Uma nova cultivar do capim braquiária, utilizado para alimentação do gado nas pastagens, foi lançada em parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto). A BRS Carinás é a primeira cultivar da espécie Brachiaria decumbens desenvolvida no Brasil, e é indicada para o bioma Cerrado e para sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP).
Até então, a Basilisk (também conhecida como Braquiarinha) era a única cultivar da espécie Brachiaria decumbens (renomeada como Urochloa decumbens) disponível no mercado brasileiro. Registrada na Austrália, ela foi trazida para o Brasil na década de 1960. “Seu plantio extensivo no Cerrado brasileiro durante a década de 1970 e a baixa resistência a cigarrinhas-das-pastagens restringiram seu uso às áreas de baixa ocorrência desses insetos”, explica Sanzio Barrios, pesquisador da Embrapa Gado de Corte e responsável pelo desenvolvimento da nova cultivar.
Ainda assim, de acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a Basilisk está entre as cinco cultivares de braquiária com as maiores áreas de multiplicação de sementes no Brasil, motivo que valida o lançamento da BRS Carinás como uma evolução. A nova cultivar não exige um solo muito fértil e até tolera solos ácidos e pobres em fósforo. Por este motivo, de acordo com Sanzio, trata-se de uma excelente alternativa para diversificar áreas hoje ocupadas pela Basilisk.
Um dos destaques da nova cultivar é a alta produção de forragem, que chega a até 16,2 toneladas de matéria seca por hectare, com alta produtividade de folhas, consideradas o componente de maior valor nutritivo da planta. Em comparação com a Basilisk, a BRS Carinás produz 18% a mais de forragem por ano. No período chuvoso, a produtividade de forragem é 19% superior à da Braquiarinha, e o ganho em produtividade de folhas é de 32%.
Já no período seco, após o cultivo estratégico no fim do verão em uma área reservada para que o capim cresça sem ser pastejado (vedação), a nova cultivar brasileira oferece 40% a mais de massa de forragem em relação à Basilisk, sendo que a maior parte (53%) é de material vivo (folhas e hastes). A informação é de Allan Kardec Ramos, pesquisador da Embrapa Cerrados.
Segundo o pesquisador Gustavo Braga, da mesma Embrapa Cerrados, onde foram feitos testes de desempenho em bovinos de corte, a nova cultivar permite aumentar o número de animais na mesma área de pastagem em cerca de 12% quando comparado com a Braquiarinha, utilizando o mesmo manejo, elevando o ganho de peso por hectare. Também foi registrado um ganho de 12% de peso vivo por área quando comparada à Basilisk, o que significa a produção de mais quilos de carne.
No entanto, como a Basilisk, a nova cultivar da Embrapa demonstrou baixa resistência a cigarrinhas (Notozulia entreriana, Deois flavopicta e as do gênero Mahanarva), que são pragas de pastagens que podem diminuir drasticamente a disponibilidade e a qualidade de gramíneas forrageiras, além de doenças fúngicas e virais comuns no campo.
Apesar da nova cultivar não ser resistente às cigarrinhas, Sanzio garante que existem estratégias de controle desta praga, como o manejo de pastejo até uma altura que não favoreça a multiplicação do inseto, o controle biológico por meio da pulverização com um fungo ou o controle químico.
SISTEMAS INTEGRADOS
A indicação da BRS Carinás para o pastejo na entressafra em sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) foi sugerida porque a cultivar não competiu com a cultura anual em testes realizados em consórcio com o milho. “A cultivar não interferiu na produtividade da cultura anual e se estabeleceu adequadamente numa taxa de semeadura de quatro quilos de sementes puras viáveis por hectare”, explica Roberto Guimarães Júnior, pesquisador da Embrapa, se referindo à quantidade de sementes distribuídas por área durante o plantio.
Na entressafra, a nova cultivar brasileira apresentou elevada produtividade de forragem, chegando a ser 70% superior à Brachiaria ruziziensis, espécie comumente utilizada em sistemas integrados. Segundo Roberto, isso resulta em mais forragem para o pastejo, maior produtividade animal na área e melhor cobertura do solo, o que favorece um manejo conservacionista. Outra vantagem é a sua velocidade de rebrotação, tendo acumulado quatro toneladas de massa seca de forragem em apenas 60 dias, no início do período chuvoso.
Os pesquisadores ainda ressaltam o grande potencial da BRS Carinás em produzir forragem para uso como palhada no plantio direto, que é a camada de restos vegetais (folhas, caules, raízes) deixada sobre o solo após a colheita, cobertura capaz de proteger o solo contra a erosão, reter a umidade, reciclar nutrientes, regular a temperatura do solo e controlar plantas daninhas.
Testes realizados em consórcio com a soja mostraram que cerca de 80% da palhada é decomposta em 120 dias. Com a ciclagem de nutrientes desse material, o solo ganha o equivalente a 100kg de uréia, 40kg de superfosfato simples e 80kg de cloreto de potássio, o que representa importante economia para o pecuarista com fertilizantes.
“Acreditamos que a nova cultivar desenvolvida pela Embrapa e Unipasto atenderá à demanda crescente por uma produção agropecuária mais sustentável e eficiente, uma vez que ela é capaz de elevar a produtividade animal e diversificar as pastagens em áreas de solos fracos e ácidos no Brasil”, finaliza Sanzio Barrios.
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Para o pesquisador, a BRS Carinás reúne condições para que, em um futuro próximo, seja recomendada para outros biomas brasileiros e países da América Latina onde existem sistemas pastoris baseados na Brachiaria decumbens. As sementes da nova cultivar estarão disponíveis no início do segundo semestre para os associados da Unipasto.
