Fruta de Leite, Taiobeiras e Catuti – Ele se mudou para bem longe de casa. Com sacrifício de mais de uma década, conseguiu poupar para realizar um sonho, mas optou por voltar e semeá-lo no próprio lugar de origem. A história do agricultor Aurílio Pereira da Silva, de 51 anos, morador da zona rural de Fruta de Leite, município vizinho a Salinas, no Norte de Minas, ilustra um movimento nacional cuja segunda parte é mais recente, mas não passa despercebida aos olhos de estudiosos.


A partir da década de 1950, com a intensa urbanização e industrialização do Brasil, iniciou-se uma saída em massa de moradores de regiões mais carentes, como o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha, em busca de emprego e renda em lugares distantes. Mas, ultimamente, há cada vez mais sinais de retorno de ex-retirantes aos locais de origem, como mostra a série de reportagens “De volta para casa”, do Estado de Minas, que se encerra hoje.


Mas tornar esse movimento consistente e combater o êxodo rural são ações que dependem de investimentos em políticas públicas nas áreas menos desenvolvidas. A facilidade de acesso à terra também influencia. A avaliação é do professor José Irineu Rangel Rigotti, da Faculdade de Ciências Econômicas (Face) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que trabalha com a distribuição espacial da população, fluxos migratórios e demografia. O especialista salienta que muitos jovens deixaram localidades do interior na época de intensa urbanização e industrialização, tiveram filhos e constituíram famílias em outros locais, especialmente nos grandes centros urbanos.


“Como consequência, essas localidades do interior experimentaram um intenso processo de envelhecimento populacional e até mesmo diminuição do número de seus habitantes – um fato inédito, do ponto de vista histórico”, observa. Para ele, garantir a permanência das pessoas no local de nascimento ou a volta ao lugar de origem dependerá de condições de infraestrutura desses locais, acesso a serviços de saúde, educação, oferta de emprego, entre outros fatores.


“A manutenção das pessoas nessas áreas só será efetiva com condições de posse da terra para pequenos produtores e respeito ao contexto socioambiental, especialmente por parte dos grandes empreendimentos de commodities, que alteram totalmente as condições ambientais locais e muitas vezes expulsam populações tradicionais”, acrescenta Rigotti, que desenvolve projeto sobre perspectivas demográficas para o Brasil no horizonte de 2050.


Minha terra, minha vida

A importância do acesso à terra fica evidente na trajetória de outro ex-retirante do Norte de Minas que se deu bem ao voltar para casa. Delmar Cruz da Rocha, hoje com 43 anos, deixou aos 18 o lugar onde nasceu, na zona rural de Taiobeiras. Foi para a região de Mogi Guaçu e Campinas, em São Paulo, onde trabalhou como tratorista e em lavouras de tomate, pepino e berinjela.


Passados 18 anos em São Paulo, no fim de 2022 voltou para a zona rural Taiobeiras, onde começou a fazer plantio em uma área que herdou do pai, na Fazenda Manteiga. Hoje cultiva milho e feijão e também frutíferas como caju, goiaba, laranja e pitaia. O produtor cuida das culturas com a mulher, Marilene Barbosa de Almeida, de 42, que também é natural de Taiobeiras e migrou para o interior paulista, onde se casou com Delmar – o casal havia se conhecido no Norte de Minas.


“Voltamos para Taiobeiras para ficar mais perto da família e conquistar o que é nosso. Em São Paulo, a gente plantava de meeiro. O lucro era dividido, mas o patrão sempre ficava com mais. Aqui, a gente planta pouco, mas um pouco que é todo nosso”, enfatiza Marilene.


Movimento invertido

O professor José Irineu Rangel Rigotti explica que a condição de Minas Gerais como estado exportador de mão de obra começou a sofrer uma inflexão a partir da segunda metade dos anos 1980. “Nessa época de crise econômica e na década seguinte, observou-se uma expressiva migração de retorno para os estados de origem, e Minas Gerais foi destaque nesse tipo de movimento populacional. Ainda não temos os resultados completos do Censo Demográfico 2022, mas dados de 2010 confirmaram uma diminuição dos movimentos migratórios, que já vinha ocorrendo, especialmente aqueles de longa distância”, descreve.


O especialista ressalta que, embora ainda faltem dados populacionais mais recentes, já é possível perceber mudança no fluxo migratório, com pessoas procurando oportunidades de emprego em novas áreas, com destaque para aquelas com presença do agronegócio. Ele cita como bons exemplos desse movimento o Triangulo Mineiro e localidades do Oeste de Minas.

Correntes de migração
também pelo estado

O professor Tarcísio Rodrigues Botelho, do Departamento de História da UFMG, afirma que, embora Minas Gerais historicamente tenha se destacado pelo envio de pessoas para outros estados, existe também um processo de migração dentro do próprio território mineiro, com saída de moradores de regiões mais pobres, como o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha, em direção a áreas mais desenvolvidas, processo que contribuiu para o crescimento populacional de Belo Horizonte, por exemplo.


Embora ainda não tenha estudos sobre a “volta para casa” de ex-retirantes, o especialista avalia que a questão está relacionada à evolução patrimonial dos migrantes e à melhoria da infraestrutura dos locais de origem. “Creio que haja uma variação muito grande de motivações, entre as quais as econômicas. A questão envolve pessoas que acham que terão melhores condições de vida na sua cidade de origem depois de terem conseguido um patrimônio, uma estabilidade financeira”, opina Botelho.


Exemplo disso é a trajetória de Aurílio Pereira da Silva, que aparece no início desta reportagem. No ano de 2000, aos 26 anos, ele partiu do Norte de Minas para Araguari, no Triângulo Mineiro, à procura de emprego e renda. Lá, trabalhou em colheita de café, fazenda de gado e criação de peru. Em 2011, decidiu pegar o caminho de volta. Com o que ganhou na labuta longe de casa, comprou um pedaço de terra, de 34 hectares, na localidade de Água Fria, em Fruta de Leite.


“Sempre sonhei ter uma propriedade. Quando ganhei dinheiro que dava para comprar uma terrinha, voltei”, resume Aurílio, que é casado e pai de um filho. Hoje, ele planta em seu terreno hortas e lavouras de milho e feijão, conta com criação de frango caipira e tem ainda “um gadinho de leite”, como diz.


O agricultor familiar salienta que, além da água de uma pequena barragem na propriedade, a atividade foi viabilizada pelo acesso ao crédito, por intermédio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e pelo sistema Agroamigo, do Banco do Nordeste. “A minha primeira vaca foi comprada com o financiamento que recebi do banco, que está sempre me apoiando. Sem esse apoio é muito difícil sobreviver como pequeno produtor”, afirma.


Meia volta, cansei

O professor Geraldo Antônio Reis, do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), afirma que, historicamente, regiões como o Norte de Minas e os vales do Jequitinhonha e do Mucuri assistiram a grandes fluxos migratórios para outras partes do estado e do país, em virtude do atraso relativo, caracterizado por indicadores econômicos e sociais insatisfatórios. “Os migrantes dessas regiões sempre buscaram regiões mais prósperas, na expectativa de alcançarem condições mais dignas de vida”, acentua.


Mas ele salienta que, neste século, tem ocorrido uma “reversão dos fluxos migratórios, de tal modo que pessoas que migraram em décadas anteriores estão retornando ao seu local de origem”. E ele observa que fatores urbanos estão entre os muitos que contribuem para essa reversão. “Em primeiro lugar, cidades e regiões que outrora foram muito atraentes estão enfrentando problemas associados à saturação, com a chamada economia de escala”, diz o professor da Unimontes


Ele ressalta que as cidades, quando crescem, passam a contar com benefícios das chamadas economias de aglomeração, representados pelo aumento dos ganhos e da produtividade, porque as empresas e pessoas estão mais próximas. “Por exemplo, com o crescimento, fica mais fácil e eficiente ofertar serviços públicos como saneamento básico, energia, saúde e educação.”


Por outro lado, pontua Reis, o crescimento acelerado e desordenado das cidades provoca saturação crescente, ou “deseconomias de aglomeração”. “Isso se reflete diretamente na vida das pessoas e empresas, com sérios problemas de trânsito e mobilidade, de criminalidade e ambientais. Surgem pressões relacionadas ao saneamento, à energia, à saúde e à habitação. O custo da moradia aumenta consideravelmente, os tempos de deslocamento são longos, além de gastos crescentes com saúde e educação”, relata o economista, salientando que essas consequências do crescimento desordenado acabam contribuindo para que migrantes despertem interesse em retornar às origens.


Outro aspecto que influencia, destaca, é o investimento público na melhoria da qualidade de vida em pequenos municípios das regiões mais pobres. “Ainda que os municípios das regiões mais pobres enfrentem desafios quanto à oferta de serviços públicos, a melhoria dos serviços de educação, saúde, saneamento básico e energia – inclusive na zona rural – contribuiu para reverter parcialmente o fluxo migratório”, assinala.


“Último pau-de-arara”

Para Reis, essa reversão também pode estar sendo influenciada por fatores culturais e emocionais. “O cantor Fagner, na letra da música 'Último pau-de-arara”, nos alerta que 'Quem sai da terra natal/Em outros campos não para'. Muitos dos migrantes de outras décadas sempre alimentaram o sonho de retorno. E, aqui, há uma situação ambígua: existem os que colheram bons frutos da migração, melhorando consideravelmente sua situação econômica, permitindo, assim, o retorno para usufruírem, em sua terra, dos ganhos obtidos fora”, comenta o representante da Unimontes.

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Mas também, destaca, existem os que estão retornando em virtude das incertezas e dificuldades enfrentadas em cidades grandes crescentemente hostis. “São pessoas que podem estar sendo expulsas pelas condições de vida mais difíceis nas grandes cidades, entre elas a dificuldade de obtenção de emprego digno em um contexto de mercado de trabalho cada vez mais competitivo e precário”, conclui Geraldo Reis. 

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