MIGUEL MATOS
Fundador do portal jurídico “Migalhas”

O que o levou a criar o portal “Migalhas”? De onde veio a ideia do nome? Como foi o início em Ribeirão Preto?

Como quase tudo na internet no longínquo ano 2000 (!), o Migalhas nasceu sem plano de negócios, sem investidor e, o mais grave, sem qualquer noção de onde aquilo ia dar. Eu era recém-formado em Direito e tinha o hábito de acordar cedo, muito cedo, seguindo, com a ousadia da comparação, os passos de Rui Barbosa, que dizia dever às madrugadas tudo o que tinha conquistado. Num pequeno escritório em Ribeirão Preto, lia no computador os jornais de madrugada, horário em que a internet discada era rápida, e enviava notícias a alguns amigos. Esses amigos chamaram outros e, quando percebi, já havia uma pequena confraria matinal esperando aquelas mensagens. Resolvi organizar tudo num informativo. Nascia ali o Migalhas. Era a madrugada do dia 13 de novembro de 2000. O nome veio fácil: pequenas notícias, ou seja, migalhas, e ainda com uma pitada do meu próprio nome, MIGuel. Foi um estratagema para assinar o trabalho sem precisar colocar meu próprio nome.

O “Migalhas” completou 25 anos em novembro passado e, hoje, está plenamente consolidado como um dos principais portais jurídicos do Brasil. Quais os principais desafios durante essa caminhada?

Nos últimos 25 anos, o mundo talvez tenha mudado mais do que nos últimos cinco séculos. Com ele, a forma de informar. Acompanhar essa avalanche tecnológica exige algo raro: humildade para reaprender sempre. Mas o verdadeiro desafio não foi tecnológico, foi quase moral: manter constância. Comunicação não se faz com inspiração episódica, mas com disciplina cotidiana. Erramos, acertamos, corrigimos e seguimos. No fim das contas, mais difícil do que inovar é não desistir, o que, no Brasil, já é uma forma de heroísmo silencioso.

O “Migalhas” está inaugurando uma estrutura maior em Brasília, com uma sede ampla e extremamente bem estruturada. Considera que estar mais perto do centro do poder foi um diferencial no crescimento do grupo? Por quê? Quantos são os escritórios “Migalheiros” atualmente?

Brasília sempre esteve no radar do Migalhas. Afinal, é onde se decide muito do que, depois, vira tese jurídica, precedente e, às vezes, convenhamos, dor de cabeça. Com o protagonismo crescente do STJ e do STF, estar perto deixou de ser opção e virou necessidade. Ao mesmo tempo, mantemos a base em Ribeirão Preto, o que nos garante certa independência editorial e um pouco menos de barulho. Brasília, por sua vez, exige presença também por outra razão: hoje, o jurídico e o político dançam juntos, nem sempre em harmonia, mas sempre no mesmo salão. E, apesar da fama, ou má fama, há muita gente séria, trabalhando duro. Assim, nem tudo que acontece em Brasília cabe na caricatura que se faz.

Além do portal “Migalhas”, existem, também, a editora e a TV Migalhas. Quais os planos para todos esses produtos nos próximos anos?

A ideia é investir um pouco mais no olhar político. Na cobertura política, ainda há muita farinha e pouco pão. Predominam o factual raso, a espuma do dia e, não raro, a fofoca travestida de notícia. Falta contexto, falta explicação, falta profundidade. A ideia é fazer com a política o que o Migalhas fez com o Judiciário: traduzir, esclarecer e aproximar. O brasileiro já aprendeu a discutir decisões judiciais, às vezes até em boteco, o que é ótimo. Mas ainda conhece pouco quem faz as leis. E isso é curioso: as grandes mudanças passam pelo Legislativo, mas seus protagonistas seguem, em boa parte, anônimos. Não pretendemos ensinar ninguém a pensar, Deus nos livre dessa ousadia. A ideia é oferecer elementos para refletir melhor. E, quem sabe, cobrar melhor. O que, em política, já é quase revolucionário.

O senhor presidiu o Conselho de Comunicação Social do Senado, onde debateu muito sobre o uso da inteligência artificial, sempre defendendo que “tecnologia deve servir ao ser humano, e não o substituir”. Como o senhor enxerga a evolução da IA no Judiciário e no âmbito da advocacia? É um caminho sem volta? Muitos dizem que advogado(a) que não dominar a IA ficará para trás. É isso mesmo?

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A inteligência artificial é uma dessas invenções que assustam no início e, pouco depois, se tornam indispensáveis, como o e-mail, o celular e, para o mineiro, café e pão de queijo. Trata-se de uma ferramenta poderosa, criada por nós, humanos, e que tende a assumir tarefas repetitivas, liberando tempo para o que realmente importa: pensar. No Direito, já começa a ajudar tribunais a filtrar processos e organizar informações. Claro que haverá impacto no mercado. Sempre há. Mas a história mostra que a tecnologia não elimina o humano, ela o reposiciona. Quem não acompanhar ficará para trás. Quem souber usar ganhará uma vantagem considerável. No fundo, a inteligência artificial não substitui o advogado ou o juiz, apenas torna mais visível quem estava trabalhando no piloto automático. E, se a inteligência artificial é, paradoxalmente, algo humano, porque criada por nós, é bom lembrar o que dizia o dramaturgo romano: “nada do que é humano nos é estranho”. Assim, vivamos humanamente a inteligência artificial!

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