Uma viagem solo em meio a uma crise pessoal pode até parecer fuga, mas muitas vezes é o ponto de virada. Foi assim com Flor, uma jovem argentina de Helvecia, cidade às margens do rio San Javier, em Santa Fé. Ao trocar o escritório pelo litoral da Bahia, ela encontrou o mar, novas culturas, um amor improvável e uma forma de viver entre dois países, idiomas e jeitos diferentes de enxergar o mundo.
Como uma viagem solitária pode virar ponto de virada na vida
Em 2017, Flor começou a sentir tudo desmoronar por dentro e encarou uma crise existencial profunda. Largou o emprego estável, vendeu quase tudo e apostou em uma temporada na praia, levando economias modestas, muitas dúvidas e uma urgência: mudar de rumo.
O ritmo baiano, o surfe, a vida ao ar livre e a espiritualidade ligada ao mar abriram espaço para uma reconstrução interna. Entre terapia, caminhadas na areia e chamadas de vídeo com a família às margens do rio em Helvecia, ela ressignificou o que é sucesso e percebeu que estabilidade também pode existir fora dos moldes tradicionais.

Como uma história de amor pode nascer em viagem
O ponto central dessa trajetória é um amor que surgiu em viagem e precisou atravessar fronteiras para continuar existindo. Em 2 de fevereiro de 2018, durante as celebrações de Yemanjá, Flor conheceu Henrique, amigo de sua xará, em uma noite de lua cheia refletida no mar.
O primeiro encontro aconteceu em uma festa popular dedicada a Yemanjá, com tambores, oferendas e um mar de cenário de filme. Ela, argentina em busca de mudança; ele, baiano ligado ao mar e ao esporte. A química apareceu na água salgada, em um misto de português, espanhol e gestos, com cara de amor de verão, mas cheio de dúvidas sobre futuro e distância.
É possível recomeçar um amor à distância depois de anos
Com a pandemia e o retorno à rotina de escritório, a memória da vida à beira-mar ganhou novo peso. A sensação de que seu lugar era mais perto das ondas do que dos prédios impulsionou a decisão de voltar ao Brasil, agora em um estilo de vida remoto, minimalista e mais alinhado com seus valores.
O reencontro com o antigo amor aconteceu por acaso em um aeroporto chuvoso, enquanto ela esperava familiares. A relação, congelada no tempo, ganhou nova chance e exigiu ajustes concretos para se transformar em projeto de vida em comum, envolvendo rotina, trabalho e comunicação.
Para mostrar como esse recomeço se estruturou na prática, alguns movimentos foram decisivos na consolidação da relação entre dois países:
- Reencontro inesperado em um espaço de trânsito, sem qualquer combinação prévia.
- Adaptação de rotina com a mudança dele de cidade para viver ao lado dela.
- Comunicação híbrida em “portuñol”, somada a expressões corporais e códigos próprios.
- Escolhas de trabalho reorganizadas para permitir mobilidade, renda e presença no relacionamento.
Como um amor entre países pode se transformar em família
Quando a vida parecia estabilizada entre praia, trabalho remoto e treinos, sintomas físicos levaram a um teste de gravidez. Após um primeiro exame negativo, a confirmação da gestação virou chave e reorganizou tudo: orçamento, planos de mobilidade e rotas entre Bahia, Helvecia e outras cidades.

A escolha de onde ter o bebê levou em conta estrutura de saúde, apoio emocional e perspectivas futuras. A gestação em outro idioma escancarou desafios, como falta de escuta e intervenções pouco explicadas, amenizados pela presença de Henrique, o suporte de uma doula e a rede de amigos e família que acompanhava tudo por chamadas de vídeo do rio San Javier.
O que significa viver um amor entre fronteiras e decidir o próximo passo
Com o nascimento da filha, o antigo romance de praia virou uma família que transita entre dois países. A menina cresce ouvindo português e espanhol, circulando entre o litoral brasileiro e o interior argentino, aprendendo desde cedo que pertencimento pode ser múltiplo e que afeto também é um lugar onde se mora.
Entre rituais para Yemanjá, aeroportos, mudanças de cidade e o vento do rio, aquele encontro improvável sob a lua cheia se tornou um projeto de vida. Se você sente o chamado para mudar de rota, não adie: hoje é o dia de planejar a viagem, o curso, a mudança ou a conversa que você vem empurrando. O tempo não para; a próxima decisão corajosa que você tomar agora pode ser justamente o começo da história que você sempre quis viver.




