Foram dias de imersão em estúdio, entre partituras e letras, até que duas gerações da indústria fonográfica se encontrassem no álbum “Chico 2.0”. Felipe Poeta, de 24 anos, e Alê Siqueira, de 54, uniram experiências para revisitar 10 clássicos de Chico Buarque no álbum com vozes de diferentes gêneros, como funk, rap, trap e soul.



Parceria da Central Única das Favelas (Cufa) com as gravadoras FRecords, Tha House Company e Universal Music Brasil, o projeto reflete as experiências distintas dos dois produtores. Poeta traz a vivência da cena urbana e da produção de músicos mais jovens; Siqueira carrega décadas de trabalho ao lado de nomes como Marisa Monte e Arnaldo Antunes.



Desafio


No estúdio, a proposta foi encontrar um ponto de contato entre essas referências sem transformar as canções de Chico em simples releituras.



A escolha não foi feita apenas a partir da popularidade das composições. A ideia era encontrar intérpretes capazes de estabelecer uma relação pessoal com cada canção, levando em conta trajetórias, sonoridade e os temas com que trabalhavam em seus próprios repertórios.



“Se Chico fosse desta geração, ele com certeza seria rapper”, diz Siqueira. Para o produtor, a aproximação do artista com o gênero está menos na sonoridade e mais na forma como ele observa a sociedade.



Chico cria personagens, narra conflitos e retrata o cotidiano brasileiro em suas canções, explica o produtor. São elementos que também aparecem nas letras da música urbana contemporânea.



Por isso, muitos rappers foram convidados para integrar o álbum. Nas releituras, personagens das crônicas de costumes cantadas por Chico ganharam novos nomes e vozes. A intenção foi mostrar como o ritmo dos beats e a riqueza melódica da obra de sua obra se complementam.



O cearense Don L responde pela primeira faixa, gravada em colaboração com Vandal, artista de Salvador. A dupla abre o álbum com “O que será (À flor da terra)”, canção que ganhou notoriedade na voz de Milton Nascimento.



Don L buscou levar a música para seu próprio terreno. A melodia foi permeada pelo flow, com mudanças na cadência das palavras e no ritmo dos versos. “Não interpretei a música como cantor, mas como rapper”, diz.



A relação de Don L com Chico começou na infância. “O meu guri” foi uma das primeiras músicas do compositor que ele ouviu, porque a mãe costumava cantá-la quando ele era criança. Só quando cresceu, percebeu que a canção sobre o amor incondicional da mãe pelo filho bandido era “uma música muito pesada”.



A obra de Chico também chegou cedo à vida de Júlia Mestre. “João e Maria”, que ela canta no álbum ao lado de TZ da Coronel, estava entre as canções que aprendeu a tocar no violão antes de começar a compor. O som suave da cantora se contrapõe à voz grave do rapper.



Júlia começou a carreira no audiovisual, no filme “Confissões de adolescente”, e depois integrou o grupo Bala Desejo, vencedor do Grammy Latino em 2022. TZ iniciou a carreira nas batalhas de rima do Morro do Limão, em Cabo Frio (RJ), em 2017, e ganhou projeção no trap com “Anota placa”, de seis anos atrás.



As diferenças entre os dois também aparecem no timbre. “Tenho uma voz mais aveludada e suave, enquanto TZ tem voz mais grave e forte”, diz a cantora.



A ideia foi explorar esse contraste na canção, composta durante a ditadura militar, que também esconde outras camadas sob a aparente inocência da letra.



“Não importa quanto tempo passe, letras de Chico fazem a gente parar para pensar”, diz Júlia. (Luanda Costa)

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“CHICO 2.0 (VOL. 1)”
• Vários artistas
• Universal Music
• Disponível nas plataformas digitais


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