Rio de Janeiro – Colocar a mais célebre atriz francesa da atualidade como figurante já é uma boa piada. Ainda mais quando a figura em questão é Isabelle Huppert. É esse o mote de “A ilustre desconhecida”, destaque da programação do Festival de Cinema Francês do Brasil, que segue até 11 de novembro em três salas de Belo Horizonte.
O diretor e roteirista Marc Fitoussi tem relação próxima com Isabelle – este é o terceiro longa em que a dirige. “Houve uma época em que a figura dela estava muito associada à frieza de ‘A professora de piano’, de Michael Haneke”, conta ele, que veio ao Brasil para o evento.
O primeiro papel que Fitoussi escreveu para a atriz foi o da mãe de família divertida em “Copacabana” (2010). Já em “Um amor em Paris” (2014) ele dirigiu Isabelle como agricultora. “Ela é considerada, de fato, a mulher mais parisiense e urbana que existe”, diz.
Corinne Maclou, protagonista de “A ilustre desconhecida”, surgiu como um novo desafio: criar personagem que fugisse ao perfil da estrela.
“Ofereci a Isabelle Huppert, atriz onipresente que está sempre atuando, o papel em que não atua nada. Propus essa ideia antes mesmo de começar a escrever. Ela aceitou na hora. Acredito que Isabelle enxergou um desafio condizente com sua disposição para interpretar qualquer coisa, pois há algo de extremo em ter de provar que ela consegue interpretar uma atriz que sonha em atuar.”
Na comédia dramática, a solitária Corinne não desiste de tentar encontrar um papel no cinema. Não é nem o caso de se tornar estrela, mas, pelo menos, interpretar algum personagem com falas. Incansável, mesmo depois de dezenas de negativas, ela não tem gênio fácil e tampouco se acomoda com a falta de direitos dos extras. Nos bastidores, é conhecida por distribuir currículos a torto e a direito.
Até que cruza com Sandrine Kiberlain. A atriz interpreta ela própria, ou uma versão insegura e em crise de si mesma. Sandrine presta atenção em Corinne – e as duas se tornam inseparáveis, para o bem e para o mal. A figurante se torna uma espécie de coach da estrela de cinema. “Gosto de que a dinâmica entre as duas seja tão instável, quase constrangedora”, afirma Fitoussi.
Para ele, Sandrine Kiberlain “tem o senso de humor, o distanciamento e a capacidade de rir de si mesma necessários para interpretar o papel que é o arquétipo da atriz egocêntrica e insuportável.”
Outros nomes do cinema vivem eles próprios no longa: Diane Kruger, Ana Girardot, Vincent Dedienne, Anne Marivin e Emmanuelle Bercot.
Assistimos a sequências de bastidores de filmes, festas e ensaios. Nesse sentido, “A ilustre desconhecida” faz uma ponte com a série “Dix pour cent” (2015/2020), que acompanha um grupo de agentes artísticos de Paris.
Glamour
Vários atores e diretores viveram a si mesmos no seriado, que este ano ganhou o longa produzido pela Netflix. O próprio Fitoussi escreveu e dirigiu alguns episódios – entre eles, não por acaso, estão os que trazem Isabelle e Sandrine no elenco.
“Quando trabalhei na série, havia a intenção clara de glamourizar o cinema, de mostrar a ‘máquina de sonhos’. No filme, trato do cinema visto de baixo. Se existem pessoas lá embaixo, é porque tem gente no topo. Portanto, há uma grande injustiça nesse meio. Não tive a intenção de cuspir no prato em que comi. Mas dizem sempre que o cineasta deve ter seu próprio olhar sobre as coisas. Acredito que tenho um olhar bem particular sobre esse universo, já que convivo com ele há muitos anos”, conclui Fitoussi.
“A ILUSTRE DESCONHECIDA”
(França/Bélgica, 2026, 115min.) – De Marc Fitoussi, com Isabelle Huppert e Sandrine Kiberlain. O filme terá sessões no Cine Belas nesta terça-feira (3/11), às 18h10; sábado (7/11), às 17h35, e dia 11/11, às 14h. No Centro Cultural Unimed-BH Minas e no Ponteio, sessões no domingo (8/11), às 20h25, e dia 10/11, às 17h. Programação completa em festivalcinefrances.com.br
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
* A repórter viajou a convite do Festival de Cinema Francês do Brasil
