantes para a Mesbla?
A comunicação da Mesbla aproveitava a força da televisão, com comerciais em horários nobres, jingles fáceis de memorizar e campanhas com figuras conhecidas. Isso tornava a marca parte do cotidiano, reforçando a imagem de loja acessível e moderna, presente nos principais momentos de consumo das famílias.
O crediário próprio foi outro pilar fundamental, especialmente em um cenário em que o cartão de crédito ainda engatinhava. Esse sistema não apenas facilitava o acesso a bens duráveis, como também criava vínculos emocionais duradouros com a marca, por meio de experiências recorrentes de compra e pagamento.
- Entrada facilitada: aumentava as chances de aprovação e de compra de produtos de maior valor.
- Parcelas previsíveis: ajudavam as famílias a planejar gastos mensais com mais segurança.
- Primeiras conquistas: muitos eletrodomésticos e móveis importantes eram adquiridos no carnê.
- Presença constante: a ida mensal à loja para pagar reforçava a lembrança da marca.

Como as mudanças econômicas e de mercado afetaram a Mesbla?
A entrada nos anos 1990 trouxe hiperinflação, sucessivos planos econômicos e um ambiente de forte incerteza. Paralelamente, surgiram concorrentes mais enxutos e especializados, além da migração acelerada do consumo para shopping centers, onde a Mesbla não tinha presença dominante.
Com muitas lojas de rua e estruturas antigas, os custos fixos ficaram pesados diante do novo varejo mais eficiente. A estratégia de estocar grandes volumes para se proteger da inflação virou um problema na estabilização da moeda, transformando mercadorias em capital parado e pressionando ainda mais as finanças.
Quais foram os erros finais da Mesbla e qual é o legado da marca hoje?
Além do cenário econômico desfavorável, a Mesbla tinha uma gestão pesada, lenta para responder à concorrência e às novas formas de pagamento. Mesmo com fechamento de lojas e cortes de pessoal, o endividamento cresceu, a confiança de fornecedores diminuiu e, após tentativas frustradas de recuperação, a falência foi decretada em 1999, deixando um rastro de processos e frustrações.
O legado da Mesbla, porém, permanece vivo na memória afetiva de quem a frequentou e nas lições para o varejo atual: nenhuma marca é grande demais para cair se não se reinventa. Se você se interessa por histórias de empresas que marcaram época, aproveite agora para explorar outras trajetórias do varejo brasileiro e refletir sobre como suas próprias escolhas de consumo estão moldando as próximas gigantes — antes que essas histórias se repitam.




