A Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas) lança hoje o livro “A reforma do Estado brasileiro”, que reúne o conhecimento produzido a partir do projeto de seminários permanentes homônimo à publicação. No calor do lançamento, Cledorvino Belini, presidente da ACMinas, detalhou, em entrevista ao programa EM Minas - parceria entre a TV Alterosa, o Estado de Minas e o Portal Uai - o que chamou de “pensamento empresarial de Minas Gerais” sobre a necessidade de repensar o país.


O convidado do EM Minas também falou sobre o aprendizado de sua passagem como presidente da Fiat e da Fiat Chrysler Automobiles América Latina (FCA). Além de comparar a gestão de uma empresa de mercado com uma empresa pública de capital aberto, referindo-se à sua passagem à frente da Cemig, Belini deu suas impressões sobre temas atuais, como o fim da escala 6x1.

Quais têm sido suas prioridades à frente da ACMinas?
Assumi a presidência no início de 2025. Nesse período, tivemos dois projetos muito importantes. Um é o próprio turnaround financeiro da ACMinas, e o segundo foi um projeto que temos trabalhado desde a presidência do José Anchieta da Silva (seu antecessor), que é a reforma do Estado brasileiro. Foi um projeto muito ambicioso, conseguimos executá-lo ouvindo cerca de 38 autoridades - entre políticos, professores e cientistas - para formar a ideia do pensamento empresarial de Minas Gerais sobre a reforma do Estado brasileiro.

Esse trabalho está registrado no livro. O que envolve essa pesquisa?
Essa pesquisa foi muito ampla, mas, resumindo, tem quatro temas importantíssimos para o Brasil. O primeiro é a educação, que está muito ruim. As crianças saem da escola com um índice de analfabetismo funcional muito grande. É preciso reformular totalmente o ensino, sendo que o ponto mais importante é endereçar o segundo grau para o ensino técnico. O Brasil perde essa oportunidade, faltam técnicos e sobram universitários. Toda a falta de mão de obra que nós estamos sofrendo no Brasil passa justamente pela falta do fortalecimento na base da pirâmide das crianças. O segundo ponto é a segurança pública. O Brasil tem cerca de 20 mortes por 100 mil habitantes, enquanto o Japão tem menos de uma, são 0,2 mortes por 100 mil habitantes. Na Finlândia é uma por 100 mil habitantes, enquanto nos Estados Unidos são seis. Estamos muito longe dessa realidade. Esse é um ponto que o Brasil precisa atacar com penas mais duras, com recuperação dos presos e não deixá-los amontoados para depois voltar para a sociedade e cometerem novos crimes. Participo de um projeto muito interessante, das Apacs (Associações de Proteção e Assistência aos Condenados), que recupera 95% dos que estão lá cumprindo a restrição de liberdade. Custa um terço da prisão comum, porque lá eles têm que fazer a arrumação, a limpeza, a comida, eles plantam. É um regime que foi para frente só em Minas, que tem 50 das 60 Apacs do país. O Brasil tem que aproveitar o benchmark dos melhores cases para, realmente, avançar na recuperação. O terceiro tema é a reforma tributária e o sistema econômico brasileiro. Esse projeto que está em andamento não é uma reforma, é uma transferência tributária. Vai tirar de um lado e passar para o outro lado da sociedade. Vai causar, inclusive, inflação em alguns setores, porque o sistema brasileiro não acompanha a evolução do mundo. O mundo mais desenvolvido tributa a renda. O Brasil insiste em tributar o consumo. E o quarto é a economia. A economia brasileira engatinha o tempo todo, e, se quisermos fazer uma boa redistribuição de renda, é preciso fazer o crescimento econômico. Um PIB (Produto Interno Bruto) robusto puxa toda a sociedade, que se entusiasma e adere e cria alternativas importantes, em vez de fazer somente a transferência de renda.


Quais são os planos da ACMinas depois do lançamento do livro?
A próxima etapa vai ser o debate, seja com o Legislativo, seja com o Executivo e também com o Judiciário. Vai ser um debate profundo sobre esse trabalho, sobre os reflexos. É muito importante para mostrar que o Brasil tem jeito, e mudar os rumos depende das pessoas consertando poucas coisas.


E qual é a chance disso, de fato, sair do papel?
A chance é a sociedade votar bem. Tudo depende do que os candidatos apresentam, o que eles propõem e realmente fazem.

O senhor ficou muitos anos à frente da Fiat. Essa sua trajetória foi importante para estar hoje à frente da ACMinas?

Durante os últimos 12 anos em que estive na Fiat, participei do board mundial, o que me permitiu conhecer todos os países que compram carros. É um mundo diferente, mas uma coisa comum são as relações institucionais. Na ACMinas, somos muito fortes na questão das relações institucionais, no desenvolvimento de projetos que a sociedade precisa e quer. Temos 22 conselhos técnicos, de Saúde, de Educação, diversos. Temos cerca de 400 pessoas voluntárias trabalhando nesses conselhos. É diferente de uma organização que tem que produzir três carros por minuto. É outro pique. Mas é um trabalho muito agradável, muito feliz. Você consegue contribuir para a sociedade e atrair investimentos para Minas Gerais.

Qual foi a decisão mais difícil que o senhor teve que tomar à frente da Fiat?
Todos os dias eu levantava de manhã com 9 milhões de problemas para resolver. O que eram esses 9 milhões? Eu tinha que produzir 3 mil carros por dia e cada carro era formado por 3 três mil peças. Multiplicando um pelo outro eram 9 milhões. Se faltasse um parafuso, não montava. Fora isso, a variabilidade da economia, juros um dia. Segurança jurídica era outro grande problema. Isso dificultava, mas conseguimos atrair investimentos. Criamos a fábrica da Jeep lá em Pernambuco. Foram grandes investimentos. Tivemos um espaço porque tínhamos a confiança do acionista e o acionista confiava no Brasil e no time que tinha aqui, que dava resultados.

O que o setor público pode aprender com o setor empresarial?
Muita coisa. Depois que eu saí da Fiat, fui presidente da Cemig. Levei um susto. O setor empresarial está penado o tempo todo, corre, decide. Se uma fábrica não está boa, fecha, resolve logo o problema. Na Cemig foi um susto. A morosidade, a complicação. Qualquer coisa, o Ministério Público entra. Se eu tiver que comprar um copo numa empresa privada, ele chega aqui em meia hora. No Estado, você tem que fazer o edital de concorrência, lançar no jornal, depois vêm as propostas e você decide qual vai fornecer o copo. Porém, o segundo colocado contesta. Conclusão: Passa-se oito, 10, 12 meses para decidir uma coisa tão simples. É um exemplo extremo, mas é uma realidade, tudo é cheio de leis. Na Cemig tinha tanto os regulamentos da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) como os do Estado. Aí é aquela coisa realmente muito difícil. Por isso eu sou a favor das privatizações, que tornam rápidas as decisões, tem menos gente para atrapalhar e mais agilidade no que precisa ser feito.

“As relações entre capital e trabalho têm que ser resolvidas entre os empresários e os trabalhadores.
Quando o Estado quer se intrometer, só atrapalha”

Como o fim da escala 6x1 pode impactar os trabalhadores e os empresários?
Primeiro que é a hora errada de tratar esse assunto. Ele está sendo tratado como um tema eleitoreiro. Deveria se fazer um projeto, dando um tempo para que os empresários possam se preparar. Com este projeto que está aí, primeiro, vamos ter aumento de custos. Segundo, vai inviabilizar muitos setores, porque as margens são estreitas e eles não vão conseguir operar todos os dias da semana. Terceiro ponto é que alguns países, como a Alemanha e a França, trataram desse tema com flexibilidade, para que os empresários pudessem absorver. Então, teremos aumento de custo, mais inflação, mais juros altos. Esse é o ciclo vicioso do Brasil.

Você acha que isso pode trazer um aumento na produtividade?
Devemos exatamente dar um tempo para aumentar a produtividade, porque senão é custo. E quem vai pagar é a sociedade, é o trabalhador.

O que trava o desenvolvimento e o crescimento do PIB brasileiro?
O que trava é a população, porque ela ainda não aprendeu a votar. Desculpe ser bem objetivo. Nós vivemos nesse ‘pibinho’, 1%, 2%, 2,5%, um país riquíssimo como nós somos. Um país que tem o melhor volume de água do mundo. Temos 5% das terras do mundo e 15% da água do mundo. Temos a melhor agricultura do mundo, alimentamos mais de um bilhão de bocas. Temos todos os minerais importantes na vida contemporânea, inclusive as terras raras, que hoje é o produto desejado pelo primeiro mundo. Mas, exportamos o quê? Minério bruto. Exportamos produtos agrícolas brutos, não transformamos, não agregamos valor, não colocamos tecnologia. Então, ficamos nesse ciclo das commodities e o país não cresce. Esse país precisa crescer no mínimo 5% ao ano para puxar toda a sociedade para crescer junto.

E qual é a importância do setor produtivo nesse crescimento econômico?
Fundamental. O Brasil tem atraído muitos investimentos. Mas, para quê? Para especular na Bolsa (de Valores). Olha o preço do dólar. Precisamos de investimento produtivo, que venha instalar fábricas, fazer tecnologia, instalar laboratórios, centros de pesquisa. É isso que faz um país crescer.

O Brasil tem um ambiente favorável para o empreendedorismo?
As condições que o Brasil oferece para o empreendedor são muito ruins. É o zigue-zague da economia e também a falta de segurança jurídica.

O Brasil tem potencial para ser uma potência econômica?
Oscilamos entre a oitava economia do mundo, 10ª e algumas vezes 12ª. Mas somos uma potência, temos uma riqueza tão grande. A Europa planta um eucalipto ou um pinheiro e demora 30 anos para crescer. Aqui, no Brasil, cresce em sete anos. Somos o único país do mundo que pode plantar para alimentação e para energia através do programa do álcool e ainda tem 80 milhões de hectares para serem explorados. Então, é uma riqueza muito grande, um povo maravilhoso, uma única língua. Não temos dificuldade de nos relacionar com qualquer religião, qualquer credo, ou seja, é um país amigável. O que falta é um plano rígido, um plano de desenvolvimento econômico forte, com atração de investimentos. E parar de dar mais benefícios, e sim baixar os juros, que é o que compromete a atração de investimentos.

O modelo do mercado de trabalho no Brasil hoje é eficiente ou precisa mudar?
Precisa de mais liberdade econômica. As relações entre capital e trabalho têm que ser resolvidas entre os empresários e os trabalhadores. Quando o Estado quer se intrometer, só atrapalha. São questões para serem resolvidas entre as partes.

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E como equilibrar nesse caso a produtividade e a qualidade de vida?
É simples: se você quer mais qualidade de vida, comece cedo a estudar, se preparar e se fortalecer. É preciso tirar a tutela do Estado e fazer com que as coisas aconteçam. O Estado tem que entregar o jovem com 15 anos bem formado, bem preparado, e não ser o 68º país do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). Se estamos em torno da décima economia do mundo, como é que vamos ser o 68º país do Pisa? Não tem cabimento. 

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