Décio Freire*

Os números divulgados pelo Banco Central sobre as contas das empresas estatais brasileiras acendem um sinal de alerta que não pode ser ignorado. Segundo o Boletim de Estatísticas Fiscais, as estatais federais fecharam o período de janeiro a julho de 2026 com resultado negativo de R$ 8,3 bilhões, o pior desempenho para o intervalo desde o início da série histórica da autoridade monetária, iniciada em 2002. O dado não é isolado: no primeiro semestre já havia sido apurado déficit de R$ 7,8 bilhões, também recorde para o período.

O que chama, ainda mais a atenção, é que, até agora, praticamente todo mês de 2026 trouxe um novo pior resultado histórico. Foram R$ 4,16 bilhões negativos no primeiro bimestre, R$ 4,4 bilhões no primeiro trimestre e R$ 5,9 bilhões no primeiro quadrimestre – esse último 117% acima do mesmo intervalo de 2025.

Os Correios continuam sendo o epicentro da crise, respondendo pela fatia mais expressiva do rombo, com prejuízo de R$ 5,6 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026 e completando o 16º trimestre seguido de resultado negativo. Em 2025, as perdas da estatal atingiram R$ 8,5 bilhões. Esse cenário contribuiu, segundo dados divulgados pelo Banco Central, para que as contas públicas registrassem um déficit primário de R$ 78,8 bilhões no acumulado dos primeiros sete meses deste ano, o que equivale a 1% do Produto Interno Bruno (PIB).

No caso somente do governo federal, o resultado ficou negativo em R$ 82,4 bilhões de janeiro a julho de 2026, contra um déficit de R$ 7 bilhões nos sete primeiros meses de 2025. Segundo, ainda, o Banco Central, a dívida pública brasileira atingiu 82,5% do PIB, o que equivale a R$ 10,95 trilhões, maior nível desde abril de 2021.

Uma coisa é certa: independentemente do candidato que vier a ser eleito presidente da República, o ano de 2027 será um ano dificílimo em relação à economia, já que vários fatores negativos ocorrerão conjuntamente. A dívida pública muito elevada, aliada aos juros que estarão ainda muito altos (a estimativa é que a Selic encerre 2026 em 13,75%), o que manterá a desaceleração de investimentos, são fatores que, acrescidos do pouco espaço que o governo terá para gastar (o Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027, apresentada pelo governo ao Congresso no final de agosto, prevê apenas 1,4% do PIB, ou R$ 213,7 bilhões destinados para investimentos discricionários pelo governo), formam um cenário preocupante.

Além disso, 2027 será o primeiro ano efetivo da Reforma Tributária, o que exigirá adaptação de empresas, sistemas, contratos, preços, créditos tributários e obrigações acessórias. Paralelamente, o agronegócio, que tem sido, a cada ano, um amortecedor importante na balança comercial, poderá ser impactado pelo risco climático associado ao forte El Niño previsto para 2026/2027.

Diante desse cenário, parece inevitável que o próximo governo, seja quem for o vencedor das eleições, já assuma com o ímpeto e a coragem para realizar um ajuste fiscal profundo, ou seja, melhorar suas contas, reduzindo despesas, cortando desperdícios, revendo benefícios e subsídios. Não há milagre e se há um ditado que ainda sobrevive a qualquer discurso populista é aquele que diz: “contra números não há argumentos”.

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*Advogado e presidente do Conselho Consultivo dos Diários Associados

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